Perder 12 quilos em três meses foi apenas um dos feitos de Filipe Bragança em sua intensa preparação para interpretar o navegante Amyr Klink em “100 dias”, filme que estreia nos cinemas amanhã. O ator de 25 anos gravou o longa aos 23, em 2024, quando precisou embarcar numa exigente travessia corporal e mental para levar às telonas a ficção baseada na história real do brasileiro que cruzou o Oceano Atlântico remando sozinho durante 100 dias, da Namíbia, na África, até a capital da Bahia, em 1984.
— Meu maior desafio físico foi o processo de emagrecer para interpretar Amyr. Fui de 80kg para 68kg em três meses — conta Bragança.
O artista, que costuma manter um corpo mais musculoso que o porte esguio do marinheiro, combinou exercícios físicos a uma dieta balanceada, num processo tão focado que preocupou Carlos Saldanha, o diretor do filme. — Teve uma hora em que eu disse para ele parar.
Falei: “Não quero que você fique doente, pelo amor de Deus!” — revela Saldanha. Filipe Bragança (à esquerda) interpreta Amyr Klink (à direita) em '100 dias'
Fabio Braga/Pivô Audiovisual/Divulgação e Laura Fauzoni/Divulgação A dieta regrada não só fez o ator ficar mais semelhante fisicamente com o navegador, mas também o preparou para encenar a disciplina alimentícia que Klink precisou ter durante a sua longa viagem em um pequeno barco.
O marinheiro levou consigo comidas desidratadas, separadas rigorosamente para cada momento que viesse a encarar; havia desde sacos com alimentos específicos para constipação a refeições ideais para aliviar eventuais diarreias. Tudo preparado para ser hidratado e cozido com água do mar, o que tornou a logística de estoque no espaço reduzido viável.
Ele comia, pontualmente, quatro vezes por dia. — Ele (Filipe) era muito certinho, levava a comida toda regrada e balanceada.
Era quase o Amyr no barco (risos) — brincou o diretor do filme. Aulas semanais de navegação
Além de perder peso, Bragança precisou aprender a remar. O ator teve experiências prévias com o mar quando interpretou o mergulhador Victor Dantas, na série “Dom”, do Prime Video, mas nada comparável à intimidade que criou com a navegação para viver Amyr Klink.
— Aprendi o básico de mergulho e veleiro em “Dom”. Durante a preparação para “100 dias”, tive que aprender mesmo a remar.
Tive aulas semanais com barcos de verdade e canoas esportivas. E fui muito feliz nesse processo.
Um dos privilégios da minha profissão é poder viver essas experiências — afirma. Filipe Bragança fez aulas de remo na raia da Universidade de São Paulo e no mar
Divulgação O esforço rendeu bons resultados ao filme, que é concentrado em cenas de Klink remando sem companhia em alto-mar.
Para alcançar o feito de ir da Namíbia até o Brasil em 100 dias, o navegante remava 8h por dia, se guiando por uma carta náutica e comandos de rádio de seu irmão e copiloto Tymur (João Vitor Silva) e do Comandante Ayres, Tripulante da embarcação Felipe Camarão que, por acaso, intercepta a frequência da comunicação dos dois familiares.
Este último navegante é interpretado pelo próprio Amyr, o que cria uma cena de encontro emocionante no longa. Desafio de encenar a solidão no mar
Para ilustrar tantos momentos no meio do oceano, inclusive situações de perigo, como fortes tempestades, redemoinhos e grande presença de tubarões, Carlos Saldanha precisou revezar as gravações com Bragança entre o mar e um tanque cenográfico. — O planejamento de produção foi em cima de o que a gente conseguiria filmar no mar e o que a gente precisaria filmar fora do mar.
Filmamos muita coisa no mar, passamos uma semana em Bertioga, no Litoral Norte de São Paulo filmando. É muito desafiador filmar no mar porque temos correntes e questões climáticas em volta, mas foi muito divertido.
Já o tanque nos deu possibilidade de criar momentos que seriam impossíveis de filmar no mar, como tempestades e cenas noturnas — revelou Carlos. Cenas marítimas de '100 dias' foram gravadas em tanque cenográfico (à esquerda) e no mar de Bertioga, em São Paulo (à direita)
Divulgação As cenas no oceano são invadidas por rápidos contatos com a família, via rádio e flashbacks afetivos, e por discussões com Tymur (João Vitor Silva), seu irmão; Asa Frieberg (Philippine Leroy-Beaulieu), a mãe doce e atenciosa do navegante; e Jamil Klink (Felipe Camargo), o pai rígido que não apoia a aventura do filho.
No longa, também são lembrados os desafios do preparo para a jornada transatlântica, que nunca tinha sido feita anteriormente: Klink é reconhecido pelo “Guinness book”, o livro dos recordes, como a primeira pessoa a atravessar o Atlântico a remo. O marinheiro que hoje tem 71 anos completou a travessia aos 29.
A solidão no mar também exigiu uma introspecção de Filipe, que chegou a passar uma noite sozinho no barco cenográfico, sem celular. — A preparação foi solitária.
Tentei me isolar do mundo e ter o mínimo de estímulo externo. Ficar sozinho e desfrutar da própria companhia é muito bom — conclui.
A travessia até "100 Dias": Filipe Bragança passou por preparação intensa para dar vida ao navegador Amyr Klinknos cinemas Adriano Vizoni/ Divulgação
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