A proteína é a “injeção” da vez no agronegócio

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Canetas emagrecedoras aceleram uma mudança que vai além do apetite: a indústria procura atender consumidores mais atentos à composição dos alimentos Até outro dia, proteína era conversa de bife, ovo e whey no shaker.

Agora, ela também aparece no suco de laranja e até na cerveja que chegou à Oktoberfest de Blumenau. Quando o nutriente entra em tantos produtos, vale fazer a pergunta que o rótulo nem sempre responde: proteína é sinônimo de saúde?

As canetas emagrecedoras ajudaram a pôr essa conversa na mesa e no agronegócio. No Bradesco BBI Agro Summit, em setembro, Pedro Fernandes, sócio da McKinsey, apresentou dados de uma pesquisa feita com a Scanntech.

O levantamento ouviu mais de 2 mil pessoas entre março e abril e estimou que cerca de 6% da população adulta brasileira usava medicamentos à base de GLP-1. Metade desses usuários disse ler informações nutricionais nos rótulos, ante 15% dos entrevistados que não usavam os medicamentos.

O dado mostra uma diferença de comportamento. Não prova, porém, que as canetas estejam levando o consumidor a comprar mais carne.

Uma coisa é olhar o rótulo com mais atenção e outra, é o que vai parar no carrinho. A indústria do agro acompanha as duas.

Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, chamou esse movimento de “redescoberta da proteína como indutora de saúde”. A empresa observa consumidores interessados não só na quantidade de proteína, mas também na composição dos produtos, no perfil de aminoácidos e nas aplicações funcionais.

É aí que entra a disputa por valor agregado. A JBS investe em pesquisa de hidrólise e biotecnologia para identificar peptídeos bioativos e ampliar o uso de matérias-primas da cadeia.

Em Florianópolis, a JBS Biotech integra essa frente de desenvolvimento. Para a carne bovina, a oportunidade pode estar em cortes e produtos que entreguem qualidade e conveniência.

Não significa que quem usa caneta vá necessariamente comprar carne mais cara. Significa que, se o consumo mudar, a indústria quer entender pelo que o consumidor estará disposto a pagar.

Em agosto, a Prat’s e a Gelprime anunciaram um suco de laranja com 15 gramas de proteína por porção. O colágeno hidrolisado é acrescentado à bebida, que tem 94,9% de suco integral e 5,1% de proteína.

A proteína não vem da laranja: vem do ingrediente adicionado. A novidade aproxima a citricultura, a produção de ingredientes e a indústria de alimentos.

Em Blumenau, a proteína chegou a outro copo. Na reta final da Oktoberfest, que termina no domingo (25) a Spaten Pro entrou na oferta da festa como uma bebida escura e sem álcool, com 10 gramas de proteína por lata de 350 ml.

A fórmula combina whey e colágeno. A cena resume bem a nova prateleira: proteína no suco, proteína na cerveja, proteína em barras, iogurtes e bebidas.

Para o agronegócio, isso abre espaço para novos ingredientes, formulações e mercados. Para o consumidor, pede um pouco mais do que contar gramas.

Um produto pode ter proteína e também reunir outros ingredientes que precisam ser avaliados. O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira alerta que adicionar nutrientes a alimentos ultraprocessados não garante, por si só, um benefício claro e pode fazer o produto parecer mais saudável do que é.

Isso também não torna a proteína vilã, nem significa que todos esses produtos sejam iguais. Significa que a quantidade destacada na frente da embalagem não conta a história toda.

A composição, os demais nutrientes e o lugar daquele produto na alimentação também entram na conta. A indústria está tentando fazer a proteína caber em todas as ocasiões, da refeição ao brinde.

O agronegócio tem uma oportunidade real de agregar valor, mas não basta colocar o nutriente no rótulo e deixar que ele faça sozinho o trabalho de uma promessa de saúde. A proteína é a “injeção” da vez no setor e o consumidor ainda quer saber o que vem junto.

Porque, no fim, o produto precisa convencer no rótulo, no prato e no bolso. Aí, sim, a “injeção” terá o “efeito perfeito”.

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