247 – A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a companhia começou a discutir novas medidas para enfrentar a escalada internacional do petróleo, que atingiu US$ 117 por barril. A executiva reconheceu que a persistência das cotações elevadas contrariou as projeções do mercado e exige uma reavaliação da estratégia da companhia, especialmente em relação aos preços dos combustíveis.
Em entrevista ao jornal O Globo, publicada neste sábado (24), Magda destacou que a mudança nas condições internacionais ocorreu nas últimas três semanas e que a diretoria ainda não definiu quais providências serão adotadas. “O que nós vamos fazer não está definido.
Ainda estou discutindo isso com a minha diretoria e com a minha equipe. Mas temos que fazer alguma coisa em relação a isso”, declarou.
A presidente da Petrobras explicou que as projeções utilizadas pela companhia indicavam uma redução significativa das cotações até dezembro. Segundo ela, a expectativa predominante era de que o barril terminasse o ano entre US$ 65 e US$ 70, diante da perspectiva de um conflito de curta duração no Oriente Médio.
“Ninguém imaginou que nós íamos ter um final de outubro com o barril a US$ 116. Agora vamos ter de discutir isso.
Estamos começando a tratar desse assunto, de um cenário que não era previsível por nenhum dos analistas que nos dão suporte”, afirmou. Petrobras rejeita repetir política de preços do governo Bolsonaro
Magda defendeu que a Petrobras preserve a previsibilidade de sua política comercial, em vez de transferir automaticamente ao consumidor todas as oscilações internacionais. A executiva citou experiências anteriores para argumentar que o acompanhamento imediato das cotações externas pode prejudicar tanto a empresa quanto o mercado brasileiro.
Segundo ela, a estratégia adotada em 2018 e 2019, durante o período de maior alinhamento dos preços domésticos às referências internacionais, provocou perdas comerciais importantes. “E um aprendizado importante de 2018 e 2019 é que fomos perseguir pari passu os preços internacionais e, no final, buscando ganhar muito dinheiro, acabamos perdendo dinheiro e market share, que foi difícil recuperar depois”, declarou.
Em 2019, a participação da Petrobras no mercado brasileiro de diesel recuou de 88% para 77%. Na gasolina, a fatia caiu de 87% para 76%, em meio ao avanço dos combustíveis importados.
A presidente também mencionou a instabilidade administrativa registrada em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, quando a Petrobras passou por três mudanças de comando entre abril e junho. De acordo com Magda, a sucessão de crises prejudicou a percepção dos investidores de longo prazo sobre o valor da companhia.
Na avaliação da executiva, os grandes fundos internacionais priorizam a estabilidade das operações e a capacidade de planejamento da empresa. Ela informou que, entre 16 grandes fundos globais que investem na Petrobras, 13 mantêm recomendação de compra das ações.
Petrobras pretende voltar à distribuição de combustíveis Outro ponto destacado por Magda foi a possibilidade de a Petrobras retornar ao mercado de distribuição de combustíveis, atividade da qual se afastou após a privatização da BR Distribuidora.
A presidente considera que a saída desse segmento reduziu a capacidade da companhia de influenciar os preços cobrados ao consumidor final e abriu espaço para margens mais elevadas na cadeia de comercialização. “A Petrobras tinha entre 25% e 30% do market share da revenda.
Eu não posso chamar 25% de monopólio, mas isso é suficiente para segurar um pouco a especulação desenfreada”, afirmou. Magda citou dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) segundo os quais a margem da distribuição e revenda de diesel aumentou 158% em março, período em que o governo federal anunciou subsídios fiscais para amortecer o impacto da elevação dos preços.
“Se a Petrobras estivesse na revenda, essa especulação seria muito mais contida”, avaliou. A executiva informou que o conselho de administração já recomendou o retorno da companhia ao setor de distribuição.
Entretanto, a Petrobras está submetida a uma cláusula de não concorrência com a Vibra Energia, válida até agosto de 2029. A discussão também ganhou espaço na campanha presidencial.
No debate do último domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a saída da Petrobras do controle da antiga BR Distribuidora. Companhia quer atender a totalidade do mercado brasileiro de diesel
A crise energética internacional também levou a Petrobras a rever suas metas de abastecimento. Magda anunciou que a companhia passou a trabalhar com o objetivo de atender 100% da demanda nacional de diesel, ampliando a ambição anterior, que era alcançar 85%.
Atualmente, a estatal responde por aproximadamente 70% a 75% do fornecimento do combustível no país. A mudança está relacionada aos efeitos da guerra envolvendo Estados Unidos e Irã sobre o mercado internacional de derivados.
O conflito comprometeu instalações de refino, elevou os custos de transporte marítimo e provocou dificuldades nas rotas tradicionais de abastecimento. “Segurança energética, preço do frete e abastecimento do nosso mercado interno, tudo isso fala pela autossuficiência de derivados que não era o nosso alvo”, explicou.
Para alcançar a nova meta, a Petrobras estuda aumentar a capacidade de suas refinarias e modificar processos industriais para elevar a produção de diesel, reduzindo proporcionalmente a fabricação de derivados de menor valor comercial. No Complexo Boaventura, no Rio de Janeiro, a companhia identifica potencial para acrescentar 100 mil barris diários à produção de derivados.
A executiva também relatou crescimento da procura internacional pelo petróleo brasileiro. Segundo ela, o Japão comprou petróleo cru da Petrobras pela primeira vez neste ano, em um movimento associado à busca de fornecedores alternativos aos países do Oriente Médio.
Produção poderá permanecer estável até 2035 A Petrobras também prepara uma expansão de sua capacidade produtiva para evitar o declínio esperado em campos maduros e manter o volume de extração até a entrada em operação de novas fronteiras exploratórias.
Magda informou que a companhia trabalha com aproximadamente 40 projetos de desenvolvimento complementar ao longo de quatro anos, destinados a ampliar a capacidade de plataformas já existentes. Um dos exemplos é a plataforma Almirante Tamandaré, cuja capacidade operacional passou de 225 mil para 270 mil barris diários.
Somadas, as iniciativas poderão acrescentar cerca de 520 mil barris de petróleo por dia à capacidade de produção, volume equivalente ao de aproximadamente três grandes plataformas. A estratégia permite antecipar resultados sem depender exclusivamente da construção e contratação de novas unidades, processos que normalmente exigem vários anos.
“Se antes você previa um declínio nos campos, porque estamos falando de um recurso não renovável, agora haverá um platô (manutenção) da produção, até 2034 ou 2035, que é mais ou menos quando espera que vai começar a Margem Equatorial”, afirmou. Margem Equatorial poderá receber novas plataformas
A presidente da Petrobras também apresentou perspectivas para a exploração da Margem Equatorial, considerada estratégica para a reposição das reservas brasileiras de petróleo. Segundo Magda, existe a possibilidade de instalação de uma plataforma no Rio Grande do Norte e de até duas unidades na região do Amapá, desde que os estudos exploratórios confirmem as expectativas da companhia.
A eventual expansão exigirá infraestrutura logística de apoio, incluindo instalações em Belém, no Pará, e Oiapoque, no Amapá. A executiva ressaltou que o avanço tecnológico permite investigar reservas em profundidades antes consideradas inacessíveis.
Atualmente, uma sonda utilizada pela Petrobras em Oiapoque opera em lâmina d’água de 2.880 metros. A companhia também aposta em novas descobertas na Bacia de Campos, onde adquiriu recentemente blocos exploratórios.
As áreas estão situadas em águas ultraprofundas e poderão receber atividades de perfuração em 2027 ou 2028, dependendo do licenciamento ambiental. Magda demonstrou confiança no potencial dessas regiões e na capacidade de expansão da estatal.
“Eu sempre digo para todo mundo e isso não é blefe: quem apostar contra a Petrobras vai perder”, declarou. Novo plano de negócios poderá elevar investimentos
A Petrobras deverá apresentar em novembro seu novo Plano de Negócios, com as prioridades de investimentos e expansão da companhia para os próximos anos. O planejamento atualmente em vigor, referente ao período de 2026 a 2030, prevê US$ 109 bilhões em investimentos.
Questionada sobre a possibilidade de o próximo documento superar esse montante, Magda não confirmou valores. A executiva ressaltou, porém, que o cenário mudou significativamente desde a elaboração do plano anterior, quando o petróleo era negociado em torno de US$ 60 por barril.
A presidente também afastou a hipótese de mudanças imediatas na estratégia de longo prazo em razão das eleições presidenciais. Segundo ela, os projetos petrolíferos exigem entre sete e dez anos para atingir a maturidade, o que demanda continuidade no planejamento.
Além dos investimentos em exploração e refino, Magda destacou o impacto econômico da Petrobras. A companhia possui cerca de 43 mil empregados e estima contribuir para a manutenção ou geração de aproximadamente 2 milhões de postos de trabalho, considerando efeitos diretos, indiretos e induzidos.
A executiva também mencionou os recursos destinados aos estados produtores e à cadeia econômica do petróleo. Segundo os números apresentados, o Rio de Janeiro recebeu aproximadamente R$ 24 bilhões em receitas relacionadas ao setor no ano passado, enquanto os valores atribuídos à Petrobras em São Paulo e Minas Gerais alcançaram R$ 26,5 bilhões e R$ 15,3 bilhões, respectivamente.
Com o petróleo novamente acima de US$ 100, a Petrobras enfrenta o desafio de conciliar expansão produtiva, segurança energética, rentabilidade e estabilidade dos combustíveis. As decisões sobre a nova conjuntura ainda estão em discussão na diretoria da estatal.
Brasil 247