A professora que sequestrou avião com os filhos e fugiu para Cuba

A professora que sequestrou avião com os filhos e fugiu para Cuba

 

Fonte: Bandeira



A professora Marília Guimarães embarcou em um avião segurando os dois filhos pequenos e levando seis revólveres grudados no corpo, sob seu vestido. Assim que a aeronave modelo Caravelle da antiga empresa Cruzeiro do Sul decolou, em Montevideo, no Uruguai, com 21 passageiros e seis tripulantes, um grupo de militantes da luta armada contra a ditadura no Brasil tomou o controle do voo 114 e obrigou o piloto a desviar o destino de Porto Alegre para Havana, em Cuba. Tinha início, naquele dia 1º de janeiro de 1970, o mais longo sequestro de um avião realizado durante o regime militar.

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Mais de 55 anos depois, a ação, que mobilizou os governos de vários países da América Latina, serviu de base para a minissérie de quatro capítulos "Caravelle 114", que estreou semana passada no Canal Brasil, do Globoplay, com direção de William Giagioli e a atriz Camila Carneiro como protagonista.

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Na ditadura militar, organizações clandestinas de combate ao regime realizaram ações armadas como assaltos e sequestros para financiar o funcionamento desses grupos e libertar presos políticos. Foram iniciativas violentas e de afronta ao governo que ocorreram, principalmente, entre 1968 e 1973, a fase mais dura da repressão militar, chamada pelos historiadores de "anos de chumbo". Nesse período, agremiações de guerrilheiros sequestraram diplomatas estrangeiros no Brasil para exigir a libertação de militantes presos em porões do regime, bem como a deportação deles para outros países.

Cena da minissérie "Caravelle 114"

Divulgação Canal Brasil

O sequestro de aviões também era uma medida drástica para combater o autoritarismo do período. Um dos objetivos do grupo que tomou o voo 114 era forçar o regime a reconhecer que dois militantes, Fausto Machado Freire e Marco Antônio Meyer, estavam presos secretamente em alguma cadeia não informada do aparato de repressão. Pelo menos em tese, o reconhecimento público poderia garantir a integridade física dos detidos, evitando que fossem mortos em sessões de tortura, algo que, como sabemos hoje devido a farta documentação, acontecia com frequência no regime.

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Fausto Machado era o marido da professora Marília Guimarães, que, por sua vez, dirigia uma escola em Coelho Neto, na Zona Norte do Rio. Além de atender a centenas de alunos, a unidade de ensino abrigava reuniões secretas da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um dos principais grupos da luta armada, do qual fazia parte Carlos Lamarca, o capitão que abandonou o Exército para engrossar as fileiras de combate à ditadura e, com isso, tornou-se o inimigo número 1 do governo. O mimeógrafo da escola em Coelho Neto era bastante usado para fazer cópias de panfletos revolucionários.

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Depois que o marido da Marilia foi capturado, por participar de um assalto a banco, ela própria chegou a ser presa e interrogada durante três dias, mas foi liberada. Sozinha e responsável pelos filhos, de 2 e 3 anos de idade, a educadora passou meses vivendo na clandestinidade com os meninos, dormindo cada noite num lugar diferente, até entender que precisava sair do Brasil. Foi, então, que os membros da VPR elaboraram o plano para tomar o controle de um voo comercial e desviá-lo para Cuba, seguindo o exemplo de outras ações similares ocorridas ao longo de 1969.

Marilia Guimarães com os filhos em foto sem data informada

Reprodução

A professora se encontrou com colegas guerrilheiros em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Durante 15 dias, para que Marilia pudesse participar das reuniões sobre os ajustes finais do plano, seus filhos ficaram sob os cuidados da então militante Dilma Rousseff. Hoje ex-presidente do Brasil, Dilma tinha sido casada com Claudio Galeno, um dos arquitetos do sequestro do Caravelle 114.

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No dia 1º de janeiro de 1970, enquanto o então presidente de República, general Emílio Garrastazu Médici, descansava depois de almoçar numa churrascaria com parentes e auxiliares do governo, Marilia e outros cinco guerrilheiros, entre eles a alemã Isolde Sommer, embarcaram no voo da Cruzeiro do Sul que tinha o Rio de Janeiro como destino final. A professora não teve dificuldade para entrar com as armas sob o vestido porque, naquela época, não havia detectores de metal em aeroportos. Seus colegas pegaram os revólveres com ela no momento em que os passageiros tomavam assentos.

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O sequestro foi anunciado minutos depois da descolagem, quando um dos guerrilheiros foi até a cabine e mandou o comandante mudar a rota para Cuba. O piloto, então, rebateu dizendo que seria impossível, já que havia um problema numa das turbinas, e o avião só tinha autonomia de duas horas de voo. Por esse mesmo motivo, a aeronave deveria descer em Porto Alegre, onde os passageiros trocariam de avião para seguir viagem ao Rio. Houve uma discussão entre os sequestradores e a tripulação até se chegar à decisão de que todos iriam para Cuba fazendo paradas no caminho.

Marilia Guimarães em foto de 2017, ao lançar livro

Divulgação

Começou então uma longa, tensa e exaustiva viagem, com paradas na Argentina, no Chile, no Peru e no Panamá, antes de chegar a Havana. A "escala" mais tensa aconteceu em Lima no Peru. Militares cercaram o avião por ordem do presidente, o general Velasco Alvarado, e tentaram a todo custo uma rendição dos sequestradores. Chegaram a oferecer asilo político para Marília, mas ela se recusou, sabendo que isso significaria a prisão dos companheiros. Pra piorar, havia um problema técnico na turbina impedindo a decolagem do avião, que ficou estacionado no aeroporto durante 27 horas.

A parada seguinte, na Cidade do Panamá, também foi nervosa. Quando o oficial de bordo Hélio Borges desceu do avião para cuidar do reabastecimento, um militar brasileiro tentou convencê-lo a subir de volta com uma arma e atirar num dos sequestradores, abrindo caminho para uma invasão, mas ele se recusou, temendo pela própria vida e dos demais. A negativa gerou problemas para o tripulante, que foi acusado de cúmplice e nunca mais conseguiu emprego na área. Em 2016, após um longo processo na Justiça, ele recebeu uma indenização como perseguido político e passou a ganhar pensão mensal.

O Caravelle chegou a Havana no dia 4 de janeiro, quase 72 horas depois de sair de Montevideo, e os passageiros sequestrados com o avião só retornaram ao Brasil três dias depois, exaustos e com fome. Marilia Guimarães morou em Cuba durante dez anos com seus filhos e voltou ao Brasil depois da Lei da Anistia, promulgada em 1979. Nos anos 1990, ela se tornou empresária do ramo da informática. A escreveu dois livros sobre os tempos de guerrilheira. O último, “Habitando o tempo: Clandestinidade, sequestro e exílio” (Editora LiberArs), foi lançado em 2017.