Há duas semanas, prometi comentar o livro do irmão da princesa Diana. “Swan song: Diana, my sister” (“O canto do cisne: Diana, minha irmã”), de Charles Spencer, chegou às livrarias no dia 22 .
São memórias de infância entrelaçadas com os bastidores do funeral de 1997, escritas pelo homem que fez, na Abadia de Westminster, um dos discursos mais assistidos da história. Um público de cerca de 2,5 bilhões de pessoas.
Spencer é historiador, escreve com elegância e tenta devolver à irmã a dimensão humana que o mito apagou. Sua Diana está longe da mocinha tímida do seriado “The crown”.
É uma menina destemida, que desliza pelo corrimão contra as regras da casa, enfrenta com um canivete uma enguia de mais de um metro numa pescaria e empurra escada abaixo a madrasta que acabara de insultá-la. Cuidou do irmão caçula como uma mãe, depois que a mãe de verdade saiu de casa.
São as melhores páginas. O relato do cortejo fúnebre também é dilacerante.
Spencer caminha atrás do caixão ao lado dos sobrinhos, William e Harry, proibido de olhar para os lados. O choro da multidão, escreve, funcionava como “uma forma de tortura mental”.
No trem rumo a Althorp, onde a irmã seria enterrada, recebe o recado de que a rainha se dispunha a devolver a Diana o título de Alteza Real, retirado no divórcio. “Qual o sentido, agora? Diana está morta”, responde.
Depois vêm as páginas destinadas a vender jornais e cliques. Segundo Spencer, o então príncipe Charles apertou a cintura da noiva e comentou que ela estava gordinha.
Na véspera do casamento, avisou que não a amava. Logo após o acidente fatal em Paris, teria soado “exultante, como um ganhador da loteria” e dito ao cunhado: “Fique tranquilo, vamos esquecê-la em breve”.
O Palácio de Buckingham, que por princípio não comenta livros, comentou. Disse que o luto “pode nublar a memória”.
Os trechos mais venenosos foram vendidos antes ao jornal Daily Mail, que os publicou em capítulos diários, em aperitivos calculados. Depois vieram as entrevistas, recortadas para as redes, em intensa campanha de divulgação.
Comentaristas da realeza apontaram imprecisões históricas e, em entrevista à BBC, Spencer pareceu recuar da história do rei eufórico diante da morte da ex-mulher, o que de certa forma abala a credibilidade na vendeta contra o ex-cunhado. Por fim, por que somente agora, quase 30 anos depois? Segundo o conde, nenhum dos pais passou dos 70, ele tem 62 e sentiu o peso do “se não agora, quando?”.
Define o resultado como “um tributo simples de um irmão a uma irmã extraordinária”. No funeral, Spencer disse a frase que fulminou o mundo: a moça batizada com o nome da deusa da caça havia se tornado a pessoa mais caçada da era moderna.
Tinha razão. A ironia é perceber que a caçada nunca acabou, só trocou de mãos.
Depois dos paparazzi, vieram os mordomos com memórias, os médiuns com recados do além, os biógrafos, os filmes, um filho com livro e seriado e, agora, um irmão. Todos juram falar em nome dela.
A princesa, que não pode desmentir ninguém, segue rendendo. A metáfora do canto do cisne é antiga.
No “Fédon”, Platão põe Sócrates, horas antes da cicuta, explicando que os cisnes cantam mais alto e mais belo na véspera da morte, felizes por partirem ao encontro de Apolo. Shakespeare adotou a ideia, e Emília, em “Otelo”, pede para morrer como o cisne, em música.
Em 1905, Fokine criou para Anna Pavlova “A morte do cisne”, e o solo virou o adeus mais famoso do balé. Diana, que sonhou ser bailarina, teria reconhecido a referência.
Ela abraçou causas que quase ninguém ousava tocar, como a Aids, numa época de preconceito feroz, e a proibição das minas terrestres. Foi muito além da princesa caridosa; converteu-se numa ativista séria, engajada e potente.
Esse sim, foi seu grande canto, que segue inesquecível aos nossos ouvidos.
O Globo