Onda azul nas midterms: democratas viram sete cadeiras no Senado, ganham a Câmara e cinco governos. Entenda o que o resultado muda para Trump, o mercado, as tarifas e o caso Flávio Bolsonaro.
Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria. Não foi uma maioria apertada.
Foi uma onda azul nas midterms. Os democratas controlarão as duas Casas do Congresso americano pelos dois últimos anos do mandato de Donald Trump, e a margem surpreendeu até quem já apostava em vitória.
No Senado, os democratas passaram de 47 para pelo menos 54 cadeiras, contra 44 dos republicanos, com Alasca e Mississippi ainda sem projeção. Viraram sete vagas: Iowa, Kansas, Ohio, Maine, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Texas.
Seguraram Geórgia, Michigan e New Hampshire. Na Câmara, a Associated Press estima cerca de 255 cadeiras democratas, e o NBC News projeta pelo menos 258, ante as 218 necessárias.
Mais de duas dúzias de distritos mudaram de mão. E o partido levou cinco governos (Geórgia, Iowa, Texas, Ohio e Nevada), o que lhe dá a maioria dos governadores pela primeira vez em 16 anos.
A Flórida ficou com os republicanos. É apenas a quinta vez desde a Segunda Guerra Mundial que um partido vira as duas Casas numa eleição de meio de mandato.
O Texas simboliza a virada. James Talarico derrotou o procurador-geral Ken Paxton por cerca de 55% a 43%, e Gina Hinojosa tirou o governo do republicano Greg Abbott, apesar de ter gastado cinco vezes menos em propaganda, segundo a AP.
São as primeiras vitórias democratas estaduais no Texas em mais de três décadas. No Kansas, não se elegia um democrata para o Senado desde os anos 1930.
No Maine, Troy Jackson encerrou a carreira de três décadas de Susan Collins. Na Carolina do Norte, Roy Cooper venceu por cerca de 59% a 39%, e em Ohio, Sherrod Brown derrotou o senador Jon Husted.
Nas pesquisas de saída da NBC, em cinco dos seis estados republicanos virados e no Alasca, mais da metade dos eleitores desaprova Trump. O custo de vida, a gasolina e a guerra com o Irã foram o pano de fundo.
A mudança dos mapas no meio da década, que os republicanos tentaram em sete estados para ganhar 15 cadeiras, rendeu pouco: os democratas ficaram com pelo menos oito delas. Em entrevista ao New York Times, Trump disse estar “absolutamente disposto” a aceitar os resultados e que trabalhará com os democratas, encerrando, por ora, a dúvida sobre se contestaria.
Ao mesmo tempo, publicou que os republicanos teriam vencido “de lavada” se ele estivesse na cédula, culpou o governador Abbott e a Fox News, disse estar “um pouco surpreso” e postou uma foto de um boné com a palavra “VETO”. O presidente da Câmara, Mike Johnson, disse que os republicanos não se deixarão intimidar por uma eleição.
O líder democrata Hakeem Jeffries, que deve ser o primeiro presidente negro da Câmara, prometeu, nas primeiras cem horas, restaurar os subsídios do plano de saúde, reverter cerca de US$ 1 trilhão em cortes do Medicaid, tentar reverter as tarifas e pressionar pelo fim da guerra. Também prometeu investigar o governo, incluindo os negócios da família Trump com criptomoedas, contratos de Elon Musk, imigração e a condução da guerra.
O Senado democrata poderá barrar indicados, inclusive para uma vaga na Suprema Corte. Mas os limites existem.
Trump mantém o veto, e derrubá-lo exige dois terços das duas Casas. A maioria das leis ainda precisa de 60 votos no Senado.
E o presidente conserva o poder sobre comércio, imigração e operações militares. O novo Congresso só toma posse em 3 de janeiro, e até lá o atual continua.
Nos Estados Unidos, os índices futuros recuperaram as perdas da madrugada e o rendimento do título de 10 anos caiu para cerca de 4,9%. O dólar enfraqueceu, o petróleo Brent recuou 1,4%, para perto de US$ 102, e ações ligadas à inteligência artificial e à defesa caíram, por temores de mais fiscalização.
Analistas avaliam que o efeito direto na economia não é grande, e que o risco de uma escalada no Irã continua. No Brasil, o dólar caiu 0,34% na manhã de hoje, a R$ 5,47, e o Ibovespa subia cerca de 1%, depois de fechar a terça no menor nível desde janeiro.
O alívio é modesto: o que pesa no real e na bolsa é a agenda doméstica, e o Copom decide a Selic hoje à noite, com expectativa de manutenção em 13,75%. Tarifas.
As sobretaxas de até 37,5% vêm da Seção 301 e continuam. A Câmara democrata pode pressionar e aprovar projetos, mas Trump vetaria, e, pela minha leitura, o atalho que o Senado usou em 2025 contra as tarifas de emergência não vale para a Seção 301.
Esperem pressão, não revogação. A negociação, com a proposta americana esperada em novembro, pode ganhar espaço, porque um Trump mais fraco em casa tem menos incentivo para endurecer.
É uma hipótese, e as 21 exigências americanas continuam na mesa. Flávio Bolsonaro.
Os democratas da Câmara, que já cobraram do secretário de Estado, Marco Rubio, explicações sobre a entrada do senador no país, com prazo em 13 de novembro, passam a ter poder de convocação. Parte da imprensa brasileira fala até numa comissão de inquérito, o que é especulação.
A extradição continua sendo decisão do Executivo, e Trump disse que Flávio pode ficar “pelo tempo que quiser”. O capital político dos Bolsonaro em Washington dependia de Trump, e Trump saiu enfraquecido.
Reconhecimento da eleição brasileira. Trump ainda não disse se reconhece a vitória de Lula.
O Planalto o vê isolado, mas não há pedido de ligação entre os dois, e o Itamaraty não comenta eleições estrangeiras. Petróleo e guerra.
O Congresso democrata vai pressionar pelo fim do conflito, e o petróleo já recua com sinais de diplomacia. É bom para a inflação brasileira, mas o risco de escalada continua.
O resultado é bom para quem defende contrapesos. Mas não é uma vitória brasileira.
A pauta democrata é doméstica, com saúde, custo de vida e investigações, e o Brasil é um tema secundário. Os democratas também têm tradição protecionista, o que não os torna aliados automáticos.
Quem comemora em Brasília não deve confundir o enfraquecimento de Trump com o fim das tarifas, e quem apostou tudo em Washington, na oposição, deveria lembrar que nenhum presidente americano governa para sempre. A relação com os Estados Unidos precisa de canais com os dois partidos.
A onda azul mexe com o tabuleiro, mas quem move as peças brasileiras continua sendo Brasília.
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