Só fui ao Texas uma vez a trabalho. É conhecido como a terra dos caubóis.
Dos ranchos. Rodeios e leilões de gado.
Nada contra a cultura do Velho Oeste. Alguns faroestes, como “Rastros de ódio”, de John Ford, “Era uma vez no Oeste”, de Sergio Leone, e “Assim caminha a humanidade”, de George Stevens, eu vi e revi.
Não é meu gênero favorito. Mas são épicos.
Confesso preferir passear em NY, Washington e San Francisco. Havia prometido não voltar aos EUA com Trump no poder.
O resultado dos midterms restaurou minha fé na democracia americana e me encheu de admiração por seu povo. Tão diversificado, tão multicultural, tão empenhado em derrotar o governo.
Até hoje não entendo a reeleição de Donald Trump em 2022. O Texas está longe de ser apenas um estereótipo.
Seria uma injustiça e uma ignorância. É o segundo maior estado dos EUA.
Tem uma das melhores universidades públicas do país, com mais de 50 mil alunos, em Austin, a capital. Tem um centro espacial.
E um Museu de Belas Artes, em Houston, referência para a arte latino-americana. Agora, tem um senador democrata evangélico: James Talarico, 37 anos.
O primeiro senador democrata no Texas desde 1988. Não o conhecia até ver um discurso dele no ano passado.
Ali percebi seu vigor, sua oratória e seu carisma. “A única minoria destruindo a América são os bilionários.
Trans são 1% da população. Muçulmanos são 1% da população.
Pessoas sem documentos são 1% da população. Estamos focados no 1% errado”.
Pensei: esse rapaz vai longe se o deixarem falar. Em maio deste ano, voltou à carga.
“O presidente acabou de dizer que insultei Jesus. Vocês querem saber o que insulta Jesus? Deixar os doentes sem assistência enquanto corta impostos para bilionários.
Deportar o estrangeiro e separar bebês de suas mães. Bombardear crianças inocentes no Irã.
E enviar nossos bravos homens e mulheres para morrer em mais uma guerra sem fim. Vocês sabem o que insulta Jesus? Encobrir os arquivos de Epstein”.
Nessa fala, Talarico resumiu quase tudo que derrotou Trump. Saúde pública.
Violência do ICE contra imigrantes. Guerra.
Escândalos. Faltou o preço da gasolina e dos alimentos.
Talarico ganhou de um adversário republicano financiado por US$ 158 milhões de doação de Elon Musk. Perto de R$ 1 bilhão.
E o governo do Texas ficou, pela primeira vez, com uma latina, de ascendência mexicana, quanta ironia. Gina Hinojosa, advogada de direitos civis e trabalhistas.
São tantos recados simbólicos nesta eleição de meio de mandato que o mundo vai demorar a absorver. Ninguém sabe se essa derrota acachapante na Câmara e no Senado tornará Trump mais ou menos bélico.
Deve baixar um pouco a crista – ou o topete. A cultura respira aliviada.
Trump cortou verbas de pesquisa e censurou até palavras em documentos oficiais e científicos. Professores brasileiros de universidades americanas admitem que o tal “chilling effect” (efeito intimidador) provocou autocensura.
Medo. Um dos episódios mais ridículos tem sido a insistência em renomear o Kennedy Center para Trump Center.
O centro de artes cênicas está fechado até o dia em que o nome Donald Trump aparecer na fachada. A distopia americana talvez tenha sido freada pelo recado das urnas.
A onda azul talvez desestimule brasileiros que, refestelados em solo texano, tentam torpedear nossa democracia e manter o tarifaço. Agora que me reconciliei com os EUA, está na hora de rever um filme que amo.
“Paris, Texas”. De Wim Wenders, com a deslumbrante Nastassja Kinski.
Não espere nenhuma lição de moral. O filme nos faz refletir sobre a dificuldade de reconexão humana.
Tudo a ver com esses tempos loucos. God save America.
E lá vou eu visitar o Texas, o deserto, as florestas e os caubóis.
O Globo