Eleito por uma margem apertada de votos e numa virada inédita, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve montar um ministério que concilie a busca por uma base de sustentação no Congresso com a preparação de sua sucessão como liderança na esquerda. Após sete disputas presidenciais e às vésperas de completar 81 anos, o petista está impedido de concorrer novamente em 2030, em função do segundo mandato consecutivo, e deve encerrar sua carreira política.
Diante do Congresso dominado pela oposição, aliados reconhecem que o presidente terá de fazer um governo mais ao centro, ampliando espaço de partidos para conseguir uma base de apoio. Apesar disso, interlocutores defendem que as pastas de maior importância sigam sob comando de aliados de primeira hora do petista, até mesmo para projetá-los como lideranças nacionais.
Há também um entendimento de pessoas próximas de que o petista deve se apoiar nas mobilizações de rua que foram vistas no segundo turno para governar. O apoio popular poderia servir para pressionar o Congresso em pautas prioritárias.
Em uma live com o deputado André Janones (Rede-MG) na quinta-feira, o presidente reeleito disse que, caso vencesse, iria discutir um “novo jeito de governar”, com a participação do povo. Além disso, em discursos, Lula tem elogiado aliados e destacado a atuação de políticos do Nordeste, entre eles o ex-ministro da Educação Camilo Santana, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, além do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad.
A aposta quase unânime no entorno do presidente é que Camilo terá papel de relevância no governo após ser apontado como um dos responsáveis por comandar a virada eleitoral de Lula. Se antes Haddad era considerado o principal cotado para assumir a Casa Civil, a atuação do senador cearense na coordenação de campanha no segundo turno fez com que ele despontasse como favorito para ocupar o posto.
A Casa Civil é o principal ministério da Esplanada, tem função de coordenar as ações dos demais ministérios e fica no quarto andar do Palácio do Planalto. Um aliado de Camilo diz que é preciso nacionalizar a imagem dele, hoje muito atrelada ao Ceará, seu reduto eleitoral, para projetá-lo como eventual sucessor do presidente.
Outros dois aliados que se projetam como possíveis sucessores, Boulos e Haddad, devem ter igualmente espaço de destaque na montagem do quarto mandato de Lula. Apesar de ter saído derrotado na disputa ao governo de São Paulo e ser alvo de críticas dentro do PT pelo seu desempenho, o ex-ministro da Fazenda foi destacado por Lula para atuar na coordenação de sua campanha no estado, o maior colégio eleitoral do país.
Haddad tem como trunfos também a sua proximidade com o presidente e a projeção nacional em função do tempo em que ocupa funções políticas de destaque. Equação para ter Camilo e Haddad
Porém, a provável ida de Camilo para a Casa Civil pode dificultar o encaixe do ex-ministro da Fazenda no governo. Aliados de Haddad afirmam que ele não gostaria de ir para um ministério em que tivesse que enfrentar disputas internas e também não tem vontade de voltar para as pastas que já ocupou (Fazenda e Educação).
Pessoas próximas ao ex-chefe da equipe econômica dizem que ele pode voltar a dar aulas na USP e não participar do governo. Integrantes da campanha ressaltam que, apesar das projeções, não houve espaço para discussões sobre formação de governo no entorno de Lula pela forma como se deu a disputa do segundo turno depois de Flávio Bolsonaro sair vitorioso na etapa inicial da disputa.
O foco total foi na reestruturação do núcleo de coordenação e nas novas estratégias adotadas. Durante o governo Lula 3, o presidente distribuiu ministérios para partidos de centro e do Centrão para conseguir governabilidade no Congresso: PP, União Brasil, MDB, PSD e Republicanos tinham representantes no primeiro escalão.
Apesar disso, a relação do petista com o Legislativo foi marcada por tensão e altos e baixos. O presidente deverá trabalhar pela recondução de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) nas presidências da Câmara e do Senado, respectivamente, para garantir o diálogo com a cúpula do Congresso.
Além disso, a avaliação é que os dois políticos deverão ter influência na escolha de representantes para integrar a equipe de Lula. Devem ser contempladas ainda na Esplanada lideranças do Centrão que, apesar de integrarem partidos que apoiaram formalmente Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, seguiram com o presidente da República, sobretudo a ala lulista do MDB e do PSD e quadros nordestinos de Republicanos, PP e União Brasil.
Dúvida na Fazenda De acordo com interlocutores, ainda há dúvidas na montagem do governo Lula 4 sobre quem comandará o Ministério da Fazenda.
Uma ala entende que Lula deve manter Dario Durigan, que ocupa o cargo desde março, quando Haddad deixou a pasta para disputar as eleições. Uma outra opção ventilada para a pasta seria o atual ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o que indicaria uma Fazenda mais independente da Casa Civil.
Moretti se aproximou de Lula e é apontado por interlocutores como um dos ministros que o presidente mais escuta para tomar decisões. Além disso, a boa interlocução dele com a cúpula do Congresso é outro ponto que conta a seu favor nessa escolha.
Há também quem aposte na escolha do vice-presidente, Geraldo Alckmin, para o posto, numa sinalização à agenda de contenção dos gastos e a busca do equilíbrio das contas públicas. Há ainda ministros da atual gestão que são bem avaliados e ficaram próximos de Lula nos últimos anos.
A avaliação é que eles deverão seguir na Esplanada, mas não necessariamente nas cadeiras que ocupam hoje: além de Moretti, são lembrados Esther Dweck (Gestão), Leonardo Barchini (Educação) e Fernanda Machiaveli (Desenvolvimento Agrário). Entram na lista, ainda, nomes que não concorreram a cargos nestas eleições após pedidos de Lula para seguir no governo ou que foram destacados pelo petista para missões em seus estados, mas acabaram sendo derrotados, a exemplo de Gleisi Hoffmann (PT-PR) e José Guimarães (PT-CE).
Lula também afirmou que vai criar o Ministério da Segurança Pública assim que for aprovada a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que falta ser chancelada no plenário do Senado. Um integrante da cúpula do PT fala que um nome hoje de consenso é o de Chico Lucas, secretário de segurança pública do Ministério da Justiça.
Petistas, porém, não descartam que o presidente escolha um quadro de maior projeção nacional para dar visibilidade ao combate ao crime no país. Depois de forte influência na campanha, a primeira-dama Janja também será ouvida por Lula na escolha de nomes para Esplanada.
Ela deve ter influência na escolha de titulares para as pastas de Mulheres, Cultura, Igualdade Racial e integrantes do gabinete presidencial, onde ficam auxiliares que têm contato direto com Lula e a primeira-dama.
O Globo