O médico Drauzio Varella classificou a Meta, dona de WhatsApp, Instagram e Facebook, como uma empresa "imoral". A declaração ocorreu durante o Globo Summit, que ocorre nesta segunda (10) dentro do SP2B, em um painel que discute influência e confiança na era das redes sociais.
O médico contou sobre sua experiência a lidar com a companhia fundada por Mark Zuckerberg em sua tentativa de derrubar vídeos falsos com a sua imagem usados para comercializar medicamentos falsos — há anos alguns anos, Varella denuncia os conteúdos falsos nas plataformas da empresa.
"Minha experiência pessoal de lidar com essa gente é muito decepcionante. Quando começaram a aparecer as primeiras propagandas de falsos remédios, a primeira coisa que você faz é entrar em tentar entrar em contato com a plataforma. Primeiro, eles não se dignaram a responder. Eu estou falando especificamente da Meta, que é uma empresa imoral", disse ele.
Ao tratar a forma como conteúdos falsos são impulsionados nas redes de Zuckerberg, Varella afirmou que a gigante tem uma "parceria com estelionatários".
"Se você rouba uma mercadoria e vai a uma empresa e fala para essa empresa vender essa mercadoria pelo melhor preço que ela conseguir, as pessoas dessa empresa são consideradas estelionatárias, elas são passíveis de processos, são passíveis de ir para a cadeia. A Meta não vai para a cadeia. Ela é, na verdade, parceira desses estelionatários. Por isso que eu digo que é uma empresa imoral", afirmou.
O médico lembrou de uma reportagem da Reuters, de novembro de 2025, que mostrou que a gigante projetava que 10% da sua receita em 2024, ou US$ 16 bilhões, teria origem em golpes e produtos proibidos. A reportagem procurou a Meta e aguarda posicionamento da empresa.
Em fevereiro deste ano, a companhia entrou com ação na Justiça contra esquemas que utilizam indevidamente imagens e vozes alteradas de celebridades e influenciadores em anúncios para aplicar golpes no Brasil e na China. Na época, o GLOBO apurou que, além de Drauzio Varella, os réus utilizavam imagens falsas do médico Lair Ribeiro, a cantora Maiara, o jornalista Luiz Bacci e a influenciadora Maíra Cardi. No período, o médico classificou a ação como "migalhas".
O medico criticou o fato de as Big Techs usarem o argumento da "liberdade de expressão" para evitar legislações que coíbam crimes contra a saúde pública. Ele argumentou que a tecnologia para remover esse conteúdo existe, citando o YouTube como um exemplo de plataforma que age de forma mais eficaz quando notificada.
Outra participante do painel, Marie Santini, fundadora e diretora do Netlab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da UFRJ), afirmou que o laboratório coletou mais de 100.000 anúncios durante um mês e analisou manualmente uma amostra de 6.000 deles. Os resultados mostraram que 76% da publicidade sobre saúde analisada era composta por desinformação, golpes, fraudes ou roubo de dados de usuários. Dentro desse universo de anúncios fraudulentos, 21% utilizavam indevidamente a imagem do Dr. Drauzio Varella, aproveitando-se da facilidade de manipular vídeos reais com ferramentas de inteligência artificial.
Os debatedores afirmaram que a desinformação se tornou uma indústria lucrativa e estruturada, envolvendo o crime organizado. A ausência de regulamentação e da presença do Estado no espaço digital facilita a operação dessas redes. O painel criticou à falta de prestação de contas de empresas americanas, que controlam os próprios dados do mercado, além de não serem pouco transparentes.
O Globo