A médica israelense Michal Lotem atende pacientes com câncer e realiza estudos clínicos em um cenário incomum. O hospital em que ela trabalha fica em um país em guerra. Lotem é diretora do Instituto de Pesquisa do Câncer Hadassah, no Hospital Hadassah, em Jerusalém, cidade que vive às sombras de um conflito armado entre Israel e o Hamas que já dura três anos. Ela divide seu tempo entre o consultório e os experimentos científicos, com um olhar especial para tumores de pele como o melanoma.
O Hadassah é um centro de saúde singular, inclusive pelo seu papel social: combina o atendimento à comunidade, sem distinção entre judeus e árabes, com aquilo que há de mais moderno no combate ao câncer. Em entrevista exclusiva a VEJA, a imunologista israelense fala sobre os avanços no tratamento, o que esperar das terapias baseadas em RNA e como é cuidar de pacientes em uma cidade marcada pelo clima de guerra e insegurança.
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Qual foi o maior avanço no tratamento do câncer nos últimos anos? Houve vários avanços, mas eu diria que, em primeiro lugar — e falo isso porque sou imunologista —, está a imunoterapia. E por que ela representa uma revolução tão grande? Porque talvez, pela primeira vez, estejamos falando sobre a possibilidade de curar cânceres metastáticos [aqueles que já se espalharam para outros órgãos e tecidos a partir de seu ponto de origem]. Isso não acontece com todos os pacientes nem com todas as doenças, mas, no melanoma, estamos de fato curando uma porcentagem dos pacientes com o problema em estágio avançado. Além disso, recentemente a FDA, a agência regulatória dos EUA, aprovou um novo medicamento para o câncer de pâncreas, e podemos mencionar esse marco dentro do contexto de grandes avanços da imunoterapia porque é a primeira vez que temos um tratamento eficaz para um dos tumores mais letais e carentes de opções terapêuticas. A senhora tem estudado terapias de RNA contra o câncer. Em que medida elas podem revolucionar o tratamento? Minha pesquisa está relacionada a uma grande questão: a resposta imunológica contra o câncer e o desenvolvimento da imunoterapia. Os tratamentos baseados em RNA já fazem parte da nossa realidade, e testemunhamos o poder da tecnologia do RNA mensageiro durante a pandemia de covid-19, porque muitas das vacinas desenvolvidas contra a infecção eram baseadas no encapsulamento do RNA mensageiro, uma forma de provocar uma resposta imunológica controlada. O que, de fato, era essa vacina? Ela continha a informação genética para produzir uma das proteínas que ajudavam o coronavírus a infectar as células humanas, induzindo e potencializando uma reação do sistema imune contra o vírus.
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E essa mesma estratégia é empregada contra os tumores? Sim, essa tecnologia é útil para outros tipos de “vacinação”, inclusive contra o câncer. Mas há uma grande diferença entre a vacina para o coronavírus e aquela voltada a tumores. Nos imunizantes para a covid-19, as farmacêuticas produziam uma fórmula administrada para toda a população. No caso do câncer, a terapia de RNA mensageiro é preparada sob demanda para cada paciente, levando em conta a mutação específica daquele tumor. Portanto, é um tratamento realmente personalizado que está entrando nessa nova era da oncologia. Como é prover assistência médica e conduzir pesquisas em um país em guerra? Não é uma questão simples. Por um lado, queremos que cada paciente receba o tratamento exatamente como foi planejado. Quando estamos falando de um estudo clínico, a precisão e a adesão ao protocolo são fundamentais. Se começarmos a nos desviar do protocolo, os ensaios podem ser prejudicados. E, para os pacientes, seguir um protocolo muito rígido de consultas e visitas pode ser bastante difícil nesse contexto conflituoso. As pessoas têm medo de sair de casa, há muita insegurança nas ruas e no transporte público. Ainda assim, preciso dizer, até eu mesmo me surpreendi com a disciplina e a coragem demonstradas por nossos pacientes durante esse período. Acredito que nenhum deles deixou de receber tratamento. É uma grande demonstração da coragem humana.
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Qual é o maior ativo do hospital onde a senhora trabalha, inclusive para continuar proporcionando atendimento e pesquisa na conjuntura atual? Há algo muito singular no Hospital Hadassah, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e essa singularidade vem de uma cultura que foi construída e alimentada ao longo de muitos anos: a ideia de que os médicos também devem realizar pesquisa científica. Não existe melhor maneira de compreender uma doença, encontrar soluções e tratar os pacientes da melhor forma possível do que estar ativamente envolvido com a ciência e com o desenvolvimento de novas abordagens. Para que isso aconteça, o Hadassah precisa ser apoiado, porque é uma instituição única, sem equivalente em todo o país. E podemos ter orgulho desse trabalho, porque estamos tendo sucesso com os pacientes e construindo avanços independentemente da guerra e da insegurança. Qual é o maior desafio na prevenção do câncer hoje? É difícil dizer, porque cada tipo de câncer tem fatores de risco diferentes. Mas podemos, pelo menos, conscientizar as pessoas sobre quais são esses fatores. Um fator de risco, claro, é a exposição ao sol. Mesmo insistindo sobre o cuidado com os raios e as queimaduras solares, que predispõem ao desenvolvimento do câncer de pele, ainda vemos nas praias muitos jovens se expondo ao sol. Outro fator que não é tão conhecido é a obesidade. Por isso, manter um estilo de vida ativo e perder peso pode ajudar na prevenção. Mas talvez o maior desafio para a prevenção do câncer sejam os próprios seres humanos, porque existe algo relacionado à nossa percepção de perigo que tendemos a ignorar. Muitas pessoas simplesmente negligenciam a recomendação de se fazer determinados exames para obter um diagnóstico precoce – seja uma colonoscopia, seja uma avaliação médica da pele -, e isso faria toda a diferença para evitar as complicações da doença.
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