A matemática das emissões: a pecuária não é vilã climática - QTU Questões do Universo

A matemática das emissões: a pecuária não é vilã climática

Fonte: Bandeira da fonte

Existe uma distância incômoda e cada vez mais perigosa entre a narrativa construída sobre a pecuária bovina e a realidade factual que a ciência demonstra diariamente.
No complexo debate sobre as mudanças climáticas, o boi foi eleito por muitos como o grande vilão ambiental, uma simplificação que, além de injusta, ignora os conhecimentos científicos e a verdadeira ordem de magnitude do problema.
Quando olhamos para a matemática das emissões, há sérios questionamentos sobre como converter as emissões de metano em capacidade de aquecimento global.
As metodologias utilizadas pelos órgãos internacionais levam em consideração um tempo de permanência do metano na atmosfera muito acima do que realmente acontece e não distinguem a origem biogênica da fóssil.
Os fatores de emissão são ainda baseados em experimentos realizados em realidades muito distintas das que ocorrem no Brasil, retratando muito mais os sistemas de produção europeus e norte-americanos.
Além disso, não se leva em consideração o potencial de remoção de carbono da atmosfera nos solos de pastagens bem manejadas.
Nesse sentido, importante salientar os grandes esforços da Embrapa e das universidades brasileiras em gerar informações científicas para tropicalização dos fatores de emissão, assim como jogar luz sobre as remoções em solos bem manejados.
Essa jornada está em curso e é fundamental para a justa contabilização das emissões da bovinocultura brasileira.

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Mesmo considerando as incertezas trazidas pelas metodologias, há uma questão pouco enfatizada e que contribui fortemente para que a narrativa de “vilão do clima” prospere e se dissemine.
Estou falando do “tamanho” do dito problema.
Todas as emissões atribuídas à produção de proteína animal para a alimentação humana não atingem 5,8% das emissões totais, enquanto a queima de combustíveis fósseis é responsável por 73%.
Precisamos focar muito mais na transição para fontes renováveis de energia.
No caso do Brasil, que vem fazendo seu dever de casa e tem uma matriz energética das mais limpas do mundo (85% de renováveis), o peso relativo das emissões entéricas dos bovinos chega a 17% do total.
Se levarmos em consideração que o Brasil emite cerca de 2% das emissões globais, a fermentação dos bovinos brasileiros seria responsável por 0,34% dessas emissões globais.
Isso para produzir cerca de 20% da carne bovina mundial.
Esses números (mesmo se estivessem corretos) sugerem fortemente que a “segunda sem carne” seria irrelevante como estratégia para mitigar os efeitos da ação antrópica nas mudanças do clima.
E podemos melhorar mais ainda.
Os dados do MapBiomas sobre qualidade das pastagens vêm mostrando, nos últimos 25 anos, uma consistente redução nas áreas de pastagens severamente degradadas e um aumento nas de elevado vigor.
O Brasil também está fazendo seu dever de casa em melhorar a eficiência da sua pecuária e ter menores emissões por peso de carne produzida.
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O Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas de Produção Agropecuários e Florestais Sustentáveis (PNCPD) estabeleceu meta de recuperar 40 milhões de ha em 10 anos.
Nos últimos 20 anos, a área total de pastagens no Brasil vem decrescendo, mas o rebanho e a produtividade vêm aumentando.
Boas práticas agropecuárias e sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta aumentam a renda do produtor ao mesmo tempo em que reduzem os impactos ambientais da atividade e as emissões finais dos sistemas.
Quando se olha para os dados científicos e se colocam as atividades emissoras na perspectiva de sua efetiva participação no problema, fica evidente que a bovinocultura não é a vilã, nem no Brasil e nem em nenhum lugar no Mundo.
Um olhar sobre os avanços na eficiência nesse setor mostra que há potencial inclusive para ser parte da solução, armazenando carbono em larga escala em pastagens bem manejadas.
Ou seja, parece muito mais correto dizer que o problema da crise climática é de transição energética e não de transição alimentar.
*Renato Roscoe é Diretor Executivo do Instituto Taquari Vivo (ITV)
As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural