A importância do primeiro emprego para a renda futura

 

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Diferenças na renda do trabalho são explicadas por variados motivos, nem todos fruto do mérito, capacidade ou esforço pessoal. A educação desempenha papel importante nessa equação, pois escolaridade é variável importante, especialmente em países como o Brasil, onde o acesso aos níveis mais altos de ensino ainda são restritos. No entanto, mesmo que fôssemos capazes de garantir igualdade de oportunidades na formação para todos, ainda assim, parte significativa da diferença salarial continuaria sendo resultado da loteria do nascimento, ou seja, a sorte ou azar de ter nascido numa família de maior ou menor renda e escolaridade. E essa loteria impacta também no momento de acesso ao primeiro emprego.

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Em recente estudo publicado no National Bureau of Economic Research, Judith Scott-Clayton e outros pesquisadores da Universidade de Columbia acompanharam registros de trabalho de cerca de 80 mil universitários nos Estados Unidos cinco anos após sua graduação, e identificaram que uma parte significativa da diferença na renda do trabalho é explicada pela qualidade do acesso ao primeiro emprego depois de formado.

É já bastante mapeado o fato de que a área de formação ou a reputação da universidade são fatores de influência na renda futura. E é também sabido que indivíduos de famílias com menor renda e escolaridade enfrentam um ciclo de desvantagens que se acumulam desde o nascimento até a vida adulta. O estudo dos pesquisadores de Columbia avança ao mensurar, no contexto pesquisado, o peso do primeiro emprego na explicação de diferenças na renda.

Como os autores argumentam, a transição da universidade para o mercado de trabalho é desafiadora, e estudantes com menos acesso a informações, recursos financeiros e outras desvantagens têm maior dificuldade de conseguir acesso a um primeiro emprego que seja compatível com seu nível e área de formação ou que dê melhores oportunidades de crescimento profissional.

O estudo mostra que, cinco anos depois de formados, a maior parte da diferença verificada na renda do trabalho entre indivíduos de mesmas características observáveis (como área e qualidade do curso, desempenho acadêmico e características pessoais) é explicada pelo primeiro emprego. Como sempre, pessoas de origem familiar mais pobre e menos escolarizada apresentam maiores dificuldades nessa transição, resultando futuramente em renda menor no trabalho.

Os mecanismos que levam a isso são múltiplos, mas alguns são bem conhecidos. Imagine dois estudantes que acabam de se formar no mesmo curso, na mesma instituição, e com rendimento acadêmico semelhante. Em tese, estariam igualmente preparados para o ingresso no mercado de trabalho. Se não houvesse desigualdade no acesso ao primeiro emprego, quando comparássemos grupos sociais distintos, as diferenças, na média, seriam insignificantes. Mas não é o que ocorre. Redes de relacionamento pessoal e o apoio familiar e financeiro, por exemplo, garantem aos mais ricos e escolarizados condições melhores de ingresso no mundo do trabalho. E há ainda o peso da discriminação.

Ainda estamos longe de garantir igualdade de oportunidade na formação educacional de todos os brasileiros. Mas, em paralelo a isso, precisamos de políticas públicas que ajudem estudantes mais vulneráveis a navegar nessa transição da universidade para o primeiro emprego, reduzindo assim mais uma desigualdade que nada tem a ver com seu mérito, capacidade ou esforço pessoal.