'A Herança de Narcisa': Paolla Oliveira é potência avassaladora em terror que até fãs de psicanálise vão amar
Na psicanálise, o laço entre mãe e filha é considerado um dos mais complexos e intensos do desenvolvimento humano.
Até onde fazemos o que queremos, e não o que nos foi ensinado a querer? Até quando carregamos dramas que sequer começaram conosco? A Herança de Narcisa, terror nacional que chega aos cinemas na quinta (9), transforma uma relação materna complicada em um verdadeiro filme de terror.
O filme estrelado por Paolla Oliveira conta a história de Ana.
Após a morte da mãe, a ex-vedete Narcisa, ela se muda para a mansão da matriarca no intuito de vendê-la.
Quando chega à propriedade, ela é atingida por muitas lembranças do passado, as quais tenta ignorar até que uma força sobrenatural começa a se manifestar pela propriedade e forçá-la a enfrentar os laços que tenta esquecer.
'Herança de Narcisa', longa de terror estrelado por Paolla Oliveira
Alessandra Lima Cortesia
A atriz - que vive tanto mãe quanto filha - é a grande potência do longa, que é definido pelos diretores e roteiristas Clarissa Appelt e Daniel Dias como um 'terror terapia', já que mistura trilha sonora afiada e turbulenta e 'assombrações' com a reflexão de que o amor materno pode não ser puramente altruísta, mas que o amor e o ódio podem coexistir.
Na sua estreia no terror, Paolla mantém um tom sóbrio, tentando entender a relação tóxica com a mãe e como parar com as aparições, pesadelos, lapsos de memória.
A técnica de Paolla é mais contida que a usada para Heleninha Roitman de Vale Tudo - que gravou logo em seguida do filme - o que traz um tom de seriedade necessária para que as 'viagens' ao longo da trama funcionem.
'Herança de Narcisa', longa de terror estrelado por Paolla Oliveira
Alessandra Lima Cortesia
Ela brilha principalmente quando é 'possuída' pela excentricidade de Narcisa que, à la Crepúsculo dos Deuses, recusa-se a aceitar mudanças do mundo sessentista em que vivia em sua cabeça.
A artista teve aulas de canto para dar voz a uma marchinha pela qual a personagem ganhou fama no passado.
"Eles [equipe] tiveram esse prazer, eu diria, de me fazer cantar.
Eu fiz umas aulas.
Eu, obviamente, não sou cantora, ainda mais nesse tom tão específico que tinha ali, meio antigo, não é tão fácil.
Mas tive todas as ajudas para fazer a coisa dar certo.
Ela estava um pouco desequilibrada naquela cena, então, o que eu errasse, fazia podia fazer parte da cena, mas a voz é minha", ri.
Paolla Oliveira em 'A Herança de Narcisa'
Divulgação
O filme começa com 40 salas nacionais, conquistou o Troféu Redentor de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival do Rio e tem sido comentado por diversos públicos em mostras de cinemas internacionais, desde festivais de filmes de arte na China até o circuito de terror estadunidense.
Apesar do bom relacionamento com os pais, as reflexões sobre maternidade e heranças familiares levaram até a protagonista a ter longas conversas com sua psicóloga.
"A terapia bombou depois desse filme.
Eu sou muito apegada à minha família, especificamente à minha mãe, e eu percebo que eu tenho muito deles.
Coisas que eu desejo ter e coisas também que a gente deseja não ter, que a gente tem que caminhar para outro lado, que a gente tem que procurar ser melhor.
Procurar o meu caminho próprio, a minha voz em relação a determinadas coisas", conta.
Como uma sessão de terapia, A Herança de Narcisa aproveita o ambiente de thriller sobrenatural para para plantar questionamentos sobre culpa, luto e os padrões que atravessam gerações.
O maior susto talvez não esteja em uma casa assombrada ou possessões, mas na pergunta que deixa: o que, afinal, herdamos de quem veio antes de nós - e o que ainda podemos escolher deixar para trás?
'Herança de Narcisa', longa de terror estrelado por Paolla Oliveira
Alessandra Lima Cortesia
