A hegemonia que decidiu

A hegemonia que decidiu - Foto
Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais.

Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação O Nordeste deu a Lula uma vantagem três vezes maior que a diferença nacional, impulsionada por uma campanha renovada nas redes e por erros do adversário

Em Os limites da hegemonia, publicado em CartaCapital no fim de agosto, argumentei que o Nordeste presidencial, fortemente lulista, convivia com um Nordeste estadual cada vez mais autônomo, e que a eleição de 2026 poderia revelar não o fim da hegemonia de Lula (PT) na região, mas seus limites.

O segundo turno deste domingo ofereceu a resposta mais completa a essa hipótese. Lula foi reeleito para o quarto mandato com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 4,4 milhões de votos, e protagonizou um fato inédito: pela primeira vez numa eleição presidencial brasileira, o candidato que terminou atrás no primeiro turno venceu o segundo.

O Nordeste está no centro dessa explicação. Lula obteve 24,4 milhões de votos na região, 69,37% dos válidos, e uma vantagem de 13,65 milhões, três vezes maior que a diferença nacional.

O presidente venceu nos nove estados, de 75,88% no Piauí a 60,77% em Alagoas. Fora dela, Flávio venceu por 9,2 milhões.

Mais significativa que a vitória, porém, é a recuperação. No primeiro turno, Lula havia perdido participação em todos os estados nordestinos e caíra para 63,77%.

Em três semanas, subiu 5,6 pontos, praticamente repetiu os 69,34% de 2022 e superou a vantagem de 12,6 milhões obtida naquele ano. A erosão de 4 de outubro não era um realinhamento consolidado, mas uma reserva de lealdade que podia ser reativada.

A eficácia da estratégia pode ser medida pela reação adversária: a campanha de Flávio recorreu ao TSE e chegou a obter a suspensão temporária do canal. A reorganização deu ainda protagonismo a lideranças nordestinas, com Camilo Santana (PT) na coordenação política, Rui Costa (PT) na agenda e Rafael Fonteles (PT) na comunicação, e engajou aliados derrotados em outubro, como João Campos, que anunciou apoio ativo à reeleição logo após perder em Pernambuco.

Do outro lado, a campanha de Flávio cometeu um erro grave de leitura sobre a região. A cinco dias da votação, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou o vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, gravado em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, com moradores retratando a região apenas pela carência e pelo abandono, como se as últimas duas décadas não tivessem produzido avanço algum.

O vídeo alcançou 160 milhões de visualizações, mas o efeito foi o oposto do pretendido. Nordestinos de diferentes estados responderam com vídeos sobre universidades, ciência e desenvolvimento, e o economista Gil do Vigor resumiu a reação: “O Nordeste produz ciência, pesquisa, tecnologia”.

Imagens de bastidores sugerindo que participantes foram orientados a encenar sofrimento agravaram o desgaste, e a própria campanha de Flávio passou a tratar o episódio como erro. A tentativa de reduzir a vantagem petista acionou justamente a identidade regional que sustenta o lulismo e ofereceu a Lula, na reta final, a imagem de um adversário que não conhece nem respeita o Nordeste.

As pesquisas não captaram plenamente esse movimento: a Quaest divulgada três dias antes da votação ainda registrava Flávio com 45% e Lula com 44%. Em Lula e o teto do voto nordestino, publicado aqui uma semana antes da votação, estimei que Lula poderia chegar a 66% ou 67% dos válidos na região, com ganho de margem entre 1 e 2 milhões de votos, insuficiente para anular sozinho a desvantagem nacional.

O resultado superou essa projeção. O teto existia, mas estava mais alto do que as pesquisas indicavam, e a mobilização da campanha, somada ao erro adversário, ajudou a alcançá-lo.

Lula saiu de uma desvantagem de 2,2 milhões de votos para uma vantagem de 4,4 milhões, um deslocamento de 6,6 milhões na margem, dos quais cerca de 2,5 milhões vieram do Nordeste. A estimativa sobre a abstenção, por sua vez, se confirmou: cerca de 800 mil eleitores a mais compareceram na região, um ganho relevante, mas de centenas de milhares de votos.

E a vitória não foi apenas nordestina. Os outros 4,1 milhões vieram de fora, com a virada em Minas Gerais, além da redução da desvantagem em São Paulo, de 3,4 milhões para 2 milhões de votos.

A hegemonia nordestina garantiu o piso; o resultado nacional dependeu de conter as perdas no restante do País. Em agosto, argumentei que as disputas estaduais ganhavam autonomia em relação à polarização nacional e que a popularidade de Lula não bastava para eleger seus aliados diante de lideranças locais com capital próprio.

O resultado confirma esse argumento, agora em sentido inverso: se a força do presidente não garantiu vitórias estaduais, tampouco as derrotas de seus candidatos no primeiro turno se traduziram em perda de votos presidenciais. Em Alagoas, onde JHC (PSDB) venceu Renan Filho (MDB), e em Pernambuco, onde Raquel Lyra (PSD) derrotou João Campos (PSB), Lula cresceu cerca de seis pontos.

Os menores avanços ocorreram no Piauí e na Bahia, governados pelo PT, onde ele já estava próximo do teto. O eleitor nordestino segue distinguindo as duas escolhas, mas os limites persistem: Alagoas, estado do vice de Flávio, Alfredo Gaspar (PL), continua sendo o menor patamar de Lula na região.

No Rio Grande do Norte, único estado com segundo turno para governador, Cadu de Lula (PT) venceu Allyson Bezerra (União Brasil) por 50,77% a 49,23%. A distância entre os 65,7% de Lula no estado e os 50,8% de Cadu é reveladora: o nome do presidente foi decisivo numa disputa apertada, mas transferiu apenas parte de seu capital eleitoral.

O resultado mostra os dois Nordestes funcionando ao mesmo tempo. O presidencial confirmou sua força e foi decisivo para a reeleição.

O estadual manteve sua pluralidade, com lideranças próprias e coalizões heterogêneas. A hegemonia de Lula resistiu ao seu momento mais difícil desde 2006, mas segue sendo, em grande medida, pessoal, e reage tanto à capacidade de mobilização de sua campanha quanto aos erros de quem subestima a região.

O desafio para 2030, quando Lula não estará na urna, é saber se esse capital pode ser transferido a um sucessor. A experiência potiguar sugere que não será automático.

Os limites da hegemonia, agora, estão no futuro. *Luciana Santana é professora da Universidade Federal de Alagoas.

O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Observatório das Eleições Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais.

Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo.

Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global. Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Publicação Original Carta Capital cartacapital.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →