Drones atingem navios perto de Romênia e Bulgária, um aeroporto alemão foi alvo e a Albânia culpa Moscou. A guerra híbrida de Putin contra a Europa e a OTAN opera abaixo do limiar da guerra.
Na terça-feira (20), o Wall Street Journal publicou que a inteligência americana concluiu que Vladimir Putin ordenou pessoalmente uma campanha ampliada de sabotagem e ações encobertas contra países da OTAN. A informação vem de três autoridades europeias que foram informadas sobre essas conclusões.
A Rússia nega qualquer envolvimento. Em setembro, quando Berlim acusou Moscou pelo ataque ao aeroporto de Leipzig, Putin respondeu com uma pergunta: “Onde está a evidência?”
A pergunta é razoável em qualquer investigação. O problema é que a lista de incidentes dos últimos dois meses já não cabe na categoria de coincidência.
No início de agosto, ao menos três drones com explosivos foram lançados contra o aeroporto de Leipzig/Halle, na Alemanha. Um deles atingiu um avião de carga da Antonov Airlines, empresa ucraniana, mas não explodiu.
Outro bateu em uma segunda aeronave, e o terceiro detonou perto da cerca do aeroporto. As autoridades alemãs afirmam que os drones foram pilotados por agentes da inteligência militar russa.
Assessores do chanceler Friedrich Merz disseram ao jornal que, se o ataque tivesse causado muitas vítimas, Berlim consideraria acionar o Artigo 5 da OTAN, o da defesa coletiva. Depois do ataque, segundo o WSJ, um interlocutor do Kremlin avisou um colega do governo alemão que Leipzig não seria o último alvo.
Em outubro, a campanha ganhou uma frente marítima. Em 5 de outubro, um cargueiro turco que levava milho foi atingido por drones na zona econômica exclusiva da Romênia e afundou.
Entre 6 e 13 de outubro, quatro cargueiros foram atingidos na zona econômica búlgara. Em 14 e 15 de outubro, dois petroleiros químicos foram atingidos perto da costa romena.
A Associated Press conta ao menos sete navios mercantes atingidos no mês. Segundo a IBTimes, dez tripulantes são dados como mortos no Alfa Watan, 11 estão desaparecidos no HS Dignity e sete no Wine Trader.
A reação dos aliados foi rápida. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, recebeu em Bruxelas o primeiro-ministro búlgaro, Rumen Radev, e o presidente romeno, Nicușor Dan, e disse que a aliança reforçou a vigilância e a capacidade antidrone na região.
A Bulgária pediu caças e sistemas antidrone em seu território, e a Romênia propôs um comando militar conjunto com Bulgária e Turquia. Sofia pede também uma moratória de ataques a navios civis.
Ao mesmo tempo, a iniciativa Drone Edge, lançada em julho com mais de US$ 40 bilhões em cinco anos para defesas antidrone, ganhou novos membros. Aliados chegaram a discutir invocar o Artigo 4, que abre consultas formais.
A atribuição não é consensual. Radev disse que a Rússia é a provável responsável, mas Sofia afirma não ter evidência sólida e pediu ajuda à OTAN e à União Europeia para investigar.
Jatos romenos derrubaram em 17 de outubro dois drones russos Geran-4 que entravam no espaço aéreo do país. Segundo levantamento do centro de análise CEPA, houve ao menos 17 ataques nos países da linha de frente da OTAN e na Moldávia no último mês, com direção russa comprovada ou suspeita.
Entre eles, cinco drones russos entraram no espaço aéreo da Moldávia em 17 horas, no dia 17. Na Lituânia, uma tentativa de incêndio contra antenas Starlink foi a terceira contra o sistema na flanco oriental em um mês.
Autoridades estonianas atribuíram a serviços secretos russos o incêndio em agosto contra a Milrem Robotics, fabricante de sistemas de defesa em Tallinn. Moscou nega.
Pesquisadores ligam a Moscou mais de 150 atos de incêndio criminoso e sabotagem na Europa desde 2024. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) documentou 144 avistamentos suspeitos de drones em 13 países europeus entre agosto de 2024 e fevereiro de 2026.
A Reuters informa que os governos europeus estudam dar a empresas de energia e infraestrutura mais poderes para derrubar drones. Segundo o WSJ, autoridades ocidentais ligam a escalada à insatisfação do Kremlin com o rumo da guerra na Ucrânia e com a falta de resultados nas negociações.
O objetivo, ainda segundo o jornal, não seria apenas provocar danos físicos, mas desestabilizar sociedades europeias e fortalecer movimentos políticos contrários à continuidade do apoio militar a Kiev. A estratégia depende da ambiguidade.
Um drone sem bandeira, um incêndio sem assinatura, um navio civil afundado em águas com várias jurisdições: nada disso é, isoladamente, uma declaração de guerra. Quem faz sabe que cada ato fica abaixo do limiar que obrigaria a OTAN a reagir militarmente, e é nessa zona cinzenta que o custo político para o agressor é menor e o custo para a vítima, maior.
Na Albânia, país-membro da OTAN, o primeiro-ministro Edi Rama culpou na terça-feira uma “guerra híbrida” pela semana de protestos violentos em Tirana. Segundo as autoridades, cerca de 300 pessoas ficaram feridas, mais da metade policiais.
As manifestações começaram por causa de um resort em área ecologicamente protegida ligado à família do presidente Donald Trump, e hoje exigem a renúncia de Rama. Ele acusa Rússia e Irã de impulsionar a desinformação online.
A frase mais interessante do premiê, porém, foi outra: a guerra híbrida “ganha força justamente porque está enraizada em queixas reais, não em fantasias”. É uma admissão rara.
Custo de vida, preço da moradia e medo do futuro são combustível que a propaganda estrangeira não precisa fabricar, só amplificar. Não há, nas apurações disponíveis, evidência pública de que Moscou tenha organizado os protestos franceses de que tratamos nesta coluna ontem.
O que existe é a leitura de autoridades europeias de que sociedades pressionadas por inflação, déficits e serviços em declínio são terreno fértil para campanhas de desinformação. A mesma fragilidade que leva jovens às ruas pode ser explorada por quem quer ver governos europeus enfraquecidos.
Defender-se custa caro, e a Europa chega a essa fase em estado fiscal frágil. Os países da OTAN se comprometeram, na cúpula de Haia, a gastar 5% do PIB com defesa.
A França, como vimos, deve 119% do PIB, prepara cortes de 54 bilhões de euros em 2027 e vê juros e gastos militares subirem ao mesmo tempo. Um economista do BNP Paribas calculou que o governo precisa de economias equivalentes a cerca de 1% do PIB só para reduzir o déficit em 0,4 ponto.
A assimetria é brutal: um drone barato custa pouco a quem o lança, e derrubá-lo exige sistemas e treinamento que a maioria dos países europeus ainda não tem em escala. O CEPA avalia que a Europa estaria até menos preparada do que a Ucrânia para enfrentar enxames de drones e mísseis baratos, justamente por não ter a experiência de combate que Kiev acumulou.
Há uma contradição que Bruxelas, Berlim e Varsóvia observam com incômodo. Segundo as próprias fontes do WSJ, a inteligência americana conclui que Moscou escalou contra a OTAN.
Ao mesmo tempo, o governo Trump suspendeu por seis meses sanções ao diesel russo, o enviado Steve Witkoff chegou na quarta-feira a São Petersburgo para reunião com Putin, a entrega de mísseis Patriot já pagos por países da OTAN pode atrasar, e o presidente disse que a Ucrânia deveria “arrumar outro negociador”.
Um enviado de Trump, Tom Barrack, resumiu o momento no Golfo, mas a frase vale para a Europa: os Estados Unidos, como fiador do mundo, “não estão mais lá” nos termos de antes. Washington chama isso de realinhamento, não de abandono.
Para os europeus, a consequência prática é a mesma: precisam cuidar mais de si mesmos, e isso exige gastar, reformar e produzir. O Brasil não está na OTAN nem no Mar Negro, mas o efeito chega pelo bolso.
O Mar Negro é rota de exportação de grãos ucranianos, e cada navio atingido eleva o prêmio de risco do seguro marítimo e pressiona preços de frete e commodities, num momento em que o petróleo já está acima de US$ 100. A lição política vale mais ainda.
A melhor defesa contra a guerra de informação, que usa queixas reais para enfraquecer governos, é um Estado que entregue o básico, com contas em ordem, serviços que funcionem e promessas que caibam no orçamento. É uma reflexão pertinente para qualquer democracia, inclusive a que vota no domingo.
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