“Nunca evoluímos para fazer exercício”, afirma o biólogo evolucionista Daniel Lieberman. E ele tem razão. O ser humano evoluiu para ser fisicamente ativo por pura necessidade de sobrevivência: caçar, coletar e explorar. 'Me sinto como se tivesse 39': Aos 101 anos, mulher surpreende pela rotina ao trabalhar, dirigir e dançar 'Eles mexiam lá em Barretos e viam meu intestino aqui em RO em uma tela', diz aposentado submetido à 1ª telecirurgia robótica do SUS No entanto, o exercício – entendido como atividade planejada e estruturada para melhorar a forma física – é um conceito muito mais recente. Hoje, embora a tecnologia tenha reduzido drasticamente a necessidade de nos movimentarmos, a atividade física continua sendo essencial para preservar nossa saúde física e mental. As estatísticas são alarmantes. Em nível global, 1 em cada 3 adultos e 8 em cada 10 adolescentes não alcançam os níveis mínimos de atividade física recomendados pela Organização Mundial da Saúde. 90% escolhem o elevador em vez das escadas, e apenas metade daqueles que se propõem a fazer exercício consegue cumprir seu objetivo. Costuma roer as unhas no dia a dia? Veja 6 consequências para a saúde que o hábito pode causar Esses dados nos convidam a refletir: por que algumas pessoas gostam de correr uma ultramaratona sob o sol escaldante do deserto, enquanto outras suam frio só de pensar em sair para dar uma volta no quarteirão? Mais do que força de vontade Em 1988, a empresa Nike lançou um comercial protagonizado por um sorridente homem de 80 e poucos anos chamado Walt Stack, que aparecia correndo pela Golden Gate, em São Francisco, enquanto explicava qual era sua motivação para fazer isso diariamente. O anúncio terminava com três palavras escritas em branco sobre um fundo preto: "Just Do It" ("Apenas faça", em tradução livre). Simples, não é? Mas será que é apenas uma questão de força de vontade que diferencia aqueles que fazem exercício daqueles que não fazem? Parece que não partimos todos da mesma linha de largada, pois diversos estudos com gêmeos revelaram que aproximadamente 60% da nossa capacidade de autocontrole é condicionada geneticamente. Muito além da companhia: O que a psicologia diz sobre as pessoas que amam cães? Nossa disposição para nos movimentarmos é influenciada por processos inconscientes. Assim, as decisões sobre fazer ou não exercício podem ser determinadas por predisposições biológicas que moldam a percepção do esforço, do prazer ou do desconforto. Os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky propuseram um modelo que ajuda a compreender esse conflito entre o comportamento automático e o deliberado. Segundo eles, nossas decisões são determinadas pelo “sistema 1”, rápido e intuitivo (por exemplo, retirar a mão do fogo), e pelo “sistema 2”, lento e analítico (manter hábitos como o exercício). Pois bem, as decisões racionais do sistema 2 recebem a influência de mecanismos inconscientes, o que levanta uma ideia fascinante: nossas escolhas, como levantar do sofá, poderiam ser determinadas por processos cerebrais que escapam ao controle consciente. Como explica o psicólogo e escritor canadense Steven Pinker, não somos uma folha em branco, mas organismos evolutivos projetados para responder ao mundo. Comportamentos como escolher as escadas rolantes em vez das convencionais respondem a mecanismos ancestrais destinados a economizar energia em ambientes de escassez. Em uma sociedade dominada pela busca do prazer imediato, na qual passar a tarde deslizando o dedo por uma tela parece mais atraente do que amarrar os cadarços, submeter o corpo a esforços “desnecessários” representa um desafio direto à nossa programação biológica mais primitiva. E é que, a menos que exista uma recompensa suficientemente valiosa, o cérebro tende a favorecer os comportamentos de menor custo energético. Por isso, iniciar e manter a atividade física geralmente exige mais recursos cognitivos do que se deixar levar pela inatividade. A dopamina e outros fatores que fogem ao nosso controle Aqui entra em jogo a dopamina, o neurotransmissor que regula o prazer e a tolerância ao esforço. As variações individuais no sistema dopaminérgico e, até mesmo, a composição da microbiota intestinal modulam nossa motivação para fazer exercício. O que é evidente é que esses fatores não dependem de nós, assim como não depende de nós a atividade física que nossa mãe realizou durante a gravidez, que prediz nossos níveis de atividade física na idade adulta. No entanto, a biologia não é suficiente para explicar o comportamento humano, e aspectos como a experiência e o contexto social alteram a autoeficácia e a motivação para fazer exercício. Assim, gêmeos idênticos, que compartilham o mesmo DNA, divergem em sua resposta à atividade física em função de experiências ruins ou inseguranças corporais. Essas vivências modulam a relação emocional com o movimento e podem gerar trajetórias opostas. Da culpa individual à responsabilidade coletiva Reconhecer esses condicionamentos não significa ser fatalista. Uma vez que compreendemos a influência dos fatores biológicos e ambientais, eliminamos o componente moral da inatividade. Assim, aceitar que o esforço físico não tem o mesmo custo para todos nos obriga a olhar menos para o indivíduo e mais para as situações em que ele vive. O desenho urbano amplia as desigualdades biológicas. Segundo o estudo PASOS, que incluiu mais de quatro mil menores de idade, aqueles que vivem em bairros de baixo status socioeconômico e com pouca acessibilidade para pedestres registram menos minutos de brincadeiras ao ar livre e menor participação em atividades esportivas. As políticas atuais buscam atuar desde as primeiras etapas da vida. A promoção do exercício físico durante a gravidez, o incentivo à educação física e o acesso universal a espaços recreativos são estratégias que pretendem compensar desvantagens biológicas ou contextuais antes que elas se consolidem. Os contextos socioeconômicos, os marcos regulatórios, os modelos educacionais e o desenho dos espaços comuns devem funcionar como aliados da motivação. Por exemplo, em Cluj-Napoca (Romênia), é possível obter uma passagem de ônibus em troca de fazer 20 agachamentos. Com mais de 200 mil passagens emitidas, essa iniciativa demonstra que é possível transformar um esforço biologicamente custoso em um jogo de recompensa imediata. Em última instância, devemos entender a liberdade como uma construção coletiva. Como escreveu o filósofo Arthur Schopenhauer: “O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer [escolher] o que quer”. O verdadeiro ato de vontade coletiva não está em exigir um simplista Just Do It, mas em projetar ambientes que convidem ao movimento. * Miguel Ángel Rodríguez é pesquisador de bases evolutivas e neuropsicológicas da (in)atividade física humana na Universidade de Oviedo. * Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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A falácia do ‘Just Do It’: por que o cérebro prefere o sofá à academia (e não é culpa nossa)
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O Globo
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