A era do capital improdutivo

A era do capital improdutivo - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

A lógica da acumulação de capital mudou. O neoliberalismo fez o capitalismo entrar em uma era do capital improdutivo.

A riqueza social produzida pelo trabalho tem sido capturada pelo capital financeiro. A intermediação financeira fica com 15% do PIB do Brasil, por exemplo.

Segundo Ladislau Dowbor, quem melhor teorizou a questão no Brasil: “O ponto fundamental é que não é a falta de recursos financeiros que gera as dificuldades atuais, mas a sua apropriação por corporações financeiras que os usam para especular em vez de investir.

O sistema financeiro passou a usar e drenar o sistema produtivo, ao invés de dinamizá-lo.” Ainda antes da pandemia, que só intensificou as desigualdades sociais, elas já eram brutais no mundo: oito indivíduos detinham mais riqueza do que a metade da população mundial, enquanto 800 milhões de pessoas passavam fome.

O 1% mais rico detém mais recursos que os 99% restantes do planeta. O aumento da riqueza nos EUA se deve essencialmente ao rendimento de aplicações financeiras.

A partir dos anos 1980, o capitalismo entrou na fase de dominação da intermediação financeira sobre os processos produtivos. Mas apenas a partir da crise de 2008 — considerada, naquele momento, a maior desde 1929 — os mecanismos que produzem as desigualdades e a apropriação financeira das riquezas ficaram mais claros.

Ficou mais evidente que as grandes fortunas no mundo estão nas mãos de quem lida com papéis financeiros. A financeirização dos processos econômicos, há décadas, alimenta-se da apropriação dos ganhos de produtividade, essencialmente possibilitados pela revolução tecnológica, de forma totalmente desequilibrada, segundo Dowbor.

As aplicações financeiras rendem mais do que os investimentos produtivos. O PIB mundial cresce, em média, entre 1% e 2,5% por ano, enquanto as aplicações rendem acima de 5% e, frequentemente, muito mais.

Há uma dinâmica de transformação de capital produtivo em patrimônio financeiro, com a economia real sendo sugada pela financeirização. Os recursos existem, mas sua produtividade é esterilizada por um sistema generalizado de especulação que drena a capacidade de investir na economia real.

Igualmente importante é o fato de que os próprios recursos públicos, ou seja, os nossos impostos, alimentam hoje essa máquina. Além do mais, os recursos não declarados, colocados em paraísos fiscais, que não são investidos e não pagam impostos, chegam a cerca de 32 trilhões de dólares, enquanto o PIB mundial chega a 80 trilhões de dólares.

Os fluxos financeiros negativos para os países mais pobres significam que estes estão financiando os ricos por meio do sistema financeiro internacional. Os paraísos fiscais são uma espécie de prostíbulo do capitalismo, contribuindo decisivamente para o processo de acumulação de capital.

Pequenos países alugam sua soberania para processos de especulação financeira que não pagam os impostos que pagariam em seus países de origem. Neles, os capitais são reciclados para usos diversos, repassados a empresas com outros nomes e outras nacionalidades, lavados e formalmente limpos, livres de qualquer tipo de imposto.

É um sistema que não costuma agregar valor. Ao contrário, redistribui a riqueza para cima e os riscos para baixo.

O Brasil participa com algo como 520 bilhões de dólares, o equivalente a 27% do PIB. O pobre gasta, o rico acumula, com o gasto do pobre gerando demanda econômica, enquanto a movimentação de papéis dos ricos apenas desvia recursos da demanda e dos investimentos produtivos.

Dowbor conclui: “Não é a falta de recursos que assola o mundo, e sim o seu uso descontrolado ou controlado apenas por quem não tem interesse em torná-lo socialmente e economicamente útil.” Mas há dimensões políticas da financeirização da economia.

Hoje, é a lógica da finança que delimita o território ocupado pelas opções da política democrática. O poder corporativo tornou-se sistêmico, capturando cada uma das dimensões da política e gerando uma nova dinâmica.

Dowbor sistematiza todas essas dimensões: expansão dos lobbies tradicionais; financiamento direto de campanhas políticas e do bolso do eleitor; captura da área jurídica e geração de um sistema jurídico paralelo; controle da informação; controle do ensino e das publicações acadêmicas; erosão da privacidade; controle direto das pessoas; apropriação dos governos pelo endividamento público; dimensão política dos paraísos fiscais; exigência de rentabilidade financeira e pirâmide do poder corporativo; captura do processo decisório da ONU; e o dilema dos governos: a quem servir?

Os recursos se multiplicam pela imensa renovação tecnológica no mundo, mas não são os produtores que se apropriam desses recursos. Ao contrário, as esferas pública e empresarial encontram-se endividadas com o sistema financeiro.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →