A curiosa história de uma relíquia da MPB de Milton Nascimento com A Barca do Sol, que enfim vira álbum

 

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A MPB é cheia de relíquias, e “As gralhas” é certamente uma das mais surpreendentes delas: a trilha sonora de um espetáculo teatral, composta por Nando Carneiro (violonista, pianista e integrante d’A Barca do Sol, banda com inspiração no rock progressivo, mítica da cena underground carioca dos anos 1970) e gravada pela Barca com participação de ninguém menos do que Milton Nascimento.

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Os registros sonoros, ouvidos apenas pelos que assistiram à montagem da peça, entre os anos de 1978 e 1979, passaram décadas esquecidos até serem redescobertos recentemente pelo pesquisador Mauricio Gouvêa e encampados pela Três Selos Rocinante, que os transformou num álbum, a ser lançado inicialmente em um luxuoso LP, de vinil, cuja pré-venda começa na quarta-feira.

— Essa junção (A Barca do Sol e Milton Nascimento) é um acaso tremendo — admite, ainda surpreso, Nando Carneiro, de 72 anos, para quem “essa é uma trilha de uma peça de teatro, que nunca foi pensada para ser um vinil, ou para ser um trabalho da Barca com Milton Nascimento”.

O grupo A Barca do Sol, em 1979, com Marcelo Costa, Alain Pierre Magalhães e Nando Carneiro (no alto), Muri Costa, Beto Rezende e David Ganc

Divulgação/Bita Carneiro

Tudo aconteceu em 1978, fatídico ano em que o violoncelista Jaques Morelenbaum (futuramente, um dos maiores arranjadores da MPB) deixou A Barca do Sol para estudar música no exterior (“A gente era meio banda, meio conjunto de câmara, uma coisa misturada”, descreve Nando). Mas não sem antes participar das mixagens de “Corra o risco”, disco de estreia da cantora Olivia Byington, no qual a Barca foi a banda de acompanhamento não só nas gravações, mas no subsequente show, que aconteceu em agosto daquele ano, já sem Jaques, no Teatro Ipanema.

— A gente se virou, se virou, e conseguiu ir até o final daquela temporada com a Olivia. Aí, o (então ator e galã de novelas) Marcos Paulo, que na época era namorado dela e tinha feito a iluminação do show, veio com o convite para fazer a trilha dessa peça que ele ia dirigir. Era um texto do Bráulio Pedroso baseado em três contos de Franz Kafka — conta Nando. — Ele deu as condições: “A Olivia tem que cantar, a Barca tem que tocar… mas não tem dinheiro!” Claro, eu topei na hora.

Era a estreia de Marcos Paulo na direção teatral, e também a do futuro diretor de TV Jorge Fernando como ator (ele contracenava com Tomil Gonçalves). “As Gralhas” inauguraria o Teatro do Centro Cultural Candido Mendes (perto do Teatro Ipanema, no mesmo bairro da Zona Zul carioca, quase na Praça Nossa Senhora da Paz), uma pequena sala onde cabiam pouco mais de 50 pessoas, toda preparada e ambientada pelo artista plástico Gianguido Bonfanti (que ainda fez a ilustração do cartaz da peça, reproduzido na capa do vinil as ser lançado com a trilha).

Capa do LP com a trilha do espetáculo teatral "As Gralhas", de 1978, gravada pelo grupo A Barca do Sol e Milton Nascimento

Reprodução

No meio do caminho, quando Nando já tinha composto dois temas que, achava, poderiam funcionar na peça, subitamente o namoro de Olivia Byington e Marcos Paulo terminou. Alguns dias depois, o diretor ligou para o músico com a pergunta: “O que você acha de o Milton Nascimento cantar?” Ele e o ator Denis Carvalho (grande amigo de Milton) tinham feito o contato, e o cantor havia topado a empreitada. Nando Carneiro conta que caiu da cadeira com a notícia.

— Era 1967, no Festival Internacional da Canção, e o Augusto Marzagão (criador do festival), que era amigo do meu pai, levou o Milton lá em casa. Eu era criança e ainda dormia no mesmo quarto do meu irmão (o poeta e imortal da ABL Geraldinho Carneiro). O papai entrou no quarto para nos acordar, e nos levou para a sala, para ouvir o Milton cantar “Travessia” — emociona-se Nando. — Ele era um dos orixás d’A Barca do Sol. O Milton, o Egberto Gismonti e o Hermeto Pascoal, era a esse patamar que a gente queria chegar. A gente não imaginava que, um dia, poderia estar dentro de um estúdio, e o Milton cantando com a gente.

Dois eram os temas que ganhariam voz na trilha: “O camponês” e “As gralhas”. Entre setembro e novembro de 1978, Nando se encontrou com Milton três vezes para mostrar as músicas. Uma delas, com Muri Costa, integrante da Barca, com quem o cantor faria um dueto em “O camponês” — e, nesta ocasião, eles foram agraciados por Milton, no almoço, com um mexidinho preparado por ele próprio.

A gravação da trilha de “As gralhas” aconteceu em 30 de novembro, no estúdio Level, em Botafogo. Tudo teve que ser não apenas gravado, mas mixado, numa única sessão de seis horas.

— Quando chegou à gravação, o Milton não lembrava das melodias. Claro, porque na época ele estava viajando, fazendo outras coisas. Então, ele chegou e falou: “Grava você a voz, depois eu boto por cima” — recorda-se Nando Carneiro. — Ao mesmo tempo, ele foi sugerindo algumas coisas, como essa coisa de cantar em oitavas (em “As gralhas”, aquela em que todos os vocais são seus). Com o Milton, é assim: no momento em que você está executando aquela música, ela é sua; quando ele canta essa música, a música se torna dele.

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A trilha chega ao disco em sua íntegra, com diferentes versões de “O camponês”, uma de “As gralhas” e faixas instrumentais, como “As Gralhinhas (incidental)”, que tem uma revoada de flautas, tocadas por Davi Ganc.

— O Davi tinha 20 anos. Hoje, eu brinco com ele: “Você foi para Berklee (uma das mais renomadas faculdades de música do mundo, em Boston, nos EUA) e desaprendeu a improvisar. Seu improviso era hermetiano (de Hermeto Pascoal), não era berkleeano,. Era uma coisa totalmente livre. Eu falei: “São as gralhas, voando, gritando e enlouquecendo.” Paranoia, a ideia era essa — conta Nando, que, na versão para o disco, recriou a faixa “O trem” usando, desta vez, sons um trem de verdade, que se misturam aos sons originais, feitos com um ganzá.

Procurado pelo GLOBO com o pedido de um depoimento de Milton Nascimento, Augusto Nascimento, filho o cantor, respondeu: “Qualquer demanda profissional com o meu pai — ainda que mínima — está fora de cogitação. Neste momento, só me cabe respeitá-lo e cuidar dele”.

Memórias da aventura

Na época, os ensaios com a trilha para o espetáculo foram acelerados, porque “As gralhas” estreou no dia 18 de dezembro de 1978. O diretor Daniel Filho, que foi um dos produtores da peça (e hoje é casado com Olivia Byington), se lembra daqueles tempos (em que estava estourado na TV como diretor da novela “Dancin’ Days”) com bastante emoção.

— O Marcos Paulo era um dos meus grandes amigos. E o Jorginho Fernando, uma descoberta, um astral maravilhoso. Tinha um grupo ali, muito liderado pelo Bráulio Pedroso, e eles tiveram uma ideia de montar uma peça. Eles precisavam de um dinheirinho para ajudar e eu entrei com o dinheirinho, na época eu ganhava muito bem. Banquei aquela história, logicamente, dando o dinheiro como fundo perdido, não tinha a menor possibilidade de aquilo voltar — conta. — Era uma peça com dois atores absolutamente desconhecidos, de um diretor que jamais tinha dirigido teatro, num teatro que tinha uns 50 lugares.

Os atores Tomil e Jorge Fernando, no espetáculo teatral "As Gralhas", de 1978

Divulgação/Bita Carneiro

Mas “As gralhas” deu muito certo. Ficou em cartaz até o fim de 1979 e depois foi montada (com a trilha) em São Paulo. Ganhou até um prêmio em dinheiro, recorda-se Daniel Filho. Ainda em 79, magicamente, A Barca do Sol reencontrou Milton, em São Paulo, no Teatro Tuca, num show beneficente para Trindade (“uma praia linda que estava sendo objeto de especulação imobiliária”, diz Nando Carneiro) junto com Gonzaguinha, Grupo Água e o Regional de Trindade.

— A entrada do Milton no palco foi no final da nossa apresentação, com “O camponês”, que ele cantou. Só não se deu para ouvir coisa alguma, porque a situação era muito precária em termos de sonorização. Ficamos no palco e tocamos com ele “Caldeira”, uma música do Grupo Água que ele gravou no disco “Geraes” (1976) — rememora Nando, que depois registrou “O camponês” e “As gralhas” no LP “Violão”, gravado em 1983.

Vida que segue

A Barca do Sol acabou em 1981. Nando Carneiro seguiu em carreira solo, depois foi viver na Alemanha. Há 23 anos, mora em Rio das Ostras (RJ), onde encontrou as condições para educar o filho mais novo, que tem necessidades especiais, e chegou a dirigir um pequeno grupo de músicos da Fundação de Cultura. Mais recentemente, participou de shows da volta da Barca, como aquele em que tocaram o disco “Corra o risco” com Olivia Byington em São Paulo.

“As gralhas” veio à baila numa fita cassete mostrada a Mauricio Gouvêa pelo poeta, letrista e roteirista Juca Filho. Diante da descoberta, ele foi atrás dos músicos que passaram pel’A Barca do Sol com a ideia transformar aquilo num disco — e o baixista Alain Pierre, arquivista do grupo, lembrou que tinha em seus guardados uma transcrição digital, de boa qualidade, dos tapes originais.

Com o sinal verde de Nando Carneiro, Mauricio levou o projeto ao amigo Marcio Rocha, um dos donos da Tropicália Discos e diretor artístico do relançamento em LP, pela Três Selos Rocinante, de “Durante o verão” (1976), segundo LP d’A Barca.

— Quando surgiu essa descoberta de “As gralhas”, logo entrei em contato com o Nando, começamos a montar o disco e buscar as autorizações da Barca e do Milton — diz Marcio, que teve ajuda do produtor Kassin para editar as gravações num LP de 30 minutos de duração. — O disco traz aquela aura dos anos 70, em músicas com alto teor artístico, atemporais, com o Milton no auge da voz e a Barca afiadíssima. Quando ouvi a gravação, achei que o mundo tinha que conhecer isso.

O lançamento entusiasma ainda Daniel Filho.

— Acho maravilhoso que sirva de exemplo do que é possível fazer quando nós nos encontramos — exulta. — Queríamos dinheiro, viver bem, gastar, nos intoxicar de vez em quando e tal. Mas tínhamos a criação. Hoje eu vejo os jovens, os meus netos, todo mundo querendo fazer... mas cadê a patota? A patota é fundamental!