A cada 33 roubos no Rio, somente uma pessoa é presa em flagrante pelo crime, revelam dados do ISP

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Entre janeiro de 2025 e março de 2026, as delegacias do Estado do Rio receberam mais de 1,3 milhão de ocorrências de todos os tipos de crimes, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). No topo da lista, aparecem furto, estelionato e roubo, responsáveis por quatro em cada dez registros feitos no período. No entanto, examinadas as pouco mais de 60 mil apreensões de adolescentes e prisões em flagrante nos mesmos 15 meses — o recorte mais recente disponível; e o número de meses visa a permitir uma base mais ampla de dados para análise —, o panorama é outro. Um em cada quatro detidos foi pego por tráfico ou associação para o tráfico. Também sobressaem acusados de receptação e adulteração de sinal de veículo automotor (nome técnico para a clonagem de veículos). Roubo, furto e estelionato perdem destaque nesse ranking. Veja a lista: Além do Rock in Rio: onde a cena da música underground ferve na cidade Teleférico do Alemão começa a ter os cabos trocados na próxima semana, após dez anos parado O efeito prático é um descompasso entre as ocorrências de crimes e a prisão de suspeitos por cada delito. Apenas uma pessoa é presa ou apreendida a cada 23 furtos registrados no estado. Algo semelhante acontece com os roubos: um preso a cada 33 casos. Para o estelionato, a discrepância é ainda maior — uma prisão a cada 323 ocorrências. Já no caso do tráfico, um suspeito é preso a cada três registros. Em resumo, os crimes mais cometidos no Estado do Rio estão entre os que têm menos infratores tirados das ruas, e aqueles com mais prisões têm proporcionalmente poucos registros. Os números do Rio Editoria Arte O GLOBO analisou, a partir da base de microdados do ISP, o motivo das prisões realizadas no estado, onde ocorreram e o perfil de presos e menores apreendidos. Esses números foram comparados com os de crimes registrados. Nove em cada dez presos são homens. Mais de um quarto (28%) dos maiores de idade detidos são bastante jovens: têm entre 18 e 21 anos. A escolaridade é baixa: 38% não completaram o ensino fundamental. No caso dos adolescentes, a escolaridade também é pouca: 54% têm o ensino fundamental incompleto. A capital concentra mais de um terço (36%) de todos os presos no estado, proporção que se repete no caso dos menores de idade. Analisado o ranking dos crimes com mais detenções nestes 15 meses, houve 15.934 presos e apreendidos por tráfico ou associação para o tráfico, ou 26% do total de detidos. No caso dos maiores de idade, o município do Rio é o que tem mais prisões: 1.950, seguido por Nova Friburgo (630), Petrópolis (597), Macaé (513) e Campos dos Goytacazes (493). Entre as apreensões de adolescentes por esses crimes, o cenário muda: Nova Friburgo tem o maior número (227) no período analisado. Em seguida, vêm Campos (190), Teresópolis (186) e Petrópolis (181). A capital aparece apenas em quinto lugar, com 178 casos. O único tipo de furto que aparece entre os cinco crimes com mais presos é o praticado contra estabelecimento comercial — situação em que o suspeito pega algo e tenta fugir, por exemplo, levando produtos de supermercados e lojas de departamentos. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, foram 3.656 prisões e apreensões no Estado do Rio. 90 mil casos, 261 presos Quando o foco são os crimes com mais registros, a situação se altera completamente. Somando todas as prisões e apreensões por roubo, incluindo as tentativas, foram 3.775 em todo o estado nos 15 meses analisados. Por furto e tentativa de furto, houve 10.244 flagrantes. Já por estelionato, incluindo tentativas, apenas 579 prisões. Condomínio de luxo: imóvel que ocupará terreno da mansão mais cara do Brasil, no Leblon, já vendeu quase todas as casas Na capital fluminense, de janeiro de 2025 a março de 2026, apenas 261 criminosos foram presos por estelionato. Ao todo, foram registrados mais de 90 mil casos desse crime na cidade nesse período. Elisabeth Santana foi vítima de estelionato e furto em ocasiões diferentes. No primeiro caso, ela foi pagar um boleto com pressa e não percebeu que caiu em um site falso. No segundo, a bolsa dela foi levada por uma motorista de aplicativo. Elisabeth fez a reclamação no aplicativo e realizou o registro de ocorrência, mas a bolsa não foi localizada. — Eu estava distraída no telefone, tinha colocado a bolsa no chão, em determinado momento eu dei falta dela. Vasculhei o carro embaixo do banco da frente não achei a bolsa. A motorista disse que eu entrei sem ela, mas não tem como, porque eu saí de casa direto para o carro — relata. O município do Rio concentra cerca de 65% dos furtos, 63% dos roubos e 49% dos estelionatos do estado. E, com pequenas variações, repete o cenário fluminense. Apenas um criminoso é preso a cada 27 ocorrências de furto. A maioria dos detidos é localizada na Barra da Tijuca, onde a proporção melhora: uma prisão a cada 14 furtos registrados. Estupro coletivo e linchamento de ciclista: saiba o que aconteceu com envolvidos em crimes que chocaram Copacabana Uma das vítimas foi o filho de Luísa (nome fictício), de 15 anos. Ele e a mãe saíram para conhecer os museus do Centro quando foram surpreendidos por dois assaltantes, que os ameaçaram e levaram uma corrente de ouro do adolescente. Ela conta que um dos homens arrancou o cordão da vítima. — Tinha muitos policiais na rua, mas não naquele local. A impressão que tenho é que, nas vias de maior circulação, eles já sabem onde não tem polícia e ficam ali de olho — relata ela. Concentração de turistas O delegado Niandro Lima, titular da 5ª DP (Mem de Sá), explica que o centro do Rio é um local muito frequentado por turistas, o que pode contribuir para o aumento da incidência de roubos na região: — Um diferencial que a Lapa tem é o fato de ser uma área muito turística. Tem a Catedral e a Escadaria Selarón. O turista se distrai e acaba sendo roubado. No recorte por bairro, o Centro da cidade está no topo de praticamente todos os delitos de maior incidência. A Tijuca aparece como o segundo bairro com maior número de roubos, enquanto a Barra da Tijuca fica em primeiro lugar no estelionato. Ex-agente de David Corrêa, o DVD, era chefe do tráfico no ES e foi preso em apartamento de luxo do jogador do Vasco O cientista social e pesquisador do LAV/UERJ Robson Rodrigues explica que a concentração populacional na capital atrai um maior número de criminosos e, por consequência, gera mais registros de ocorrência, o que acaba reduzindo a eficiência das forças policiais: — Esse desequilíbrio acontece em virtude de um estado e de uma cidade completamente heterogêneos. Então, esses aspectos precisam ser analisados pelas autoridades de segurança, para planejar melhor sua atuação. A Polícia Civil informou por meio de nota que utiliza dados estatísticos e de inteligência para orientar o planejamento de suas ações, afirmando que “os números de prisões não devem ser utilizados isoladamente para medir a atuação policial. A efetividade do trabalho investigativo também se traduz na identificação da autoria e na elucidação de crimes, além da desarticulação de organizações criminosas e da recuperação de bens”. Já a Polícia Militar afirmou em nota que, “nos casos em que não há acionamento imediato e o crime é registrado posteriormente em uma delegacia da Polícia Civil, esse registro também passa a compor as bases de dados usadas pelas forças de segurança, dados que ajudam a identificar locais, horários, tipos de ocorrência e padrões de criminalidade”. *Aluna do Curso Jornalismo do Futuro sob a supervisão de Giampaolo Morgado Braga.

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