A casa caiu. A arte de Maria Guilhermina ficou.
Sim, ficou numa parede, dentro de um estacionamento no Centro de Goiânia, cercada pelo que sobrou e pelo que foi colocado ali depois. Uma estrutura metálica encobre parte da composição.
No chão, folhas secas, peças de metal, restos de lixo. No alto, a alvenaria exposta indica que o edifício foi embora sem que aquela parede recebesse um destino à altura do que sustenta.
O azul ainda é profundo. As formas brancas, amarelas, pretas e vermelhas conservam a elegância de uma cidade que, nos anos 1960, procurava construir também uma vida cultural.
A obra continua oferecendo à paisagem uma sofisticação que o entorno parece empenhado em desmentir. No canto inferior, a assinatura identifica a autora e registra a data: M.
Guilhermina, 1962. Sessenta e quatro anos depois, a pergunta se dirige às autoridades: o que será feito para garantir que este painel continue de pé?
A inscrição documenta o projeto de Maria Guilhermina em 1962 e identifica sua execução em São Paulo | Foto; Herbert Moraes/2026 A urgência começa pela parede.
O risco de queda relatado no local precisa ser examinado por profissionais habilitados. As fotografias mostram perdas de revestimento, manchas, partes expostas e uma obra parcialmente obstruída.
A estabilidade da estrutura exige avaliação presencial. Esperar que um fragmento caia para então reconhecer o problema seria acrescentar negligência ao dano.
A Secretaria Municipal de Cultura (a estadual também deveria se manifestar) e os órgãos de patrimônio precisam colocar esse endereço na agenda de providências imediatas: vistoriar, identificar as responsabilidades sobre o imóvel, avaliar a segurança do suporte e estabelecer as medidas necessárias à conservação.
A cidade precisa conhecer o diagnóstico, os responsáveis pela proteção e o prazo das intervenções. Mestre categorizada, Maria Guilhermina pertence à geração que ajudou Goiânia a formar seus artistas.
Pintora, escultora e professora, participou da criação do Instituto de Belas Artes que deu origem à atual Faculdade de Artes Visuais da UFG. Sua presença na história cultural da capital passa pelas obras e pelas pessoas que ajudou a formar.
Maria Guilhermina, uma das mais importantes escultoras do Brasil | Foto: Reprodução Aquele painel guarda também uma história doméstica, de uma época em que algumas famílias convidavam a arte a participar da própria arquitetura.
Os proprietários da residência: Erasto de Araújo Borges e Inah Monteiro Borges. Na esquina das ruas 16 e 29, o casal construiu uma casa cuja obra começou em 1959 e terminou no início de 1963.
Com o painel, a própria casa se tornou uma obra de arte. Apreciadores de arte, Erasto de Araújo Borges e Inah Monteiro Borges contrataram Maria Guilhermina para conceber o painel da fachada, reproduzido em cerâmica em São Paulo, além de trabalhos para o interior.
No casarão havia mármores, vidros pintados à mão, jardins e móveis concebidos para os ambientes. A composição da artista fazia parte dessa relação entre morar, construir e olhar.
Depois da morte do casal, a residência foi vendida e demolida para dar lugar a um estacionamento. Restou o painel.
E vale o acréscimo: ainda bem que não o destruíram. Ainda bem.
De alguma maneira, alguém respeitou o belo. Inah Monteiro Borges e Erasto de Araújo Borges: os donos da casa que foi “iluminada” pelo painel modernista da pintora e escultora goiana Maria Guilhermina | Foto: Reprodução
A palavra “restou” merece atenção. Ela descreve uma sobrevivência, mas também denuncia uma perda.
A obra foi separada da arquitetura para a qual nasceu e permaneceu numa estrutura isolada. Sua conservação passou a exigir cuidados próprios.
O que as fotografias mostram está longe de permitir tranquilidade. É uma violência contra a arte reduzir uma criação dessa importância à condição de obstáculo remanescente num terreno.
É uma violência contra a memória tratar sua sobrevivência como assunto que pode continuar esperando. A assinatura está legível.
A autoria está identificada. O endereço é conhecido.
Falta uma resposta pública. E rapidamente.
Antes que seja tarde demais.
Jornal Opção