Durante a curta porém épica campanha eleitoral do segundo turno, a movimentação do octogenário Lula com a energia yang de um jovem me fazia pensar em Atlas, titã da mitologia grega encarregado de sustentar o peso do mundo sobre os ombros. Pois a Lula cabia evitar que o fascismo bolsonarista voltasse a mandar no Brasil, e também propiciar maior equilíbrio ao tabuleiro geopolítico nas relações internacionais.
Afora o grande significado de sua vitória para o futuro do Brasil, ela servirá também de contenção à força global da extrema direita e ao projeto de um mundo unipolar, em favor do multilateralismo. Disso falam os efusivos cumprimentos de líderes europeus, enquanto Trump se cala.
Sua vitória evitou o quase completo domínio da extrema direita na América do Sul. Se Lula tivesse perdido, só ficaria faltando a queda do Uruguai.
Esta ambição foi claramente verbalizada pelo secretário de Estado norte americano Marco Rubio. O Brasil que ele chamou de quintal mostrou-lhe a força de seu líder e também a de seu povo.
Rubio e Trump compõem a lista dos grandes derrotados por Lula, encabeçada por uma elite nacional que fala em democracia mas não hesita em sacrificá-la diante da menor ameaça a seus privilégios. Junta-se ao bolsonarismo, na lista dos derrotados, as big techs norte-americanas, e especialmente a Meta, que tão descaradamente interferiu na campanha, sabotando a comunicação digital de Lula.
Ela inclui, no plano doméstico, as bets que Lula baniu, a elite financeira batizada de mercado, que nesta segunda-feira está usufruindo do “jus esperneandi” no câmbio e na bolsa, o agronegócio que Lula tratou a pão-de-ló neste terceiro mandato, colhendo em resposta uma oposição espinhosa e ingrata.
O desafio de derrotar tantas forças poderosas é que fez de Lula um Atlas heroico, que persistiu e venceu apesar do peso carregado, das agressões sofridas, das mentiras e das incompreensões, que lastraram inclusive entre uma parte dos pobres, os que votaram em Flávio, e são para Lula sua razão de fazer política.
Mais do que em suas outras eleições, a vitória desta vez foi muito determinada pela sustentação que recebeu da brava gente brasileira, que saiu da quase inércia no primeiro turno para conduzir literalmente a campanha, como quem toma o destino nas mãos dizendo: não, isso não. Não à volta do bolsonarismo, e muito menos do autoritarismo e quiçá da ditadura.
Pois Flávio, naqueles primeiros dias que se seguiram ao primeiro turno, já se sentindo eleito, anunciou que proporia o fim da reeleição, acrescentando: se seu mandato seria de quatro ou cinco anos, depois se veria. Quem sabe de seis, com uma reeleição.
Nossa Senhora Aparecida rogou por nós e nos livrou dele. Em seu discurso da vitória, na noite de domingo, Lula agradeceu e todos os que tornaram a vitória possível, tomando a campanha nas mãos, fazendo dela uma obrigação: a obrigação de defender a democracia, de evitar o autoritarismo e o negacionismo dos Bolsonaro, de evitar os retrocessos na área social, de garantir a soberania, interna e externa, de preservar a educação e a saúde como valores intocáveis e tantas coisas mais.
Foram eles os estudantes e os jovens em geral, as mulheres, os idosos, os trabalhadores, os que militaram nas ruas e nas redes, fazendo corpo a corpo ou atuando com o Janones, os que organizaram manifestações, carreatas e passeatas até mesmo sem a anuência do PT, os que se empenharam em identificar os que não votaram ou votaram em branco ou nulo no primeiro turno.
Gratidão a todos é um dever de todos nós. Vi jovens levando idosos para votar e isso foi comovente.
Vi idosos tentando mostrar a jovens que votar em Flávio era um perigo e uma ameaça ao futuro deles. Vi idosos dizendo a jovens o que foi a ditadura.
Por muitas razões a campanha foi épica e inesquecível. Uma delas, pouco falada, está no fato de que, numa rara e feliz ocorrência, a esquerda lutou unida: PT, PC do B e PV, a federação, mais PSOL, PDT, Rede, PSB e PV.
Lula disse no discurso da vitória que aprendeu muito na campanha e por isso vai mudar o jeito de governar o país. Esta foi uma das coisas mais importantes que ele prometeu, ainda que não tenha dito como será isso, afora a promessa de uma governo com forte comunicação digital.
Podemos, entretanto, imaginar um governo com maior participação popular, com menos concessões ao fisiologismo, com mais diálogo com todos os setores sociais, mas sem perder de vista o compromisso essencial com o povo que permitiu a vitória, composto pelos mais pobres e pelos mais fracos.
Lula continuará tendo uma responsabilidade enorme sobre os ombros: a de não decepcionar este povo, preservando a fé na política como único meio de mudar pacificamente o mundo. A de convencer, como já disse Fernanda Torres, que a vida presta.
Brasil 247