Mais da metade dos brasileiros que fumam ou já fumaram tentou abandonar o cigarro no último ano, mas poucos tiveram acesso a tratamento.
Uma pesquisa inédita, obtida com exclusividade pelo GLOBO, revela que 54,1% dos fumantes e ex-fumantes tentaram parar de fumar e apenas 13,4% tiveram acesso a algum tratamento para largar o cigarro.
O estudo também mostra que os ex-fumantes já representam 18,3% da população adulta brasileira, percentual superior ao de fumantes atuais (11,3%).
Enquanto 70% declarou nunca ter fumado.
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Os dados fazem parte da nova nota técnica "Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer", produzida pela Umane e pela Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive.
Divulgado no Dia Nacional de Combate ao Fumo, o levantamento reforça a importância da conscientização sobre os riscos do tabagismo e das estratégias voltadas à prevenção e à abandono do hábito.
Segundo a pesquisa, os brasileiros sabem dos danos causados pelo cigarro e cerca de 9 em cada 10 dos entrevistados reconhecem que fumar é um fator de risco para o câncer.
O resultado se mantém semelhante entre fumantes atuais (89,6%), ex-fumantes (89,8%) e pessoas que nunca fumaram (90,8%).
Para Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies, os resultados refletem o avanço das políticas públicas do Brasil no enfrentamento ao tabagismo.
— O Brasil construiu, ao longo de décadas, políticas de controle do tabaco reconhecidas internacionalmente e conta com estratégias de apoio à cessação no Sistema Único de Saúde.
Os dados mostram que há uma parcela importante de fumantes tentando abandonar o cigarro.
Isso reforça a oportunidade de ampliar o conhecimento sobre os recursos que já existem e fortalecer seu acesso, para que mais pessoas que desejam parar de fumar encontrem o apoio necessário — destaca a especialista.
Os dados também mostram que os serviços de saúde podem desempenhar um papel importante no incentivo ao abandono do cigarro.
Entre fumantes e ex-fumantes, 69,4% afirmaram já ter sido questionados por médicos ou outros profissionais da saúde sobre o hábito de fumar nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Enquanto 55,1% disseram ter recebido conselhos para parar.
Por outro lado, somente 13,4% tiveram acesso a algum tratamento especializado.
E apenas 11,4% buscaram orientação por meio do número disponibilizado nas embalagens de cigarros.
— Os dados sugerem que há espaço para que profissionais de saúde abordem com mais intencionalidade o tema, apoiando as pessoas que fumam na busca por tratamentos de cessação.
E ótimas políticas, como o Disque Saúde, do SUS, em que as pessoas podem ligar no 136 para receber orientações para parar de fumar, podem ser ainda mais disseminados – explica Luciana.
A pesquisa também apontou que 80% da população reconhece o fumo passivo como um risco para o câncer.
Esse conhecimento varia conforme a idade: 67,4% dos jovens entre 18 e 24 anos associa o fumo passivo ao câncer, enquanto esse reconhecimento atinge 84,3% pessoas dos 25 aos 59 anos, e 85,1% entre aqueles com idade igual ou superior a 60 anos.
Cigarros eletrônicos são um desafio para o controle do tabaco
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a fabricação, importação, comercialização, armazenamento, transporte, distribuição e propaganda desses produtos.
Entretanto, os dispositivos eletrônicos para fumar (DEF), como os cigarro eletrônicos, já foram utilizados ou ainda são utilizados por 14,5% da população do país.
E embora 86% dos entrevistados reconhecem que os dispositivos eletrônicos representam risco para o desenvolvimento do câncer, 18,4% acreditam, de forma equivocada, que esses produtos possam funcionar como uma estratégia de redução de danos.
Essa crença é mais comum entre os mais jovens: 25% da população com idades entre 18 e 24 anos; 17,9% na faixa etária entre 25 e 29 anos e 9% entre aqueles com 60 anos ou mais.
Essa menor percepção de risco entre os jovens é um sinal de alerta, visto que são justamente eles os mais atraídos pelos dispositivos eletrônicos para fumar.
Mulher inala vapor produzido por cigarro eletrônico
Freepik
— O alto reconhecimento dos riscos associados ao cigarro convencional é uma conquista importante das políticas de controle do tabaco no Brasil.
Os cigarros eletrônicos, no entanto, criam novos desafios por seu potencial de atrair novos fumantes, sobretudo jovens, que podem não ter consciência de que esses produtos também causam dependência e são prejudiciais à saúde.
É fundamental proteger os avanços conquistados pelo país e evitar que novos produtos ampliem a exposição da população à nicotina e ao tabagismo — explica Evelyn Santos, Gerente de Investimento e Impacto Social na Associação Umane.
"Na moda": curiosidade e novidade motivam experimentação de cigarros eletrônicos
Em uma pesquisa realizada anteriormente, 20,5% das pessoas que usavam ou já experimentaram cigarros eletrônicos disseram ter feito por curiosidade.
Enquanto 11,6% afirmaram que o fizeram porque estava “na moda”.
E 3% optaram pelo dispositivo para parar de fumar o cigarro convencional.
Os mais jovens são os que mais quiseram experimentar o cigarro eletrônico; 37,7% usaram pela primeira vez entre 18 e 24 anos e 19,2%, aos 17 anos ou menos.
Somados, os resultados indicam que quase seis em cada dez tiveram o primeiro contato com esses dispositivos antes dos 25 anos.
— Quando observamos esses dados em conjunto, vemos que a experimentação dos cigarros eletrônicos no Brasil está muito mais associada à curiosidade e à atração pela novidade do que à busca por uma forma de abandonar o cigarro convencional.
E chama atenção que esse primeiro contato aconteça principalmente entre adolescentes e jovens adultos.
Isso reforça a importância de manter a proibição desses produtos e fortalecer sua fiscalização, inclusive nos ambientes digitais — afirma Luciana.
O levantamento, Covitel 2023, foi desenvolvido pela Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a partir da articulação e financiamento da Umane.
Outras medidas para reduzir o tabagismo
Além das ações de prevenção e de apoio para quem deseja parar de fumar, especialistas acreditam que medidas econômicas podem desempenhar um papel fundamental na redução do consumo aos cigarros.
Duas das estratégias seria a implementação da Reforma Tributária e a criação do Imposto Seletivo para produtos nocivos à saúde, como os cigarros, que são vistas como uma oportunidade para reforçar as políticas de controle do tabagismo no país.
A expectativa é que o aumento dos preços reduza a acessibilidade econômica desses produtos e contribua para a queda do número de fumantes.
No caso dos cigarros eletrônicos, que são já são proibidos no Brasil, é importante a manutenção dessa proibição e o fortalecimento da fiscalização, para reduzir o acesso a esses produtos.
— O Brasil tem uma trajetória de sucesso no controle do tabaco, mas esses avanços precisam ser continuamente protegidos e fortalecidos.
Para os cigarros convencionais, isso inclui uma política tributária que mantenha esses produtos menos acessíveis e desestimule o consumo.
Ao mesmo tempo, precisamos preservar a proibição dos cigarros eletrônicos e ampliar a fiscalização para que uma restrição que existe na 4 legislação também se traduza em menor disponibilidade desses produtos na prática, especialmente para os mais jovens — conclui Sardinha.
O levantamento foi realizado entre setembro e outubro de 2025, e contou com a participação de 6.566 pessoas maiores de 18 anos de todos os estados do Brasil e do Distrito Federal.
