48.761.038 eleitores

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Esse é o número de brasileiros que terminaram o primeiro turno sem votar em Lula nem em Flávio Bolsonaro. 9,3 milhões escolheram outro candidato, quase 6 milhões votaram em branco ou nulo e 33,5 milhões não compareceram. Não formam um bloco de “independentes”. Chegaram ao segundo turno por caminhos diferentes. Parte pode faltar de novo no dia 25. Outros que votaram agora podem não aparecer. Para entender esses caminhos, imagine uma família. Vera, 53 anos, cuida da mãe em Porto Alegre e dorme com um ouvido no quarto ao lado. Jefferson, 36, sobrinho dela, faz corridas por aplicativo em Belo Horizonte e sente a inflação no tanque antes do IBGE. Letícia, 24, prima dele, é atendente de loja em Fortaleza e mãe do Theo, de três anos. No domingo, os três acompanharam o debate da Band enquanto conversavam por videochamada. Nós, leitores, entramos de penetra, quietos, anotando, torcendo para ninguém nos perguntar em quem votamos. Vera não votou porque não tinha com quem deixar a mãe durante o tempo necessário para ir à urna. Letícia foi e anulou: “Eles só brigam e a vida continua igual.” Jefferson votou em Caiado, depois de apoiar Bolsonaro duas vezes: “Não sou apaixonado por político nenhum. Quero quem resolva.” O primeiro bloco quase acaba com a reunião. Flávio provoca, Lula perde a paciência e o senador vai encenar atrás dele no vídeo. “Parece reality”, reclama Letícia. “Coisa de moleque”, diz Jefferson. Vera levanta para dar o remédio das nove. “Se continuar assim, volto pro Fantástico.” Lula parece cansado, irritado, às vezes perde o fio da conversa. Mas Lula eles já conhecem desde que Letícia usava fralda. Quem desperta curiosidade é Flávio. Pela primeira vez estão vendo de perto a mudança que tanto se promete. “Fala melhor que o pai, parece treinado”, admite Jefferson. “Mas quando apertam, ele foge.” Letícia quer entender uma pergunta de Lula que ficou sem resposta: por que Flávio votou contra ampliar de quatro para seis meses a licença-maternidade de servidoras estaduais do Rio? “Tenho filho. Queria ouvir a explicação.” Flávio muda de assunto. Na segurança, defende reduzir a maioridade penal, e Jefferson concorda. Mas não explica por que apoiou um projeto que retiraria a obrigação de identificar munições compradas pelas forças de segurança. “Se isso ajuda a descobrir de onde veio a bala, por que tirar?” Quando Flávio promete um “SUS padrão Einstein”, Vera, já de volta à chamada, se anima e desconfia ao mesmo tempo. “Minha mãe esperou quatro meses por um cardiologista. Eu quero acreditar. Mas como?” Para ela, basta conseguir consulta e remédio no posto. Quando Lula fala do fim da escala 6x1, Letícia se entusiasma: “Com dois dias de folga, eu fazia um curso.” Jefferson não se vê ali. “Se paro de rodar, paro de ganhar.” Quando Lula fala da pandemia, Vera interrompe o que está fazendo. Passou aqueles anos com medo de perder a mãe. Reconhece a experiência do presidente, mas Jefferson insiste: “Ele sabe das coisas. Só que já teve tempo. Quero saber dos próximos quatro anos.” O momento que mais animou a chamada veio quando Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancários e telefônicos dos dois candidatos e de suas famílias. “Aí sim”, diz Jefferson. “Em vez de um acusar o outro, abre tudo e mostra.” Flávio afirma não ter nada a esconder, mas não diz se aceita o desafio. Letícia pergunta o que muitos gostariam de ouvir: “Então vai abrir ou não?” Pela primeira vez, a briga oferece uma maneira concreta de tirar a dúvida. No fim, Jefferson segue com Flávio, de pé atrás e com risco de não votar se começar a chover. Letícia considera Lula, “o menos pior”, mas quer ver o debate da Globo. Vera prefere Lula, como antes, só não sabe se terá quem fique com a mãe no domingo. Ninguém falou de aplicativos, creche ou cuidado de idosos. Lula pareceu cansado, e isso incomodou, mas ninguém precisava daquele debate para descobrir quem era o presidente. Flávio era a novidade. Falou melhor do que esperavam, explicou menos do que precisavam. E, enquanto os candidatos disputam os votos que faltam, Vera ainda precisa descobrir quem ficará com sua mãe no dia 25.

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