2027: a recessão será com o país crescendo

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

Nenhuma casa de projeção espera queda do PIB no ano que vem. Mesmo assim, o empresário brasileiro já sabe o que vem pela frente

Recessão não é um sentimento, tem definição precisa e nenhum economista deveria (até aqui)  aplicá-la a 2027, porque a XP projeta crescimento de 1%, a Bradesco Asset Management trabalha com 1,3% e os quatro maiores bancos do país ficam dentro dessa faixa. O indicador de probabilidade de recessão do Bradesco marcava 3,3% em setembro, contra um pico de 33,5% em dezembro de 2025, o que significa que o próprio mercado tirou o cenário de contração da mesa.

Pelo manual, portanto, o Brasil vai crescer, e ainda assim o ano que vem vai doer como recessão dentro da maior parte das empresas brasileiras, porque PIB e caixa são duas contas diferentes. O PIB mede o volume produzido no país inteiro, enquanto a empresa vive de margem, de prazo e de disponibilidade de crédito, e essas três variáveis estão piorando ao mesmo tempo.

Isso já aconteceu este ano, na frente de todo mundo, quando o varejo brasileiro cresceu 1,9% no primeiro semestre e, entre abril e agosto, Casas Bahia, Tok&Stok, Casa & Video e Marabraz pediram recuperação judicial. O setor inteiro avançava nas estatísticas do IBGE enquanto quatro das maiores redes do país perdiam a capacidade de pagar fornecedor.

O que torna 2027 previsível é que os três principais vetores de desaceleração já estão em curso e nenhum deles depende de quem ganhar a eleição. O crédito é o vetor mais direto, com a Febraban projetando a carteira em alta de 7,5% em 2027 contra 8,9% em 2026, enquanto Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, afirma que o mercado já se aproxima de níveis observados em crises anteriores.

Entre as próprias instituições financeiras, a fatia que espera desaceleração mais forte saltou de 5% para 20% da amostra em poucos meses. A inadimplência vem em seguida e é o indicador que mais assusta, com a de pessoa jurídica em 4,2%, o maior nível desde 2018, e a de pessoa física batendo recorde em 7,8%.

Em valores absolutos, são R$ 86,1 bilhões vencidos há mais de noventa dias no segundo trimestre, uma alta de 24% em doze meses já descontada a inflação, e entre microempresas esse salto chegou a 45%. O terceiro vetor é a herança fiscal, com a dívida bruta em 81,9% do PIB, somada a um déficit primário de R$ 157,2 bilhões acumulado em doze meses.

As contas de mercado falam em um ajuste da ordem de 4% do PIB, e Armínio Fraga estima a necessidade em cerca de 3 pontos percentuais. Ou seja, qualquer governo que assuma em janeiro terá que cortar, taxar ou conviver com juro alto por mais tempo, e as três saídas desaquecem a economia.

Um crescimento de 1% é uma média, e média esconde dispersão, porque nos últimos trimestres foram a agropecuária e a indústria extrativa que puxaram o número para cima enquanto a indústria de transformação recuava. O pequeno negócio que vende para família endividada simplesmente não participa da parte boa dessa média.

Soma-se a isso o custo do dinheiro, já que com a Selic em 13,75% e a inflação projetada perto de 4,3% para 2027 o juro real fica ao redor de 9%. Uma economia que cresce 1% convivendo com juro real de 9% produz dentro do balanço o mesmo efeito de uma retração, com margem comprimida, estoque caro de financiar e dívida crescendo mais rápido que a receita.

O endividamento das famílias fecha o círculo, com compromissos equivalentes a 49,8% da renda anual e comprometimento mensal de 28,9% com prestações. Quem paga quase um terço do salário em parcela não compra roupa nova (ou não deveria), e esse efeito aparece primeiro no pedido que o lojista deixa de fazer ao fornecedor, muito antes de aparecer em qualquer estatística do IBGE.

Nada disso configura recessão na contabilidade nacional, e vale dizer isso com todas as letras antes que alguém diga por mim. O Focus não projeta queda do PIB, de modo que a palavra é uma licença que o número não concede, mas se sustenta mesmo assim porque descreve com precisão o que o empresário vai sentir no caixa, que é a única contabilidade que decide se a empresa continua de pé.

Em julho, em entrevista à revista Veja, Armínio Fraga resumiu a empresários o que fazer em três palavras: preservem o caixa; e completou pedindo cautela com novos empréstimos. O ex-presidente do Banco Central apontou o encurtamento dos prazos de emissão da dívida pública como o sinal que mais o preocupava na época.

A estratégia vencedora nesses cenários costuma combinar corte seletivo de custo com ataque comercial. A Bain, em pesquisa, chegou a conclusão parecida analisando 3.900 empresas, com os vencedores crescendo a 17% ao ano durante a crise e mantendo 13% depois, enquanto os perdedores ficaram em 0% e 1% respectivamente.

O detalhe que importa para quem lê isto em outubro de 2026 é que esses vencedores reestruturaram custo antes da crise chegar, enquanto ainda tinham margem de manobra para escolher onde cortar. A janela de decisão não é o segundo trimestre de 2027, é o trimestre que está correndo agora, com a empresa ainda gerando caixa e com o gerente do banco ainda atendendo o telefone.

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