Imagine estar em Nova York na manhã de 11 de setembro de 2001 e ver, da calçada, um avião atingir a Torre Norte do World Trade Center. Você corre até um telefone público, disca o número de casa e ouve o sinal de ocupado. A televisão ligada num bar próximo já exibe as primeiras imagens, mas ninguém consegue explicar o que está acontecendo. Agora imagine a mesma cena em 2026. Antes de entender direito o que viu, você provavelmente já teria o celular na mão, e o registro em 4K poderia estar no ar em segundos, junto com a sua localização compartilhada com a família e uma transmissão ao vivo assistida por gente do outro lado do mundo. O ataque completa 25 anos nesta sexta-feira (11), e o TechTudo ouviu três especialistas para entender como as potencialidades dos smartphones, redes 5G e plataformas digitais impactariam a comunicação do ocorrido. A especialista em comunicação digital e CEO da Fri.to Catarine Birk, o sócio-fundador e COO da Under Protection Igor Moura, e o professor da Escola Tech da FMU Level Up Hércules Lima Ramos avaliaram o impacto das redes sociais e do conteúdo produzido por testemunhas, explicaram por que as redes de telefonia colapsaram naquele dia e o que mudou desde então. 🔎 11 de Setembro: a internet quase parou no dia dos ataques; relembre 🎮 Como o 11 de setembro mudou GTA e deixou marca permanente na franquia Em 2001, a tecnologia móvel era voltada para chamadas e SMS. Se o 11 de setembro ocorresse hoje, a transmissão de dados no 5G e as publicações em tempo real transformariam o alcance do registro e a resposta ao ataque Reprodução/YouTube ➡️ Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews 📝 Qual iPhone é o mais barato? Tire dúvidas no Fórum do TechTudo As respostas convergem em dois pontos. O primeiro é que a comunicação entre pessoas comuns seria incomparavelmente melhor, com mensagens, localização compartilhada e alertas oficiais chegando direto na tela do aparelho, sem depender de completar uma ligação. O segundo é que nenhum dos entrevistados garante que a rede aguentaria tudo. Vídeos e lives enviados de um mesmo quarteirão pesam justamente na parte mais frágil da conexão, e a velocidade cobra um preço conhecido: boatos circulando no mesmo ritmo dos fatos, sem tempo para checagem. 11 de setembro: como um celular de 2026 mudaria a comunicação do ataque Confira os tópicos tratados nesta matéria especial no índice abaixo. A tecnologia em 11 de setembro de 2001 Smartphone e redes sociais: de testemunhas a fontes Desinformação no mesmo ritmo dos fatos O smartphone como ferramenta de contato Como as redes móveis de 2026 se comportariam Redes que priorizam quem socorre 25 anos depois, o que realmente mudou? A tecnologia em 11 de setembro de 2001 Em 2001, o celular já fazia parte da rotina de milhões de americanos, mas ainda estava longe de ser o aparelho multifuncional que conhecemos hoje. Nos Estados Unidos, havia 128,4 milhões de assinantes de telefonia móvel em dezembro daquele ano, contra 109 milhões no mesmo período de 2000 — em uma população de cerca de 285 milhões de pessoas. Na prática, porém, o celular ainda era principalmente um telefone. “Em 2001, o celular servia quase exclusivamente para fazer ligações e mandar SMS, funcionando como uma linha telefônica tradicional que precisava de um canal exclusivo para cada conversa”, explica Hércules Lima Ramos, da Escola Tech da FMU Level Up. Nokia 3310, celular popular nos anos 2000 Masood Aslami/Pexels Isso ajuda a entender por que as comunicações foram tão afetadas naquele dia. O problema não foi apenas a quantidade de pessoas tentando usar o telefone ao mesmo tempo: parte da própria infraestrutura foi destruída. É o que explica Igor Moura, especialista em segurança da informação da empresa Under Protection. "Congestionamento e destruição física são problemas diferentes. No primeiro, a rede existe, mas não consegue atender a todos. No segundo, eu posso perder antenas, energia, enlaces ou centrais. Quando os dois acontecem juntos, como ocorreu naquele dia, a capacidade de comunicação cai muito rapidamente." Em Nova York, os dois problemas apareceram simultaneamente. A Verizon registrou tráfego de 50% a 100% acima do normal em sua rede móvel em todo o país e informou que até dez estações rádio-base na cidade pararam de operar. Em muitos casos, a infraestrutura que conectava essas estações à rede fixa passava pelo World Trade Center. Duas instalações da operadora dentro do complexo, responsáveis por chamadas de entrada e saída, também foram destruídas no colapso dos prédios. A AT&T informou ter processado o volume recorde de 431 milhões de chamadas na data.
Com a telefonia sob pressão, a internet acabou funcionando como uma alternativa para parte da população, embora ainda estivesse longe de ocupar o papel central que teria hoje. Um levantamento do Pew Research Center feito nos dias seguintes ao ataque mostra que 51% dos adultos americanos ligaram para familiares e 40% ligaram para amigos. Cerca de 23% tentaram entrar em contato com alguém especificamente para saber se a pessoa estava a salvo. Mais de um terço dos internautas que tentaram telefonar (35%) teve problemas para falar com quem procurava. Entre esse grupo, um quinto recorreu à internet para fazer contato, o equivalente a algo entre 4 milhões e 5 milhões de pessoas. Smartphone e redes sociais: de testemunhas a fontes Câmeras existiam em 2001. Filmadoras também. A diferença é que uma testemunha de hoje carrega no bolso, ao mesmo tempo, uma câmera, uma conexão com a internet e ferramentas para distribuir o que acabou de registrar. Naquela manhã, quem estivesse com uma câmera poderia filmar o ataque, mas ainda dependeria, na maior parte das vezes, de um veículo de comunicação para transformar aquele registro em notícia. O vídeo precisaria chegar a uma emissora, ser selecionado e entrar em uma programação que concentrava a atenção de milhões de pessoas. “Em 2001, uma testemunha podia registrar o que estava acontecendo, mas ainda dependia, na maior parte das vezes, de um veículo de comunicação para que aquele registro alcançasse um grande público”, explica Catarine Birk, especialista em comunicação digital e CEO da Fri.to. “Hoje, quem presencia um acontecimento já tem no bolso o celular, conexão de internet e as redes sociais e pode registrar, publicar e alcançar milhões de pessoas antes mesmo que uma equipe jornalística chegue ao local.”
O salto, portanto, não estaria apenas na câmera do celular. Estaria na combinação entre produção e distribuição. A internet de 2001 já permitia acessar notícias, trocar e-mails e participar de fóruns, mas o usuário precisava procurar o conteúdo. Em 2026, plataformas como X, Instagram e TikTok poderiam colocar um registro diante de milhões de pessoas sem que elas tivessem procurado por ele. Em um acontecimento da dimensão do 11 de Setembro, isso significaria uma multiplicação de relatos. "Provavelmente não teríamos uma única cobertura dominante, mas milhares de narrativas acontecendo ao mesmo tempo, com diferentes perspectivas disputando a atenção do público", opina Catarine.
Desinformação no mesmo ritmo dos fatos A mesma velocidade que ajudaria uma informação verdadeira a chegar ao público também aceleraria a circulação de boatos. “Em uma situação de extrema incerteza, existe uma demanda enorme por respostas justamente quando ainda existem poucas informações confiáveis disponíveis. As redes sociais ocupam esse espaço muito rapidamente e informações verdadeiras, hipóteses, erros, manipulações e teorias da conspiração passam a circular no mesmo ambiente”, afirma Catarine. O problema seria agravado pela própria lógica do compartilhamento. Uma informação repetida muitas vezes pode parecer verdadeira simplesmente porque está em todos os lugares. Em um acontecimento como o 11 de Setembro, uma publicação falsa sobre um novo ataque, um suspeito ou uma ameaça poderia provocar consequências concretas antes mesmo de ser desmentida. Nesse contexto, Catarine reforça que a facilidade de publicação não dá ao cidadão necessariamente as condições para compreender todo o contexto de um acontecimento e reforça a importância do jornalismo profissional. "O filtro jornalístico não existe apenas para atrasar uma publicação, mas para acrescentar contexto e checagem de veracidade. O desafio contemporâneo é que, muitas vezes, a informação já percorreu o mundo quando essa verificação chega", diz.
O smartphone como ferramenta de contato Se existe uma mudança em que os especialistas veem um ganho quase inequívoco, é na possibilidade de avisar rapidamente que está tudo bem. Em 2001, dizer “estou bem” dependia principalmente de conseguir completar uma ligação. Hoje, uma única ação pode transmitir essa informação para várias pessoas ao mesmo tempo. "Uma mensagem em um grupo, o compartilhamento da localização, uma atualização de status ou até a última atividade registrada em um aplicativo podem reduzir a angústia de dezenas de pessoas sem exigir dezenas de ligações individuais", diz Catarine Birk, que considera essa a mudança em que a tecnologia teria efeito mais diretamente positivo. Aplicativos de mensagens e compartilhamento de localização simplificam o aviso de segurança a familiares em emergências, reduzindo a necessidade de ligações individuais em redes congestionadas. Mariana Saguias/TechTudo Há, porém, um novo efeito colateral: a expectativa de resposta imediata. "Quando estamos acostumados a ter respostas imediatas, alguns minutos sem confirmação ou uma localização que deixa de atualizar podem ser interpretados de maneira muito mais angustiante", afirma. Do ponto de vista técnico, mensagens de texto também têm uma vantagem em relação a chamadas e transmissões de vídeo: exigem muito menos dados. Hércules Lima Ramos explica que serviços como mensagens do WhatsApp e algumas funções associadas à localização podem continuar funcionando em situações nas quais a rede está congestionada.
Como as redes móveis de 2026 se comportariam? O celular de 2026 seria muito mais capaz do que o aparelho de 2001; a rede também. Mas isso não significa que milhões de pessoas poderiam, ao mesmo tempo, transmitir vídeos em alta resolução no mesmo quarteirão sem qualquer impacto. Os especialistas ouvidos pelo TechTudo divergem sobre o tamanho do problema, mas concordam em um ponto: a infraestrutura atual teria uma capacidade muito maior, embora não seja infinita. “Nesses 25 anos, a internet móvel deixou de ser uma discada lenta para virar uma superestrada inteligente. Enquanto o antigo 2G mal abria um e-mail simples, o 5G consegue transmitir vídeos em altíssima definição sem engasgos e conectar milhares de aparelhos ao mesmo tempo na mesma antena”, explica Hércules Lima Ramos. Avanço do 2G para o 5G expandiu a capacidade de conexões simultâneas por quilômetro quadrado, mas o envio massivo de vídeos pesados na mesma área ainda pode gerar gargalos no tráfego. Reprodução/Unsplash A questão é que o tipo de uso também mudou. Em 2001, o grande pico de demanda veio principalmente das chamadas de voz. Hoje, além da voz, uma multidão poderia estar enviando vídeos, fazendo transmissões ao vivo, compartilhando fotos em alta resolução, realizando chamadas de vídeo e usando aplicativos simultaneamente. Para o especialista, o maior risco estaria justamente no upload. Se milhares de pessoas começassem a transmitir vídeos simultaneamente em uma área muito concentrada, a rede poderia sofrer congestionamento, mesmo sendo muito mais avançada do que a de 2001. “Conectar dispositivos e entregar grande largura de banda simultaneamente para cada um deles são desafios diferentes”, afirma Igor Moura. Hércules é mais otimista e considera que um cenário de congestionamento localizado seria mais provável do que um apagão total de comunicação. A diferença é importante: uma rede moderna poderia suportar muito mais usuários e oferecer mais caminhos de comunicação, mas não existe infraestrutura capaz de transformar uma área completamente congestionada em uma região de capacidade infinita. Redes que priorizam quem socorre Uma das mudanças menos visíveis para o público é também uma das mais importantes: hoje existe separação técnica entre a comunicação comum e a comunicação crítica. “Em uma crise, eu não preciso garantir a mesma qualidade para todos os usos. Eu preciso garantir primeiro que bombeiros, polícia, equipes médicas, centros de emergência, autoridades e operadores de infraestrutura crítica consigam continuar se comunicando”, explica Igor Moura. Desde 2001, os Estados Unidos também passaram a criar mecanismos para garantir que profissionais essenciais consigam se comunicar mesmo quando as redes estão congestionadas. Entre eles estão o o FirstNet, voltado à segurança pública, e o Wireless Priority Service (WPS), que dá prioridade a chamadas de usuários autorizados em situações de crise.
Alertas de emergência chegam a celulares em situações críticas Reprodução/Unsplash Outra diferença está na capacidade de avisar milhares de pessoas simultaneamente. Hoje, sistemas de Cell Broadcast permitem que autoridades enviem mensagens diretamente aos celulares conectados a uma determinada região, sem precisar conhecer os números dos aparelhos. Nos Estados Unidos, o Wireless Emergency Alerts usa as antenas da área afetada para distribuir os avisos e pode continuar operando mesmo quando chamadas e mensagens convencionais enfrentam congestionamento. No Brasil, o Defesa Civil Alerta segue lógica semelhante. O sistema, que não exige cadastro prévio, envia mensagens diretamente aos celulares compatíveis em uma área de risco, com instruções de proteção, evacuação e atualização da situação. 25 anos depois, o que realmente mudou? Volte à cena do começo desta reportagem. Em 2001, depois de testemunhar um avião atingir o World Trade Center, você poderia correr até um telefone público e tentar ligar para casa. Talvez a ligação não completasse. Talvez a televisão de um bar fosse sua principal fonte de informação sobre o que estava acontecendo. E, se tivesse uma câmera, seu registro ainda dependeria de alguém para levá-lo ao público. Em 2026, a sequência seria outra. O celular poderia registrar a cena, compartilhar sua localização, enviar uma mensagem para a família e publicar imagens em segundos. Alertas oficiais poderiam chegar diretamente ao aparelho, e diferentes caminhos de comunicação poderiam continuar disponíveis mesmo diante de falhas na infraestrutura. Mas engana-se quem pensa que a tecnologia eliminaria todos os problemas. Uma rede moderna ainda poderia sofrer congestionamento, e uma antena destruída ainda poderia interromper a comunicação. Além disso, enquanto uma informação verdadeira viajaria em segundos, um boato poderia fazer exatamente o mesmo caminho. A diferença entre 2001 e 2026, portanto, não diz respeito apenas aos avanços tecnológicos, mas à capacidade muito maior para produzir, distribuir e receber informação. Por consequência, é preciso ter muito mais responsabilidade para decidir no que acreditar. "Em momentos de crise, uma das atitudes mais importantes para quem recebe uma informação é resistir ao impulso de imediatamente repassá-la antes de saber se aquilo é realmente verdadeiro", resume Catarine Birk.
Com informações de Pew Research Center, Verizon, RCR Wireless News, eWeek, CTIA, Anatel e DPL News.
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