Zelensky propõe interromper ataques ao setor energético em negociação com Rússia
A Ucrânia propôs uma trégua no setor energético à Rússia em meio à intensificação dos ataques que têm como alvo infraestruturas estratégicas dos dois países. A iniciativa foi anunciada nesta segunda-feira pelo presidente Volodymyr Zelensky, após uma nova onda de ofensivas com drones atingir portos, terminais petrolíferos e ativos militares em território russo, enquanto bombardeios de Moscou deixaram mortos e ampliaram os danos a áreas civis ucranianas.
Veja também: Ataque russo contra mercado deixa cinco mortos na Ucrânia; Kiev bombardeia o sul da Rússia
Número recorde: Estudo revela que Rússia lançou mais de 6 mil drones contra a Ucrânia em março
“Se a Rússia estiver pronta para parar de atacar nosso setor de energia, estaremos prontos para responder da mesma forma”, disse Zelensky em pronunciamento. “E essa nossa proposta — transmitida por meio dos americanos — foi comunicada ao lado russo”, acrescentou, ao indicar que a oferta foi levada a Moscou por mediadores dos Estados Unidos.
Na madrugada desta segunda-feira, drones ucranianos atingiram o terminal marítimo do Consórcio do Oleoduto do Cáspio, em Novorossiysk, no sul da Rússia, segundo o Ministério da Defesa russo. O ataque danificou estruturas de amarração e um terminal de carga e descarga, além de provocar incêndios em quatro tanques de armazenamento de derivados de petróleo. Não houve comprovação visual independente dos danos.
O terminal integra a operação do Consórcio do Oleoduto do Cáspio (CPC), responsável por cerca de 1% do fornecimento global de petróleo e por aproximadamente 80% das exportações do Cazaquistão. Entre os acionistas estão empresas como Chevron e ExxonMobil.
Initial plugin text
Em paralelo, autoridades ucranianas afirmaram ter atingido instalações no terminal de Sheskharis, também localizado em Novorossiysk, com registro de “impactos diretos” e incêndio de grandes proporções. Já o governador da região de Krasnodar, Veniamin Kondratyev, confirmou danos a edifícios residenciais após a ofensiva, com oito feridos, incluindo duas crianças, mas não confirmou oficialmente os danos ao terminal citado pelos ucranianos.
Também durante a mesma noite, ainda em território russo, a Ucrânia teria ampliado o alcance da ofensiva ao atacar meios militares no Mar Negro. Segundo relatos iniciais, drones atingiram uma fragata russa equipada com mísseis de cruzeiro Kalibr — usados com frequência contra cidades ucranianas — no porto de Novorossiysk. A embarcação apontada é a “Admiral Grigorovich”, embora análises independentes indiquem que o alvo pode ter sido outra fragata da mesma classe, como a “Admiral Makarov” ou a “Admiral Essen”.
Ucrânia atinge fragata russa com drones no Mar Negro e amplia ofensiva a alvos estratégicos
Reprodução: Forças Armadas da Ucrânia
O ataque, conduzido por unidades especializadas em sistemas não tripulados, também teria atingido a plataforma de perfuração offshore Sivash, indicando a ampliação da estratégia ucraniana para além da infraestrutura energética, incluindo ativos militares e logísticos. A extensão dos danos ainda é incerta.
Pressão sobre exportações e impacto econômico
A nova onda de ataques ocorre em meio a uma estratégia mais ampla de Kiev para atingir o setor energético russo — considerado fundamental para financiar o esforço de guerra. Dados compilados pela Bloomberg indicam que, após ofensivas recentes, as exportações de petróleo da Rússia caíram de 4,072 milhões para 2,318 milhões de barris por dia na última semana de março, uma redução de 43%.
Portos-chave como Primorsk e Ust-Luga, no Mar Báltico, também foram afetados. Segundo a Reuters, o terminal de Primorsk — com capacidade de cerca de 1 milhão de barris diários — registrou vazamentos após ser atingido por estilhaços de drones. Já a refinaria NORSI, na região de Nizhny Novgorod, pegou fogo após ataques que atingiram duas de suas unidades. A planta é a quarta maior refinaria da Rússia e uma das principais produtoras de gasolina do país.
Kremlin: Pela terceira vez desde o início da guerra, Rússia afirma ter o controle total de Luhansk, na Ucrânia
Imagens de satélite indicam que Primorsk já havia perdido cerca de 40% de sua capacidade de armazenamento após ataques anteriores em março. No mesmo período, a interrupção das operações em portos e oleodutos chegou a paralisar até um quinto da capacidade de exportação russa.
Escalada simultânea e impacto civil
Enquanto isso, em território ucraniano, a Rússia intensificou os bombardeios contra áreas civis. De acordo com a AFP, um ataque russo com drones à cidade portuária de Odessa deixou três mortos — entre eles uma criança de dois anos — e ao menos 16 feridos.
Petroleiro russo Anatoly Kolodkin
Yamil Lage / AFP
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que, apenas na última semana, a Rússia lançou mais de 2,8 mil drones, cerca de 1.350 bombas planadoras e mais de 40 mísseis contra o país. Os ataques atingiram diferentes regiões e comprometeram o fornecimento de energia, deixando mais de 300 mil residências sem eletricidade, segundo autoridades locais.
Número recorde: Estudo revela que Rússia lançou mais de 6 mil drones contra a Ucrânia em março
Ainda de acordo com Zelensky, 11 pessoas foram hospitalizadas em Odessa após o ataque mais recente, incluindo uma mulher grávida e duas crianças. Empresas do setor energético informaram que milhares de moradores ficaram sem luz após danos à infraestrutura.
Para Kiev, atingir portos, refinarias e oleodutos representa uma forma de reduzir a capacidade financeira da Rússia de sustentar a guerra. Moscou, por sua vez, acusa a Ucrânia de tentar desestabilizar o mercado global de energia e interromper o fornecimento para a Europa.
Além dos impactos militares, a escalada já provoca efeitos no mercado internacional. Segundo o Financial Times, o porto de Ust-Luga — responsável por cerca de 8% das exportações globais de nafta — registrou queda de aproximadamente 70% nos embarques após os ataques mais recentes.
