Zé da Lagoa, conhecido por retirar lixo do Complexo Lagunar de Jacarepaguá há duas décadas, perde pagamento da prefeitura conquistado há cinco anos
José Cavalcante, mais conhecido como Zé da Lagoa, recolhe lixo de rios e lagoas da região da Barra da Tijuca há 22 anos. Diz que somente na semana passada, ele e seus dois ajudantes recolheram 3,7 toneladas de material. Há alguns anos, depois que esteve sob a ameaça de ser obrigado a deixar o lugar onde vive e seu trabalho ganhou as redes sociais, ele passou a contar com uma remuneração mensal da prefeitura, o que lhe deu mais segurança e a possibilidade de fazer mais pelo meio ambiente, conta. Mas, há três dias, Zé da Lagoa foi surpreendido com a comunicação de que o valor, atualmente de R$ 1 mil, seria cortado.
— Tiraram os mil reais que uso para botar gasolina no meu barco. Dediquei minha vida ao meio ambiente — lamenta.
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Zé foi às redes sociais protestar e mostrou o material que recolhe, todo separado por tipo: pneus, garrafas PET, objetos de plástico, metais. Ele afirma que desde 2021 é cadastrado no projeto Guardiões dos Rios, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, por onde recebia remuneração para manter seu trabalho, mas, de acordo com o funcionário que lhe telefonou, o dinheiro seria cortado devido à existência de uma segunda matrícula em seu nome na prefeitura e à impossibilidade de se acumular pagamentos. Ele confirma que chegou a ser cadastrado, por um curto período, como auxiliar de professores em uma iniciativa da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), e acredita que tenha havido algum mal-entendido relacionado a esse período, mas garante que não recebe mais nenhum valor do projeto esportivo há cerca de três anos.
— Me disseram que eu estava com duas matrículas e que não podia. Mas desse outro projeto eu recebi por pouco tempo. Hoje não recebo nada além desses mil reais que cortaram — diz.
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Sem o repasse, o trabalho é sustentado como sempre foi antes da inclusão no programa: por doações. Segundo ele, moradores, cooperativas e pequenos parceiros ajudam como podem.
— As pessoas doam cesta básica, ajudam com gasolina. Tem cooperativa que traz combustível e leva o lixo. Artesãos também pegam materiais, como pneus — explica.
O lixo retirado das águas é levado para o terreno onde ele mora, atrás do Clube da Aeronáutica, em Jacarepaguá, e dali segue para reaproveitamento ou descarte, com apoio de terceiros.
Zé da Lagoa diz que o vínculo com o programa Guardiões dos Rios surgiu quando foi procurado pelo então secretário municipal de Meio Ambiente e hoje prefeito do Rio Eduardo Cavaliere, durante uma das gestões de Eduardo Paes. Na ocasião, ele foi levado à prefeitura, onde apresentou seu trabalho e recebeu a promessa de apoio institucional.
— Disseram que iam me ajudar, que eu seria cadastrado como guardião do rio. Foi quando comecei a receber esse valor — relembra.
Ainda surpreso com a suspensão recente, ele afirma que não teve chance de tentar esclarecer ou contornar a situação.
— Até agora não abriram espaço para conversar — diz.
Questionada, a prefeitura não respondeu até a publicação da reportagem.
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