Êxodo endinheirado nos EUA: bilionários fogem de imposto na Califórnia e compram imóveis de luxo na Flórida

 

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Os corretores imobiliários de Miami passaram o último outono do hemisfério norte na esperança de um “efeito Mamdani”: a possibilidade de que o novo prefeito socialista de Nova York levasse multidões de ricos de Manhattan a fugirem para o sul. Isso nunca aconteceu. Em vez disso, a cidade está recebendo californianos ricos.

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A proposta do “imposto sobre bilionários” do Estado Dourado (Califórnia) abalou tanto os moradores ricos que muitos agora estão vasculhando o sul da Flórida em busca de casas de alto padrão, dizem os corretores. Não importa que o plano de imposto sobre a riqueza — amargamente contestado pelo governador democrata Gavin Newsom — ainda não coletou assinaturas suficientes para entrar na cédula eleitoral do estado em novembro. Ou que alguns especialistas jurídicos considerem a proposta duvidosa.

— Eles estão aqui, e estão fazendo ofertas — disse Dina Goldentayer, corretora de imóveis de luxo da Douglas Elliman.

Muitos compradores da Califórnia, segundo ela, estão focados em “propriedades de prestígio” que variam de US$ 30 milhões a US$ 150 milhões (entre R$ 156 a R$ 781 milhões). Outros, no entanto, buscam opções mais baratas que lhes permitam estabelecer residência rapidamente, em vez de esperar pela propriedade perfeita.

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Como um grupo, esses clientes exigem privacidade e, frequentemente, acordos de confidencialidade. Por isso, os agentes relutam em revelar nomes.

Mas Larry Page, cofundador da Alphabet, dona do Google, um dos homens mais ricos do mundo, com um patrimônio estimado em US$ 278 bilhões (algo em torno de R$ 1,5 trilhão), comprou uma mansão de US$ 101,5 milhões (ou R$ 530 milhões) e outra propriedade à beira-mar por US$ 71,9 milhões (cerca de R$ 374,7 mi) no elegante bairro de Coconut Grove em janeiro, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto.

Mais tarde naquele mês, uma entidade ligada a Page comprou uma casa adjacente por US$ 15 milhões (R$ 7,8 mi), elevando o valor total de suas aquisições imobiliárias em Miami para US$ 188 milhões (ou quase R$ 1 bilhão).

O também cofundador da Alphabet, Sergey Brin, com um patrimônio líquido estimado em US$ 258 bilhões (R$ 1,35 trilhão), está comprando uma casa à beira-mar em Miami Beach por US$ 50 milhões (ou R$ 260 milhões), segundo o New York Post. Em dezembro, Brin também comprou uma mansão no Lago Tahoe, em Nevada, para onde transferiu cinco empresas de responsabilidade limitada.

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O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, e sua esposa estão avaliando a compra de uma propriedade na ilha de Indian Creek, a nordeste de Miami, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto.

A maioria dos potenciais compradores, no entanto, não possui esse nível de notoriedade, em parte devido à forma como a proposta de imposto sobre fortunas foi redigida. Se aprovada pelos eleitores, a proposta imporia um tributo único de 5% sobre os californianos cujo patrimônio líquido ultrapassasse US$ 1 bilhão em 1º de janeiro de 2026.

O cálculo da riqueza pessoal incluiria ações com direito a voto em startups. Como resultado, muitos fundadores de empresas de inteligência artificial menos conhecidas teriam que pagar o imposto. Caso a medida seja aprovada, muitos analistas esperam que o caráter retroativo do imposto seja contestado na Justiça.

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Outros compradores de imóveis são californianos mais velhos e abastados que buscam proteger seu patrimônio pessoal, disse Andrew Graham, gestor de patrimônio com base em São Francisco e fundador da Jackson Square Capital. Ele estimou que 8% de seus clientes já deixaram a Califórnia devido à “má gestão governamental” e ao sistema tributário progressivo do estado, e 20% consideram seriamente a mudança.

— Todo mundo tem um Plano B, inclusive eu — disse.

Há anos, os líderes cívicos de Miami almejam transformar a cidade no próximo Vale do Silício ou Wall Street. O mercado imobiliário de Miami disparou durante a pandemia e no período posterior, à medida que pessoas vindas do nordeste e do centro-oeste dos EUA buscavam impostos mais baixos e regulamentações mais flexíveis relacionadas à Covid-19. Os valores das casas na região metropolitana de Miami saltaram cerca de 60% entre 2020 e 2025.

O preço médio das casas em Miami caiu abaixo do pico da pandemia, mas o segmento de luxo do mercado continua a subir. O incorporador imobiliário Vlad Doronin quebrou um recorde no Condado de Miami-Dade com a venda de sua mansão de US$ 120 milhões em Miami Beach, em março de 2025. No ano passado, foram registradas 19 vendas de imóveis acima de US$ 30 milhões no condado, em comparação com nove durante o pico da pandemia em 2021 e nenhuma em 2019, segundo a Analytics Miami, empresa de pesquisa imobiliária.

Movimento se espalha pelos EUA

Após quase um século de tentativas, os democratas do estado de Washington finalmente poderão aprovar um imposto de renda – medida que atingiria cerca de 30 mil contribuintes de alta renda.

Uma proposta de alíquota de 9,9% sobre rendas acima de US$ 1 milhão tem boas chances de ser aprovada nos 28 dias restantes da sessão legislativa estadual. A medida alteraria fundamentalmente a estrutura de arrecadação do estado, conhecido tanto por ser o berço de grandes fortunas do setor de tecnologia quanto por ser um raro reduto liberal com impostos baixos.

Os defensores dizem que é uma mudança há muito necessária para reduzir a dependência do imposto sobre vendas, o qual recai desproporcionalmente sobre pessoas de baixa renda, que gastam a maior parte de sua renda com itens essenciais.

Os críticos, por sua vez, afirmam que a medida prejudicaria a proposta de valor que tornou Washington um local atrativo para empreendedores que fundaram algumas das empresas mais conhecidas do mundo, como a Microsoft, Starbucks, Costco e Amazon.

Se a medida for aprovada, encerrará décadas de esforços para implementar um imposto de renda em Washington, um dos apenas nove estados americanos que não têm esse tributo. Em 1933, a Suprema Corte estadual anulou um imposto de renda aprovado pelos eleitores. Dez tentativas subsequentes foram rejeitadas pelos tribunais, parlamentares ou eleitores.

Os defensores de impostos esperam que desta vez seja diferente, com uma medida que se aplicaria apenas a indivíduos ou casais que declaram conjuntamente e que ganhem pelo menos US$ 1 milhão. A proposta ecoa outras apresentadas em estados como o Colorado, Michigan e Rhode Island, que aumentariam os impostos sobre os mais ricos.

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