Xenofobia é crime, mas quero falar de vitórias 

 

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Um dos assuntos mais comentados da semana foi, sem dúvida, o episódio de discriminação xenofóbica cometida pelo cantor Ed Motta contra um garçom de um restaurante chique do Jardim Botânico, na zona sul do Rio de Janeiro. O artista chamou o trabalhador de “paraíba filho da puta” e acendeu um debate adormecido na sociedade brasileira, mas presente na vida de milhões de homens e mulheres: o preconceito contra nordestinos.

Vindo de Maceió, eu cheguei no Rio há dez anos, já formado jornalista, não conhecia o preconceito xenofóbico até chegar aqui. Em Alagoas a minha carreira ia bem, mas eu queria me desafiar, conhecer outras culturas e estudar mais. Vim jurando que pelo meu bom currículo iria rapidamente arrumar um emprego. Fiquei fora do mercado por mais de um ano.

Na primeira semana que cheguei aqui, me recomendaram mudar o número de telefone, pois o prefixo 082, de Maceió, me “denunciava”. As imobiliárias não aceitaram o meu cadastro e eu fui morar em uma quitinete, no bairro do Estácio, cujo dono não pedia fiador. Lá a fiança era a nossa própria vida. Vacilou, já era. Dormi nesse período em um colchão no chão e arrumei um trabalho de vendedor em um shopping de luxo.

Na loja, atendia madames. No dia-a-dia, do primeiro ano por aqui, senti na pele o que era ser um migrante. Ao pegar o ônibus para o trabalho e fazer uma pergunta ao motorista ouvi ele me responder imitando o meu sotaque de forma irônica. Eu levava minha marmita para o trabalho, muitas vezes cuscuz e ovo, a loja não tinha refeitório. Fui comer na praça de alimentação e um segurança me orientou: “a paraibada come lá no subsolo”.

A gerente era filha de uma nordestina e me contratou sob o acordo de que eu não desistiria da minha carreira. Limpando as prateleiras, entre uma venda e outra, tive a ideia de usar meu tempo ali para fazer uma reportagem especial sobre a vida dos trabalhadores de shoppings. Consegui um espaço de publicação em um site de notícia independente e inscrevi a reportagem com título “Shopping: onde a flexibilização das leis trabalhistas já chegou” no Prêmio do Ministério Público do Trabalho.

Após mais de um ano tentando voltar ao jornalismo, eu tinha aceitado que não daria certo. Voltaria para Maceió. Mas chegou um e-mail que dizia: parabéns, você é o grande vencedor da Região Sudeste. Era um sinal de que precisava ficar. Fui para Brasília concorrer com reportagens vencedoras de outras regiões. Venci a etapa nacional, ganhei o maior prêmio em dinheiro daquele ano. Caíram na conta R$ 45 mil, e foi ali que a minha carreira começou.

Resolvi contar isso para vocês, porque não vou dar gosto a nenhum xenófobo de estampar esse espaço, que é muito valioso para a nossa comunidade, sem contar a minha vitória. Esse lugar foi pensado para celebrar a cultura, a carreira e os feitos do povo nordestino. Combater o preconceito com informação e seriedade. Oxente, Rio!, tem o X de EXTRA e o DNA da comunicação que se aproxima dos leitores.

Dito isto, a Paraíba é um estado do nordeste e chamar pessoas de “paraíba” é ofensivo. Quem nasceu lá é paraibano.

Xenofobia é crime

A xenofobia contra migrantes e nordestinos pode ser enquadrada como injúria racial ou crime de racismo no Brasil. A legislação prevê penas que variam de dois a cinco anos de prisão, além de multa. Dependendo do caso, a conduta também pode gerar indenização por danos morais. Especialistas apontam que ofensas relacionadas à origem regional configuram discriminação e violam direitos fundamentais.

Denuncie

No Rio, casos de xenofobia podem ser denunciados na Delegacia Especializada em Crimes Raciais e Intolerância (Decradi). Também é possível registrar ocorrência em qualquer delegacia, pelo Disque 100 ou procurar a Defensoria Pública do RJ, pelo telefone 129.