Wolf Alice, Oklou, Amaarae, Magdalena Bay: um guia da programação muito feminina do C6 Fest
Em sua quarta edição, o paulistano C6 Fest começa esta quinta-feira no Parque Ibirapuera, trazendo para o Brasil o que de mais novo há no mundo em termos de jazz, rock, pop, rap e música eletrônica de caráter mais experimental e alternativo. Criado pela produtora Dueto (dos antigos Free Jazz Festival e Tim Festival), o evento chega este ano com uma programação repleta de artistas solo femininas e de projetos capitaneados por mulheres.
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O GLOBO entrevistou algumas dessas jovens estrelas da música, que falam do seu momento e das dificuldades para chegar até aqui — a hora em que serão apresentadas, ao vivo, ao público brasileiro.
Wolf Alice
Um dos nomes mais incensados do novo rock mundial, o quarteto inglês acabou de ganhar o Brit Awards de grupo do ano por “The Clearing” (2025), seu quarto e mais recente álbum, o primeiro pela gigante Columbia Records (depois de anos no selo independente Dirty Hit). Com muitos elementos de folk, shoegaze, grunge, AOR e até grunge em seu som bem variado, a banda da vocalista Ellie Rowsell se apresenta sexta-feira no Rio de Janeiro (no Vivo Rio, em programa duplo com a cantora sueca Lykke Li) e sábado em São Paulo, no C6 Fest, no Parque Ibirapuera.
Prestes a vir pela primeira vez ao Brasil, com o Wolf Alice, Ellie, de 33 anos, festeja o sucesso de “The Clearing”, que chegou ao topo das paradas britânicas logo no lançamento e trouxe o hit “Bloom baby bloom” (que se somou a outros, de álbuns anteriores, como “Don’t delete the kisses”, “Bros” e “Lipstick on the glass”.
— Gravar e lançar álbuns sempre foi o nosso objetivo. Pode levá-los ao redor do mundo foi a cereja do bolo. E, para mim, ter conseguido fazer isso por pelo menos 10 anos... não é pouca coisa para uma banda independente, sabe? Então, somos muito gratos, a oportunidade de continuar fazendo essas duas coisas é um sonho.
“The Clearing” foi o segundo álbum que o Wolf Alice gravou em Los Angeles (antes, teve “Visions of a life”, de 2017, ganhador do Mercury Prize), mas desta vez com o produtor Greg Kurstin (que já trabalhou com divas como Adele e Beyoncé).
— Sofremos, sim, o choque cultural de sermos uma banda do norte de Londres gravando em Hollywood — conta a cantora. — É um lugar lindo para fazer música, por vários motivos, mas principalmente porque tem uma cena musical muito forte, e porque o nível dos músicos é altíssimo. É inspirador estar lá e, claro, o clima é maravilhoso, o que sempre ajuda no humor e, às vezes, nos motiva a levantar da cama e fazer um bom trabalho. Obviamente, parece um pouco clichê ir a L.A. para gravar, mas na verdade eu estava muito, muito grata e animada com isso.
Mulher em uma banda de homens, Ellie Rowsell analisa a demografia rock de 2026:
— Sempre houve mulheres em bandas, mas, sim, talvez haja mais agora. Outro dia tocamos em um festival na Austrália e provavelmente havia muito mais garotas do que homens tocando. Essa foi a primeira vez que vi isso, com certeza! — comemora. — Então, sim, é legal, embora o mundo do rock ainda pareça muito dominado por homens nos bastidores. Especialmente em turnês, ainda há um longo caminho a percorrer. Seria ótimo trabalhar com mais mulheres.
Oklou
A francesa Marylou Mayniel, 33, teve o seu momento de glória há alguns dias, ao dividir na abertura do Festival de Cinema de Cannes, com a cantora francesa-congolesa Theodora, a interpretação de “Get back”, dos Beatles. Este domingo, ela apresenta no C6 Fest o espetáculo de “Choke enough” (2025), seu álbum de estreia, que a transformou em sensação mundial com um pop eletrônico cheio de estranheza e personalidade.
— A apresentação em Cannes foi muito rápida. Rápida demais, na verdade, gostaria que tivéssemos tido mais tempo para nos reunirmos, trabalharmos juntas e apreciarmos ainda mais o momento — reconhece ela. — Mas, claro, foi incrível, principalmente por ter tido a chance de cantar essa música com Theodora, uma artista que admiro muito. E, em segundo lugar, por estar naquele palco icônico, e em terceiro lugar, por poder tocar essa música na frente do (diretor) Peter Jackson. O que mais posso dizer? É algo que provavelmente nunca mais farei!
Muitos os elogios da crítica a “Choke enough” vêm por conta de sua criativa fusão de música clássica, às vezes até medieval, e música eletrônica:
— (A música clássica e o pop eletrônico) sempre conviveram de forma muito natural, acho que não sou a única que consegue apreciar vários gêneros musicais ao mesmo tempo. E não vejo o clássico como o oposto da eletrônica, acho que são apenas tempos diferentes, a receita é a mesma. Elas têm os mesmos efeitos nas pessoas, inclusive em mim. É a mesma emoção quando me dá vontade de chorar, seja ouvindo música clássica, pop ou eletrônica. É simplesmente música.
Oklou se alegra de viver em um tempo em que estrelas pop também podem ser exploradoras musicais.
— Isso começa a acontecer um pouco mais, mas ainda não é o suficiente. Seja Rosalía, Caroline Polachek ou PinkPantheress, as pessoas não entendem o quanto essas mulheres se envolvem na criação do próprio som. Acho que acreditam que elas são apenas cantoras e têm uma voz bonita, mas não é bem assim — opina. — Gostaria que houvesse, tipo, um documentário, talvez, sobre o processo de criação das músicas, só para que as meninas e mulheres jovens pudessem aproveitar o que têm permissão para explorar e mostrar o que são capazes de fazer. É muito difícil ir além dessa postura de sou-apenas-uma-cantora, muito difícil!
A francesa diz que “poderia falar por três horas sobre como eu crio as faixas, sobre como elas são gravadas, sobre os efeitos que eu uso...”.
— Sou apaixonada por isso, mas, durante a campanha de divulgação do meu álbum, ninguém me perguntou sobre esse assunto específico, sendo que é a essência do meu trabalho e o que eu mais gosto! — reclama. — Não se trata de ser uma estrela pop, uma cantora, ou algo do tipo. É realmente a arte, é o meu trabalho, é a minha paixão. Mas acho que é menos interessante para a indústria da música, principalmente porque sou mulher.
Amaarae
Ganense-americana (nasceu no Bronx, em Nova Iorque, e viveu entre Gana e os EUA), Ama Serwah Genfi, de 31 anos, é hoje um dos mais interessantes nomes do pop global, misturando afrobeats, r&b e outros elementos. Em 2021, depois de viralizar no TikTok, sua música “Sad girlz luv Money” foi remixada com a participação da colombiana Kali Uchis e entrou nas paradas musicais globais.
Lançado no ano passado, seu álbum “Black Star” trouxe faixas com toques de funk brasileiro (em especial na faixa “Stuck up”), com participação de produtores que conheceu quando esteve em São Paulo, em 2024, para o festival Afropunk.
— Eu estava hospedada em uma casa, então trabalhei com alguns produtores como Mu540, Maffalda, Carlos de Complexo e Deekapz. Eles iam lá para passarmos um tempo juntos e fazer música — conta ela. — Sou fã de funk há muito, muito, muito tempo, provavelmente desde 2015, quando comecei a fazer música. Tenho muito respeito por esse som, sinto que ele compartilha uma linhagem semelhante com muitos sons ganeses, sons da África Ocidental. Então, para mim, é como conectar os pontos entre nós, em Gana e na África Ocidental, e nossos irmãos e irmãs no Brasil. Acho que é uma bela maneira de se criar pontes!
Amaarae diz que “todos os meus produtores favoritos no mundo atualmente são do Brasil”.
— Acho que alguns dos DJs mais legais estão surgindo do Brasil, e é uma cultura incrível, uma cultura irada, sabe? Há tanta criatividade e uma liberdade na forma como os brasileiros criam que acho que os africanos também estão começando a absorver, tornando-se mais experimentais e ousados. Sinto que o Brasil tem sido o ponto de partida para esse tipo de experimentação — acredita ela, que se considera vivendo um momento especial em que, “como jovens africanos, estamos todos explorando e fundindo os sons uns dos outros”, especialmente em Gana, Costa do Marfim e Camarões. — Na África, cada país tem seu próprio som!
Ela, que cria beats, canta, produz e compõe suas próprias faixas, diz que é importante entender todas as facetas da criação musical quando se é artista.
— Para mim, ter disciplina e conhecimento de engenharia de som, de produção musical, de produção vocal, de composição e de produção de beats me ajuda a expandir minha visão. Além disso, ser um bom pesquisador me ajuda a me desafiar musicalmente e a encontrar constantemente novas inspirações e novos sons — diz Amaarae, que se espelhou em artistas como Kelis e Missy Elliott no começo da carreira. — Foi muito importante ver mulheres negras, especificamente, sendo criativas. E não apenas como produtoras que realmente criam seus próprios sons, mas também como artistas visuais incríveis que criam mundos deslumbrantes e surpreendentes, combinando perfeitamente com a música.
Magdalena Bay
Dupla americana que parte do synthpop para fazer uma das mais concentradas misturas de tudo que é possível juntar no pop, o casal Mica Tenenbaum e Matthew Lewin (ambos no começo dos 30 seus anos de idade — ela, argentina; ele, filho de argentino) chamou a atenção do mundo com seu mais recente álbum “Imaginal disk”, de 2024. Um trabalho que eles criaram em seu estúdio caseiro e que, daqui a alguns dias, estreia nos cinemas como longa-metragem (“é basicamente um filme que acompanha a música, como se você tivesse um videoclipe para todas as faixas, com uma narrativa que segue o protagonista”, explica Mica).
— Começamos a fazer nossos próprios videoclipes logo que formamos o Magdalena Bay. Entendemos que, se íamos fazer música pop, o visual seria uma parte essencial daquilo. Então, aos poucos, fomos descobrindo como criar vídeos legais para acompanhar nossa música, fazendo tudo nós mesmos, editando e tudo mais — conta a cantora. — Com o tempo, isso se tornou uma parte importante do nosso projeto. No início, era só uma boa maneira de as pessoas nos conhecerem, de conhecerem nossas personalidades e nossa música e de expressarmos nosso ponto de vista artístico. Mas a coisa teve uma boa repercussão.
Antes do Magdalena Bay, Mica e Matthew tinham o Tabula Rasa, banda de “rock progressivo mais pesado, no sentido de que as músicas eram mais longas e tinham compassos diferentes, menos voltadas para o pop”, como diz Mica, que, assim como Matthew, conhece um tanto de Elis Regina e Milton Nascimento, mas não muito da produção mais contemporânea da música brasileira.
— Nos apaixonamos pela música pop quando estávamos começando o Magdalena Bay e logo vimos que o pop realmente pode ser qualquer coisa — diz ela. — Aprendemos mais sobre a arte de compor e produzir uma música pop e, acho que para a “Imaginal Disk”, estávamos meio que combinando isso com o amor que sempre tivemos por outros tipos de música, como todo aquele rock progressivo e Radiohead que ouvíamos quando adolescentes.
O casal diz não se reconhecer como parte de uma cena (“já faz tanto tempo que fazemos música juntos que é como se fosse um processo muito isolado e especial”, considera a cantora). O que não evitou que fossem chamados para abrir shows de artistas como Billie Eilish, Charli XCX e Hayley Williams (do Paramore).
— Foi legal (com a Billie Eilish). Quer dizer, era um show enorme, em um palco em formato circular, com 360 graus de espaço para o público — recorda-se Mica. — Foi uma experiência nova e ótima para nós. As pessoas estavam bem na minha frente e, do meu ponto de vista, pareceram muito simpáticas, receptivas e entusiasmadas.
