White Martins inaugura nova usina de hidrogênio verde e mira avanço industrial no Sudeste
A White Martins, maior fabricante de gases industriais da América Latina, iniciou nesta quarta-feira a operação de sua segunda unidade de produção de hidrogênio verde no país. Localizada em Jacareí, em São Paulo, a unidade vai atender à demanda de clientes de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Embora a companhia não divulgue o valor do investimento, o projeto faz parte do orçamento de R$ 1 bilhão previsto para o Brasil neste ano.
Em entrevista ao GLOBO, Gilney Bastos, presidente da White Martins e da Linde no Brasil e na América Latina, diz que a nova planta terá capacidade cinco vezes maior do que a primeira unidade, que entrou em operação em dezembro de 2022, em Pernambuco. Para ele, o projeto vai servir como uma espécie de showroom para que empresas industriais entendam o funcionamento da solução, apontada como uma das principais apostas para a descarbonização.
— O hidrogênio verde é uma etapa importante na busca pela sustentabilidade. Muitas empresas querem ter produtos sustentáveis, mas ainda se preocupam com os custos, e aqui na unidade vão ver como essa solução se materializa. Por isso, aplicamos nossa expertise no desenvolvimento deste projeto com o objetivo de viabilizar o fornecimento a preços competitivos para o mercado da região Sudeste, que é o coração industrial do país — afirma Bastos.
Soluções para empresas
Na unidade, o hidrogênio é produzido com energia renovável (solar ou eólica). Depois, é convertido para o estado gasoso e transportado para os clientes. Com o início da produção, a empresa já tem contratados cerca de 20% da capacidade para a fabricante de vidros Cebrace, vizinha da planta. Os outros 80% serão destinados a clientes dos setores metalúrgico, de alimentos e químico.
Sem dar detalhes, o executivo diz que está em conversa com empresas para a construção de soluções próprias de hidrogênio verde, que serão instaladas dentro das fábricas, assim como já ocorre com outras fontes, como a solar, para autoprodução.
— Temos conversas em andamento com empresas dos segmentos de papel e celulose, vidro, químico e siderúrgico. Vamos fornecer uma solução sob demanda. Hoje há interesse das empresas em descarbonizar suas operações — diz o executivo.
Incerteza global
Nos últimos anos, o Brasil estruturou uma estratégia para desenvolver o hidrogênio de baixa emissão de carbono, com a criação de um marco legal, incentivos fiscais e diretrizes para atrair investimentos. A ideia é estimular que o país produza hidrogênio tanto para o mercado interno quanto para exportação, por meio da conversão em derivados como a amônia verde. Porém, os projetos voltados ao mercado internacional entraram em um momento de incerteza, impulsionado pelas tensões geopolíticas após a Guerra da Ucrânia e, mais recentemente, com o conflito no Irã.
— No Brasil, já conseguimos produzir hidrogênio verde com custos próximos aos do hidrogênio a partir do gás natural, mas os projetos para o exterior ainda não avançaram, pois um fator-chave é ter a garantia de escoamento da produção. Hoje, com as guerras, a preocupação dos países é com a segurança energética, que ganhou espaço, e não com a diversificação. Mas, em algum momento, os governos vão precisar pensar em soluções sustentáveis - destaca Bastos.
Segundo Felipe Diniz, sócio da consultoria Mirrow & Co, o Brasil tem hoje um dos ecossistemas mais promissores do mundo para o hidrogênio verde, por conta de sua matriz limpa. Para Diniz, em termos de competitividade, o custo de produção de hidrogênio verde no Brasil deve atingir, em alguns anos, a faixa de US$ 1,50 por quilo, entre os mais baixos do mundo:
— Eu diria que o Brasil está na pole position para se tornar um fornecedor relevante. Mas a liderança não é automática. Ela depende de fazer a lição de casa regulatória. Os decretos que regulamentam o marco legal do hidrogênio ainda não foram publicados. É preciso resolver gargalos de transmissão e transformar memorandos e anúncios em decisões finais de investimento. Há sete projetos de escala industrial que planejam decisão final de investimento ainda em 2026, totalizando R$ 63 bilhões. O potencial é grande, mas a janela não fica aberta para sempre.
