Produção do motor W80 AXgen, que tem só 10% do peso e 13% do volume de similares, na planta da WEG em Jaraguá do Sul (SC)
Chan Weart/Divulgação
O setor eletroeletrônico brasileiro vive um momento de expansão.
O faturamento da indústria alcançou R$ 272 bilhões em 2025, com crescimento de 4%, descontada a inflação do setor, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
Em 2026, o cenário permanece favorável: 72% das empresas projetam aumento nas vendas e encomendas, o mesmo percentual pretende investir e 67% planejam ampliar o quadro de funcionários.
A expectativa é de que o faturamento atinja R$ 289 bilhões.
Em um ambiente marcado pela digitalização, pela crise climática e pela busca por sustentabilidade e competitividade, a inovação deixou de estar restrita ao desenvolvimento de novos produtos.
Envolve, cada vez mais, a criação de processos produtivos mais eficientes com o uso intensivo de inteligência artificial e a integração entre diferentes áreas.
Entre as companhias que mais se destacam nesse movimento estão WEG, Whirlpool, Prysmian, HT Micron Semicondutores e Atlas Eletrodomésticos.
Embora atuem em segmentos distintos, compartilham uma estratégia comum — transformar desafios industriais em oportunidades para desenvolver novas tecnologias e fortalecer sua posição no mercado.
Em 2025, a WEG apostou em responder à crescente demanda por eficiência energética, descarbonização e redução do consumo de matérias-primas.
Para isso, elaborou uma arquitetura de motor elétrico de fluxo axial, diferente dos modelos convencionais, capaz de entregar mais potência ocupando menos espaço e com menor peso.
Segundo Carlos José Bastos Grillo, vice-presidente de tecnologia da organização, o W80 AXgen representa uma mudança importante para a indústria de motores elétricos.
Em comparação com um equipamento tradicional de mesma potência, o novo motor possui apenas 10% do peso e ocupa 13% do volume, permitindo projetar máquinas até 80% mais compactas, com rendimento de 96,5%.
A empresa estima ainda redução de até 85% nas emissões de carbono por unidade produzida.
Considerando o volume de vendas projetado para o médio prazo, a companhia calcula que, em um ano, seria possível evitar emissões de CO₂ equivalentes ao total sequestrado por mais de 9 mil hectares de área florestada, ou 14 mil campos de futebol, no mesmo período.
O desenvolvimento exigiu avanços em engenharia eletromagnética e estrutural, com otimizações validadas por simulação computacional em protótipos virtuais, além da criação de um sistema integrado de refrigeração.
Diferentemente dos arranjos convencionais, nos quais o motor e a máquina acionada utilizam sistemas independentes, a WEG criou um conceito em que ambos são refrigerados pelo mesmo fluido.
Grillo explica que integrar essa dinâmica térmica e validar seu funcionamento por meio de simulações computacionais estiveram entre os principais desafios do projeto, mas permitiram reduzir significativamente o tamanho do conjunto instalado.
"Sabemos da importância de operar bem no presente e construir o futuro ao mesmo tempo.
Em cenários de incerteza como o que vivemos, a inovação não pode ser tratada como algo opcional, deve ser parte da estratégia e do modelo de gestão", afirma.
Em 2025, a companhia investiu R$ 1,4 bilhão em PD&I, equivalente a 3,4% de sua receita operacional líquida, com R$ 40 bilhões de Receita Operacional Líquida (ROL).
Já a Whirlpool concentrou os esforços em aumentar a eficiência industrial e aprimorar a experiência do consumidor.
Para isso, inaugurou, na unidade de Rio Claro (SP), a Fábrica do Futuro, um hub de inovação e manufatura 4.0 que recebeu investimento superior a R$ 3 milhões.
Giordan: Whirlpool planeja ampliar a autonomia tecnológica da operação brasileira
Divulgação
O espaço funciona como um ambiente de testes em escala real para a elaboração de tecnologias proprietárias, reunindo inteligência artificial, robótica, machine learning e realidade aumentada diretamente no chão de fábrica.
Segundo Jorge Giordan, vice-presidente de engenharia e marketing de produto da companhia, o objetivo é ampliar a autonomia tecnológica da operação brasileira e reduzir o tempo de resposta operacional.
Os primeiros resultados já apareceram.
A empresa registrou redução de 18% no tempo de abastecimento de materiais, eliminou pausas improdutivas, otimizou aproximadamente 50% do inventário em processo (WIP) e passou a utilizar manufatura aditiva (impressão 3D) para produzir proteções sob medida para sensores de robôs.
A implantação, no entanto, exigiu conectar robôs autônomos e sensores digitais a uma infraestrutura fabril tradicional já em funcionamento, sem interromper o ritmo diário da produção.
"Aprendemos que simular layouts, testar fluxos logísticos e capacitar os times por realidade aumentada antes de alterar o espaço físico da fábrica mitiga riscos de forma relevante", afirma Giordan.
Tendo em mente a importância de incentivar o enterramento das redes nos casos em que solução é técnica e economicamente viável e tornar mais robustas as estruturas aéreas, com cabos que suportem o contato com galhos de árvores durante as chuvas sem provocar interrupções no fornecimento de energia, a Prysmian priorizou soluções para apoiar a transição energética e ampliar a eficiência das redes de transmissão e distribuição.
A empresa também investe em produtos resistentes a cupins e agrotóxicos, especialmente para áreas extensas ocupadas por parques solares e eólicos no Brasil.
Uma das iniciativas é a tecnologia E3X, um revestimento cerâmico aplicado em cabos de linhas aéreas de transmissão que melhora a dissipação de calor e aumenta em até 25% a capacidade de transporte de corrente, sem a necessidade de construir uma nova infraestrutura.
Kleber Caliani, diretor de P&D, inovação e sustentabilidade para a América Latina da corporação, ressalta que a tecnologia trouxe um aprendizado importante.
“Após os primeiros projetos realizados no Brasil, percebemos que fabricar no exterior e importá-la limitava a competitividade da solução”, diz.
A decisão foi investir na unidade de Poços de Caldas, incorporando equipamentos modernos para produzir a E3X em escala industrial.
“Na inovação, o desafio não está apenas na tecnologia, mas em integrar diferentes áreas da empresa para que todas caminhem na mesma direção”, afirma Caliani.
A inteligência artificial passou a ocupar um papel central na concepção de sistemas internos da HT Micron Semicondutores.
Para enfrentar limitações de infraestrutura digital, a empresa criou um modelo de engenharia digital AI-Native, no qual uma equipe formada por apenas três profissionais trabalha com código gerado integralmente pela tecnologia, enquanto os colaboradores definem arquiteturas, validam as entregas e supervisionam os modelos.
O resultado foi a criação de sistemas que integram informações sobre semicondutores, commodities, estoques e planejamento de vendas em uma única plataforma, permitindo decisões baseadas em dados.
A estrutura também sustenta uma carteira de mais de sete sistemas com uma equipe reduzida e o sistema de mapeamento de equipamentos vinculado ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis) projeta R$ 1 milhão em créditos tributários em apenas uma área piloto.
Segundo Fabiano Pedroso, gerente de PMO da empresa, um dos principais desafios foi demonstrar que códigos gerados por inteligência artificial poderiam sustentar aplicações com qualidade, segurança e aderência ao contexto operacional da fábrica.
“A IA é o motor de produção, mas são as pessoas que definem o que construir, validam a qualidade das entregas e garantem a coerência com a operação”, afirma.
Mais do que lançar novos produtos, a Atlas Eletrodomésticos promoveu uma transformação organizacional.
A fabricante concluiu a modernização de parte da fábrica de Pato Branco (PR), a estruturação de uma nova operação em Escada (PE) e o desenvolvimento de mais de 170 novos produtos destinados aos mercados nacional e de exportação.
"Pela primeira vez em mais de uma década, um projeto dessa magnitude entrou em produção de forma estável, sem crises ou corridas de última hora.
Mais do que uma iniciativa de engenharia, foi uma demonstração de maturidade organizacional", afirma Márcio Veiga, CEO da companhia.
Para sustentar essa nova fase, a fabricante realizou mudanças organizacionais profundas no último ano.
Em 2025, separou as áreas de inovação e tecnologia da informação e criou uma gerência dedicada, subordinada diretamente à presidência.
"O objetivo foi deixar claro para toda a organização que inovação não é uma função de apoio, mas um eixo estratégico para o crescimento da Atlas", diz Veiga.
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