Walcyr Carrasco conta como ter precisado de cadeira de rodas inspirou nova novela das nove, que marca volta de Antonio Fagundes

 

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Walcyr Carrasco começa a entrevista dando um recado:

— Você sabe que eu sou jornalista antes de ser autor de novelas, né? Por isso acho muito chato quem é cruel com jornalistas e não dá entrevista. Eu me lembro de como era estar do outro lado, sei que às vezes é difícil arrancar uma palavra do outro. Estou à sua disposição.

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Autor de novelas inesquecíveis, da graciosa “Êta mundo bom!” à tórrida “Verdades secretas”, Walcyr trabalhou em jornais e revistas em São Paulo, escreveu para o teatro, lançou livros infantojuvenis e adaptou clássicos da literatura para o público jovem, como “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare, e “Os miseráveis”, de Victor Hugo, que é até hoje uma de suas obras de cabeceira (“grande livro”). Em quase uma hora de conversa com o GLOBO, o dramaturgo honrou sua palavra e não desviou de nenhum assunto: falou da rotina, da saúde, do envelhecimento e não se acanhou ao revelar seu talento na cozinha.

No cardápio de assuntos, o prato principal foi a novela “Quem ama cuida”, que estreia em 18 de maio no lugar de “Três graças”, na TV Globo. Com direção artística de Amora Mautner, o próximo folhetim das nove é ambientado em São Paulo e protagonizado por Adriana (Leticia Colin), fisioterapeuta que perde tudo — até o marido (Carlos, interpretado por Jesuíta Barbosa) — numa enchente. Recém-demitida da clínica onde trabalhava, Adriana é contratada por Arthur (Antonio Fagundes), um milionário com problemas de locomoção causados por um acidente.

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Para impedir que sua família de parasitas — a irmã, Pilar (Isabel Teixeira), o irmão, Ulisses (Alexandre Borges), e a cunhada, Silvana (Belize Pombal) — herdem sua fortuna, Arthur faz um acordo com Adriana e se casa com ela. O ricaço, porém, é assassinado na noite do casamento. Adriana, a principal suspeita, é condenada pelo crime, mesmo sem culpa. Seis anos depois, sai da cadeia com sede de justiça.

‘Sou um paciente bonzinho’

Em imagens da novela já divulgadas, Arthur aparece de andador ao lado da fisioterapeuta. O personagem tem um quê de Walcyr (embora o autor brinque que não se compara a Fagundes “nem beleza nem em talento”). Em 2023, quando estava no ar “Terra e paixão”, sua novela das nove anterior, o autor caiu, quebrou o fêmur, passou um tempo na cadeira de rodas e depois com um andador. Passou a conviver com fisioterapeutas, que contavam suas histórias. Ele decidiu que esse seria o ofício de sua próxima heroína.

Autor de "Quem ama cuida", Walcyr Carrasco comemora ter Antonio Fagundes e Tony Ramos na novela

Maria Isabel Oliveira

— A gente vê os enfermeiros e os fisioterapeutas paramentados no hospital e não imagina a vida humilde que eles têm. São batalhadores, passam por muitas dificuldades e não são valorizados. É uma vocação que exige sacrifício e paciência — diz Walcyr, que ainda faz fisioterapia uma ou duas vezes por semana. — Até que sou um paciente bonzinho, sabe? Mas a gente ouve histórias terríveis, de pacientes que brigam com os fisioterapeutas, que são agressivos.

Walcyr descreve “Quem ama cuida”, sua 21ª novela, como uma “história clássica de busca por justiça, como ‘O conde de Monte Cristo’ (de Alexandre Dumas e Auguste Maquet)”. É a primeira vez que ele divide a autoria de uma novela com outro profissional: Cláudia Souto, criadora de folhetins da faixa das sete como “Cara e coragem” e “Volta por cima” e colaborada de Walcyr em sucessos como “Sete pecados” e “Caras e bocas”.

— Quando sugeriram a Claudia para ser minha colaboradora, eu disse: “Não, ela é coautora”. Ela não colabora comigo, a gente cria junto — conta Walcyr. — É a primeira vez que faço isso, mas é com uma pessoa com quem já tinha uma relação de trabalho profunda. Ela respeita muito as minhas ideias.

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Claudia chama Walcyr de “mestre”:

— A gente funciona muito bem. Nos conhecemos há muito tempo, um entende como a cabeça do outro funciona. Conseguimos mergulhar um na proposta do outro.

“Quem ama cuida” conta com a colaboração de Wendell Bendelack, Martha Mendonça, Julia Laks e Bruno Segadilha. Mas Walcyr, criador de tramas rurais impagáveis em novelas como “O cravo e a rosa” e “Alma gêmea”, sabe que é o olho do dono que engorda o gado (ou a audiência, no caso).

— Não passa uma palavra que não tenha sido vista por mim — afirma o autor, cujo xodó é a vilã, Pilar, vivida por Isabel Teixeira (“atriz que admiro muito”). — É diferenciada, com um toque de humor que beira a loucura.

“Quem ama cuida” também marca o retorno às novelas de Antonio Fagundes, afastado da telinha desde 2019, quando viveu o editor Alberto Prado Monteiro em “Bom Sucesso”, folhetim das sete assinado por Rosane Svartman e Paulo Halm. O ator também teve um papel de destaque na primeira trama de Walcyr para a faixa das nove, “Amor à vida”, de 2013: ele viveu o médico César Khoury, pai do vilão cômico Félix (Mateus Solano). Walcyr conta que precisou convencer o ator a topar o trabalho com base nos méritos do personagem, porque “Fagundes não é uma pessoa que trabalha só pelo dinheiro”. O ator explicou ao GLOBO que topou o papel por ser “uma novela do Walcyr”.

— Eu também queria trabalhar de novo com a Amora Mautner e o Tony Ramos. O elenco é maravilhoso: Leticia Colin, Dan Stulbach, Guilherme Piva, Isabel Teixeira... Só o convívio com essas pessoas já fale a pena. Além de ser uma história interessante e a participação ser pequena — diz Fagundes, que fica em “Quem ama cuida” por duas semanas.

Leticia Colin e Antonio Fagundes em "Quem ama cuida", a próxima novela das nove, escrita por Walcyr Carrasco

Manoela Mello

Tony Ramos é o intérprete de Otoniel, o avô de Adriana, que no começo resiste ao acordo da neta com o patrão, e deve continuar na trama até o fim.

— É uma honra, uma glória para mim, ter Antonio Fagundes e Tony Ramos na mesma novela. Fiz questão de criar cenas entre os dois, para que o público possa ter o suco de dois grandes atores em cena — diz o dramaturgo.

Alvo de especulações

No Réveillon, todo de branco, Walcyr compartilhou nas redes sociais uma foto em que estava de bengala. “Amigos, surpresa de Ano Novo: aposentei o andador, agora eu estou de bengala. E daqui a pouco nem a bengala”, celebrou. Depois do acidente, começaram a surgir notas periódicas na imprensa especulando sobre sua saúde. Ele não liga.

— O que me incomoda é tratarem a velhice como doença. Por isso eu fiz questão de postar essa foto, de aparecer saudável. Na minha idade, você pega uma gripe e já te aconselham a comprar um caixão, acham que você está no seu limite só porque está mais lento nessa fase da vida. É esse tipo de atitude que adoece as pessoas — reclama o autor, que ainda usa bengala. — Você é tratado como alguém que precisa de ajuda para tudo. Sempre aparece alguém querendo te ajudar a levantar da cadeira. Esse tipo de ajuda é uma armadilha, porque quanto mais você aceita, mais você se limita.

Aos 74 anos, Walcyr conta que sempre levou “uma vida meio de velho”. Lê muito desde pequeno, quando se apaixonou pelos clássicos. Atualmente, ele está enfrentando as 784 páginas de “Uma vida pequena”, romance da americana Hanya Yanagihara que acompanha os dramas (e bota drama nisso) de quatro amigos homens em Nova York.

— Me falaram para não ler este livro, porque é muito triste, mas agora eu já comecei — justifica-se. — No mundo de hoje, em que a gente faz tudo com pressa, poder usufruir de uma literatura que foi pensada, trabalhada, é uma forma de recuperar o tempo.

Sushiman

Walcyr gosta de ficar em casa. Quando sai, é para aproveitar a fartura gastronômica de São Paulo. É louco por comida japonesa. Já fez até curso e é um sushiman competente.

— Tenho orgulho de dizer que fiz um jantar para o Ricardo Ohtake. Ele é de família japonesa e disse que estava muito bom, que foi um dos melhores que já comeu — gaba-se.

O presidente do conselho do Instituto Tomie Ohtake se lembra de ter experimentado os “quitutes” na “casa “dionisíaca” de Walcyr na Praia do Engenho, em São Sebastião, no litoral norte do estado de São Paulo. Primeiro, pensou que o autor tivesse encomendado o jantar num bom restaurante japonês.

— Só depois intuí que aquela travessa tinha sido preparada totalmente pelas mãos muito hábeis de Walcyr. Um prato realmente autoral e não só saboroso, mas organizado tão criativamente que parecia uma foto daqueles incríveis livros japoneses de culinária. Achei que ele iria deixar a dramaturgia para se dedicar à culinária nipônica — brinca Ricardo.

Mas Walcyr insiste no ofício que o tornou conhecido. As novelas ocupam a maior parte do seu dia. Ele acorda tarde, por volta das 11 horas (“senão eu fico meio zumbi”) e escreve à tarde. Por volta das 19 horas, faz fisioterapia ou musculação. Depois, escreve mais um pouco. Perto da meia-noite, assiste a um filme enquanto aguarda o sono. Em geral, escolhe títulos que descreve como “bagulho”, ou seja, que estão longe de ser obras-primas, mas servem para desopilar — embora na semana em que conversou com o GLOBO tenha visto “Fale com ela”, de Pedro Almodóvar. Também está assistindo à série “Bridgerton” e se pergunta se um dia as novelas vão retratar a sexualidade de forma mais explícita, como acontece no streaming.

— Acho que não. O brasileiro gosta de uma coisa mais contida, que possa ser vista em família — reflete o autor, que mesmo assim abusou do erotismo em “Gabriela” e em “Verdades secretas”, novelas que foram ao ar tarde da noite.

Esses dois folhetins, aliás, são os maiores orgulhos do dramaturgo.

— “Verdades secretas” mexeu com o país — diz ele. — Quando eu estava pesquisando para fazer “Gabriela”, descobri que no começo do século XX os homens falavam para as mulheres: “hoje eu vou lhe usar”. Coloquei isso em Gabriela (a frase era repetida pelo Coronel Justino, interpretado por José Wilker, a sua esposa, Sinhazinha, vivida por Maitê Proença). E as pessoas começaram a usar essa frase! Consegui reintroduzir no presente de um modo de falar do passado. Eu realmente me orgulho de algumas novelas que fiz, viu?

“Quem ama cuida” tem tudo para entrar nessa lista.