Votação para Lula no Nordeste pode crescer até dez pontos, avalia cientista político

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

O legado das políticas públicas, os investimentos federais e o mapeamento dos políticos locais colocam o cinturão petista como fator decisivo para uma eventual virada O Nordeste pode ser decisivo para uma eventual virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da disputa presidencial.

Com uma base eleitoral historicamente vinculada ao petista, a região é uma das apostas da campanha para ampliar a votação, recuperar eleitores e reduzir a abstenção em uma disputa nacional acirrada. Em entrevista à CartaCapital, o cientista político Cláudio André de Souza, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) na Bahia e membro do Observatório Político do Nordeste, analisa o peso dos nove estados da região na reta final da eleição e avalia as estratégias para ampliar a votação do presidente.

Para ele, o objetivo é aumentar de 5 a 10 pontos percentuais o desempenho nordestino de Lula em relação ao primeiro turno, compensando eventuais dificuldades eleitorais do petista no Sul e no Sudeste. Souza também destaca o legado das políticas públicas e dos investimentos federais no Nordeste como fatores de sustentação do lulismo, embora reconheça os desafios impostos pelo calendário curto do segundo turno e pela força de setores econômicos e políticos alinhados à oposição.

Carta Capital: O Nordeste foi decisivo para o desempenho do presidente Lula no primeiro turno, concentrando uma parcela expressiva dos votos para a reeleição do petista. Qual é o peso dos nove estados nordestinos para uma eventual virada no segundo turno?

Cláudio André de Souza: O peso estratégico do Nordeste é gigantesco, em especial porque a força do lulismo na região permite pensar no impacto das abstenções, da virada de votos, da tentativa de diminuir o número de pessoas que não foram votar no primeiro turno e de reverter votos brancos e nulos.

É importante considerar também a força dos governadores e dos prefeitos que podem, sim, fazer um trabalho de mapeamento político mais de perto, visando aumentar a votação do presidente neste segundo turno. Na Bahia, por exemplo, está em curso uma grande ação do governador Jerônimo Rodrigues e dos senadores eleitos, Jacques Wagner e Rui Costa, no diálogo com os prefeitos para conseguir mapear o máximo possível de eleitores para que eles estejam presentes nas urnas, com a oferta de transporte público funcionando bem.

Existe uma grande força-tarefa nos estados do Nordeste para que se consiga virar voto e para que a força do lulismo se dê da melhor forma possível. CC: Até que ponto o resultado nacional depende do desempenho do petista no Nordeste? A vantagem de Lula na região seria suficiente para compensar seu desempenho nas demais regiões, onde Flávio Bolsonaro demonstra força eleitoral?

CAS: Sabendo que o Nordeste é um grande cinturão lulista, acredito que a meta da coordenação nacional do PT é aumentar, pelo menos, de 5 a 10 pontos percentuais da votação que o presidente teve na região do primeiro turno. Essa votação seria, na verdade, importante para compensar um desempenho menos competitivo nas regiões Sul e Sudeste.

Portanto, existe, sim, uma expectativa de que o Nordeste consiga entregar mais votos absolutos ao presidente Lula, numa disputa acirradíssima como a que estamos assistindo, onde qualquer voto pode fazer a diferença. CC: Embora Lula tenha sido majoritariamente escolhido pelos eleitores nordestinos no primeiro turno, sua votação na região foi inferior à de 2022.

A que o senhor atribui essa queda? A mobilização intensificada nos últimos dias, tanto nas ruas quanto nas redes sociais, pode ajudar o presidente a recuperar esse eleitorado? CAS: O presidente Lula somou quase 21,5 milhões votos do Nordeste no primeiro turno e, em 2022, havia recebido 21,7.

Ou seja, é uma queda de 1,19%. Eu penso que, diante da força dos governadores, de prefeitos, de movimentos sociais, sindicatos, diante desse grande cinturão lulista no Nordeste, é possível diminuir essa diferença observada no primeiro turno.

O Nordeste tem condições de ajudar o presidente Lula, embora seja uma eleição muito difícil, considerando um segundo turno curto, de poucas semanas. Mas, de fato, as mobilizações de rua e nas redes digitais estão contribuindo para que a população nordestina se engaje mais, olhe a disputa de forma plebiscitária.

Essa diminuição pontualíssima no Nordeste eu entendo que tem uma relação intrínseca com o agronegócio. Você tem cidades na Bahia, por exemplo, como Luís Eduardo Magalhães, que é um berço do agronegócio e deu vitória a Flávio Bolsonaro já no primeiro turno.

CC: O legado dos governos Lula, os programas sociais e a percepção sobre a economia continuam sendo os principais fatores de identificação do eleitorado nordestino com o presidente? Ou a consolidação dessas políticas como direitos incorporados à vida da população diminuiu seu peso na decisão eleitoral?

CAS: A hegemonia do presidente Lula e da centro-esquerda na região Nordeste tem uma relação intrínseca com as entregas, com as políticas públicas de acesso a saneamento, energia elétrica, universidade, água, ao mesmo tempo um investimento também forte na agricultura familiar. Você tem projetos especiais, como na Bahia, que é hoje uma das principais matrizes de energia limpa do Brasil, com projetos avançados de energia solar e eólica, dentro do chamado novo ciclo de desenvolvimento social e econômico.

E isso também ocorre em outros estados do Nordeste. Então, é preciso entender que o legado do lulismo no Nordeste vai além dessa capacidade de dialogar com as populações que dependem mais das políticas sociais, que, claro, não podemos deixar de reconhecer que há um grande ganho eleitoral, que é algo praticamente estável no comportamento dos nordestinos.

CC: Considerando o resultado do primeiro turno e o cenário de disputa nacional, o que Lula precisa fazer nas horas finais da campanha para preservar e, se possível, ampliar sua votação no Nordeste? Quais segmentos do eleitorado ainda podem ser conquistados e qual é o potencial dessa mobilização para garantir uma virada no resultado nacional?

CAS: O que o presidente Lula precisa agora é deixar muito claro e passar segurança sobre o quanto o Nordeste vem sendo olhado dentro da representação política do governo federal. Lula deve acenar muito para a sua história, sua trajetória de entregas e realizações e como o seu quarto governo pode acenar com políticas públicas ainda mais estratégicas para a região.

O Ceará, por exemplo, está recebendo uma sede do ITA, o que representa levar o que há de mais avançado na formação universitária da inteligência na área aeroespacial, algo inédito desde a redemocratização. Então, nessa reta final, o presidente Lula deve assumir o compromisso de continuidade, de avanço das políticas públicas e das obras e realizações que podem levar o Nordeste a uma nova configuração socioeconômica.

Fabíola Mendonça Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

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