Miguel Vázquez, um triatleta da geração millennial que era proprietário de um dos maiores bancos do Paraguai, sonhava em criar o primeiro unicórnio de seu país e ser o primeiro a levar uma empresa paraguaia à Bolsa de Valores de Nova York. Em vez disso, Vázquez foi preso nesta semana, enquanto o Banco Central do Paraguai (BCP) determinava o fechamento da instituição financeira, o Ueno Bank, alegando problemas de liquidez.
A derrocada do Ueno já rendeu a Vázquez o apelido, no Brasil, de "Vorcaro paraguaio", em alusão a Daniel Vorcaro, dono do banco Master. A queda do Ueno não levou apenas Vázquez junto.
Na quinta-feira, o presidente paraguaio, Santiago Peña, renunciou diante da ameaça de sofrer um processo de impeachment, em razão de suas estreitas ligações com o banco em colapso — tanto na condição de investidor quanto como chefe de um governo que havia depositado mais de US$ 800 milhões na instituição, um valor recorde, antes de seu fechamento.
Agora, milhões de paraguaios, estrangeiros — incluindo brasileiros — e o próprio Estado estão sem conseguir acessar o dinheiro que mantinham depositado no Ueno, banco avaliado em quase US$ 500 milhões no início deste ano. Apenas a participação de Vázquez na instituição chegou a valer até US$ 375 milhões, o que provavelmente o tornava uma das pessoas mais ricas de um dos países mais pobres da América Latina antes do colapso do Ueno.
A prisão e o fechamento do banco representam uma reviravolta impressionante na trajetória de Vázquez, de 36 anos, que transformou uma instituição de crédito não bancária em um banco presente em praticamente todo o país, utilizado por dois terços dos paraguaios. O Ueno chegou até mesmo a patrocinar a seleção nacional de futebol, que eletrizou o país ao eliminar a Alemanha da Copa do Mundo no início deste ano, levando o governo a decretar um feriado nacional.
O Ueno tinha 2,9 milhões de clientes, o que corresponde a cerca de 40% da população do Paraguai. Filho único, Vázquez havia conseguido multiplicar a fortuna da família antes do colapso do Ueno.
Seu avô materno era proprietário da concessionária local da Mercedes-Benz, enquanto sua avó paterna vendia produtos alimentícios em uma barraca de mercado. Seu pai criou um negócio de microcrédito que funcionava naquela mesma barraca, voltado a pessoas excluídas do sistema bancário.
— O que sou, mais do que um empreendedor, é a terceira geração. Sou um herdeiro que está construindo sobre os ombros de dois gigantes — afirmou Vázquez em uma entrevista concedida em 2024.
Vázquez assumiu a pequena instituição de crédito de seu pai, conhecida como Credicentro, e a transformou no Ueno Bank em 2023. O banco húngaro OTP Bank aumentou sua participação na holding controladora do Ueno para 10% no início deste ano, atribuindo à empresa um valor de US$ 470 milhões ainda em junho.
Vázquez também é o acionista majoritário do Grupo Vázquez, uma holding que incluía o Ueno, além de ativos em diversos setores, desde a pecuária até o comércio eletrônico. Segundo seu relatório anual, o grupo empregava seis mil pessoas e registrou receitas superiores a US$ 100 milhões em 2025.
Seu portfólio de participações mais do que triplicou desde 2020, chegando a 28 empresas no final do ano passado. Victor Dante Gulino, advogado de Vázquez, não respondeu aos pedidos de comentário da Bloomberg, mas disse à imprensa local que não sabia exatamente de que Vázquez era acusado.
Segundo o veículo de comunicação local ABC, ele permanecerá em prisão preventiva, conforme noticiado na quinta-feira. A sede do Ueno em Assunção era conhecida como “The Matrix” (A Matriz) e havia sido projetada para se parecer com um escritório do Google, segundo uma pessoa que visitou o local e pediu para não ser identificada, pois as conversas realizadas ali eram privadas.
O espaço tinha paredes de vidro, madeira brilhante, plantas suspensas e obras de arte indígena. As salas de reunião contavam com tabuleiros de xadrez, enquanto chefs particulares e mordomos serviam o almoço aos executivos na ala reservada a eles no edifício.
Vázquez já declarou que participa de competições de Ironman, disputa corridas automobilísticas e gosta de comparar sua estratégia empresarial às corridas. — Adoro velocidade, adoro corridas — afirmou no site do Ueno.
Uma pessoa que o conhece disse que ele também coleciona carros esportivos de luxo. A relação de Vázquez com Peña, presidente do Paraguai desde 2023, passou a ser alvo de especial escrutínio e levou a Câmara dos Deputados a iniciar um processo de impeachment na quinta-feira.
Peña renunciou enquanto os parlamentares discutiam o que fazer, mas antes que votassem seu afastamento. Entre 2019 e 2025, Peña investiu em uma das empresas de Vázquez, mas não diretamente no Ueno Bank.
O gabinete do presidente não respondeu ao pedido de comentário. Durante seu mandato, Peña defendeu o Ueno Bank e a decisão de seu governo de depositar recursos na instituição, argumentando que ela oferecia altas taxas de juros aos poupadores.
“Estamos protegendo as economias dos depositantes”, afirmou no fim de 2024, acrescentando que as críticas sobre possíveis conflitos de interesse faziam parte de uma “campanha midiática mentirosa e mesquinha”. O Ueno obteve sua licença bancária há menos de três anos, pouco depois de Peña assumir a Presidência.
O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que autorizou a concessão da licença, havia trabalhado anteriormente para Vázquez, como diretor da instituição que posteriormente se transformou no Ueno. Carvallo também renunciou nesta semana, pouco depois de determinar o fechamento do Ueno, cujo nome é um trocadilho com a palavra espanhola bueno (bom).
Os depósitos do governo no Ueno cresceram rapidamente: passaram de menos de US$ 100 milhões em janeiro de 2024 para aproximadamente 20% de todas as reservas financeiras do Estado depositadas no sistema bancário no final de setembro. Esse montante incluía centenas de milhões de dólares provenientes do órgão de previdência social do Paraguai.
Ainda não está claro o que acontecerá com esses recursos após o fechamento do banco. O seguro de depósitos do Paraguai garante valores de até US$ 38 mil por depositante.
Vázquez começou a trabalhar muito cedo nos negócios da família, ajudando o pai a fechar contratos de empréstimo para a Credicentro quando ainda era adolescente. Ele iniciou seus estudos universitários em uma instituição privada de Assunção, mas afirmou, na entrevista de 2024, que nunca concluiu o curso e que chegou a discutir com um professor que defendia os direitos dos trabalhadores no Paraguai.
— Disse ao professor que os empregados também têm responsabilidades, não apenas o empregador, porque, caso contrário, você está simplesmente criando esquerdistas — declarou. Ele afirmou que posteriormente estudou finanças no Incae, uma escola de negócios da Costa Rica, mas também não obteve diploma.
Segundo seu perfil no LinkedIn, Vázquez assumiu a direção dos negócios da família em 2014. Nos últimos meses, utilizou a plataforma para compartilhar novamente declarações que defendiam a solidez financeira do Ueno.
O Ueno ganhou destaque na imprensa em 2025, quando patrocinou a seleção paraguaia de futebol. O banco também havia oferecido contas bancárias aos jogadores, que afirmaram nesta semana que igualmente ficaram sem acesso às suas economias, segundo uma declaração atribuída aos atletas e publicada por Gustavo Gómez, que já atuou como capitão da seleção paraguaia e atualmente também é capitão do Palmeiras, no Brasil.
“Fomos vítimas dessa situação, assim como muitas famílias paraguaias. Compartilhamos da mesma indignação”, dizia a publicação.
“Nossa prioridade absoluta deve ser a classe trabalhadora, aqueles que investiram ali as economias de toda uma vida.”
O Globo