Voo de bilhões: táxi aéreo elétrico cruza Nova York em 10 minutos e aquece disputa global por um mercado ainda incerto

 

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Uma aeronave elétrica decolou do Aeroporto Internacional John F. Kennedy e pousou em Manhattan em menos de dez minutos, um percurso que, no trânsito de Nova York, pode consumir até duas horas. O voo foi realizado pela Joby Aviation e marcou a primeira demonstração pública de um táxi aéreo elétrico (eVTOL) na história da cidade, dando início a uma campanha de testes pela rede de heliportos nova-iorquina.

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A aeronave partiu de JFK e pousou no Downtown Skyport e em dois outros heliportos no Chelsea e Midtown, como uma prévia das rotas comerciais que a empresa planeja operar assim que obtiver a certificação da Agência Federal de Aviação dos EUA (FAA). O voo integra o "Electric Skies Tour 2026", uma turnê nacional que celebra os 250 anos dos Estados Unidos e que teve sua etapa inaugural sobre a Baía de San Francisco, com um voo sobre a Ponte Golden Gate.

O voo celebra também a seleção de Nova York para o programa federal eVTOL Integration Pilot Program (eIPP), criado por ordem executiva para acelerar a implantação comercial dessa nova geração de transporte aéreo nos Estados Unidos. A Joby figura como parceira em cinco projetos do programa, que abrange 12 estados americanos. A expectativa em torno do transporte futurista fez com que as ações da empresa subissem 6% no pregão do dia do voo.

— Nova York sempre foi uma cidade que define o futuro exigindo algo melhor. Esta semana, voando entre JFK e Manhattan, mostramos o que a iniciativa eIPP apoiada pela Casa Branca torna possível e oferecemos a Nova York uma prévia do que está por vir — disse JoeBen Bevirt, fundador e CEO da Joby.

A Joby Aviation está realizando demonstrações de voo entre Manhattan e o aeroporto JFK

Divulgação/Joby Aviation

O veículo e a tecnologia

O eVTOL da Joby foi projetado para acomodar quatro passageiros e um piloto, com zero emissões e produz um ruído significativamente menor do que helicópteros convencionais. A aeronave conta com redundâncias em múltiplos sistemas para aumentar a segurança e a confiabilidade.

O GLOBO acompanhou de perto a tecnologia em fevereiro deste ano, quando a Joby e a Uber realizaram em Dubai o primeiro voo de teste público da aeronave. Na ocasião, Anthony El-Khoury, executivo da Joby Aviation nos Emirados Árabes, explicou o estágio do processo de certificação.

— Trabalhamos lado a lado com a FAA há anos para certificar a aeronave para operação comercial. A FAA segue regras extremamente rigorosas de segurança, e o processo é oneroso e longo. Enviamos muitos dados e agora estamos aguardando a devolução e revisão por parte deles. A realidade é que a maior parte dos testes já foi feita, agora é muito mais sobre validar esses resultados para garantir a segurança absoluta.

Dubai realiza com sucesso primeiro voo de táxi aéreo

A Joby está na fase final do processo de certificação da FAA. A empresa concluiu recentemente o primeiro voo de sua aeronave "conformante" para o estágio de Inspeção de Tipo de Aeronave (TIA), o que abre caminho para que pilotos da FAA realizem testes oficiais, etapa que deve definir a data de lançamento comercial, previsto para 2026. A empresa já acumula mais de 50 mil milhas voadas por toda a sua frota em testes.

Em 2025, a Joby adquiriu a Blade Air Mobility, que transportou 90 mil passageiros em Nova York no mesmo ano, incorporando sua base de infraestrutura em Manhattan e nos principais aeroportos da região. A estratégia comercial passa por parcerias com a Delta Air Lines e a Uber para criar uma experiência de mobilidade integrada: um carro busca o passageiro, leva até o vertiporto, ele voa sobre o trânsito e outro carro o aguarda no destino.

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Ao GLOBO, Sachin Kansal, chefe de produtos da Uber, revelou que o serviço será chamado de Uber Air, e que deverá ter um preço equivalente ao Uber Black, mas a tarifa final segue desconhecida. A Uber defende que o valor estará abaixo da média conhecida para voos de helicóptero, mas a dificuldade para cumprir a promessa ainda é grande, já que a operação envolve altos custos com certificação, baterias de alta densidade e infraestrutura de solo.

O mercado e a competição global

A corrida pelos táxis aéreos envolve atores globais e, no Brasil, uma concorrente com vantagem de berço. A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, acumula uma carteira de encomendas superior a 2.900 veículos e transita com familiaridade junto à Anac e ao Decea. Ainda em Dubai, El-Khoury sinalizou interesse explícito no mercado brasileiro, com foco em São Paulo, que tem a maior frota de helicópteros urbanos do mundo.

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O grande desafio do setor, no entanto, permanece o mesmo em qualquer latitude: fazer o modelo de negócio funcionar em escala. A chave, segundo afirmou Sarfraz Maredia, chefe global de mobilidade autônoma da Uber, é a utilização constante: ou seja, uma aeronave parada no solo, carregando baterias ou esperando passageiros, é um modelo de negócio que não se sustenta.

Por ora, o preço deve se aproximar ao de serviços de helicóptero executivo — o que, no curto prazo, mantém o eVTOL como uma solução para quem pode pagar para não ficar parado no trânsito. A pergunta que Nova York, Dubai e São Paulo ainda precisam responder é se, com escala e tempo, essa modalidade de transporte estará ao alcance de todos.