Voltar à Lua é só o começo: após a Artemis II, Estados Unidos e China entram em nova fase da disputa espacial
O estrondo dos motores do foguete SLS que rasgou os céus na última quarta-feira, impulsionando a missão da Nasa Artemis II rumo à Lua, ecoou muito além da costa da Flórida. Por trás do espetáculo midiático, o lançamento marca o estopim de uma reconfiguração profunda no xadrez geopolítico protagonizada por Estados Unidos e China.
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O envio da cápsula Orion tripulada à Lua quebra um hiato de mais de cinco décadas. Diferentemente da corrida espacial do século passado, o objetivo central de Washington e Pequim agora não é apenas fincar uma bandeira na superfície da Lua, como fizeram na Apollo 11. Desta vez, a meta das potências espaciais é estabelecer uma infraestrutura contínua, explorar recursos e ditar as regras do jogo na nova economia cislunar.
Projeto de base dos EUA na Lua
Nasa
Para entender o momento atual da disputa, é preciso olhar para o passado. Em 2020, os Acordos Artemis estabeleceram regras de conduta para a exploração civil do espaço, entre elas a delineação de zonas de segurança operacional ao redor de infraestruturas lunares — ao que Pequim respondeu criando um tabuleiro paralelo, ao lado da Rússia.
— O plano da Artemis até então era montar uma estação espacial em órbita da Lua junto dos parceiros internacionais. Agora, estão deixando os parceiros para trás porque querem chegar antes da China na superfície da Lua. Além da ciência, existe aí um quesito simbólico importante em montar uma base em solo — avalia Lucas Fonseca, cientista e pioneiro do empreendedorismo espacial no Brasil.
Novo planejamento do Programa Artemis
Nasa
Frente ao rápido avanço do programa espacial chinês, os Estados Unidos estabeleceram recentemente uma guinada radical na empreitada lunar. O cronograma, há muito pressionado por atrasos técnicos e orçamentários, foi virado de cabeça para baixo pela nova liderança da Nasa, sob o comando do empresário Jared Isaacman.
Veículos lançadores de EUA e China
Editoria de Arte
O sonhado primeiro pouso tripulado, antes previsto para a Artemis III em 2027, foi empurrado para a Artemis IV um ano depois. Mais drástico ainda foi o abandono do projeto da estação orbital Gateway em prol do foco imediato na construção de uma base fixa na superfície lunar.
— Transformar a Artemis III em uma missão de teste na órbita da Terra foi uma atitude responsável. Reabastecimento espacial com fluidos criogênicos representa um desafio técnico imenso e explica os atrasos do programa. Paralelamente, deixar a estação orbital em segundo plano para priorizar um habitat na superfície também reflete a necessidade de cortar despesas e readequar o programa à realidade dos Estados Unidos — detalha Luís Eduardo Loures, professor de engenharia aeroespacial do ITA.
Foguete da Nasa Space Launch System (SLS)
Nasa
Nesse cenário, o administrador da Nasa abandonou qualquer eufemismo: confirmou que o país está, sim, em uma corrida espacial contra a China e que o sucesso americano agora "se mede em meses, não em anos".
“Se a gente ficar aquém, eu vou ser demitido. Se a gente estiver em casa assistindo o nosso rival chegar à Lua antes de nós, eu vou ser demitido, enquanto outros prestam depoimento no Congresso explicando onde foram parar esses bilhões de dólares”, disse Isaacman.
A marcha silenciosa de Pequim
Do outro lado do mundo, a China avança com uma previsibilidade que contrasta frontalmente com as idas e vindas da política espacial americana. Sem o alarde típico do Ocidente, o programa espacial chinês segue um planejamento linear estruturado desde o início dos anos 1990. Foi essa visão de longo prazo que permitiu ao país desenvolver o programa Shenzhou e erguer sua própria estação orbital, a Tiangong.
Projeto da China para base na Lua em parceria com a Rússia
CNSA
A estratégia da China é lançar a nave e o módulo de pouso em foguetes separados, que se encontram na órbita da Lua antes de descer. Com o controle estatal centralizado, Pequim mantém a afirmação contundente de que colocará seus taikonautas no solo lunar até 2030, um prazo considerado altamente crível por ex-administradores da Nasa.
— A abordagem chinesa é mais simples que a americana. O problema atual deles, contudo, é terminar o lançador Long March ("Longa Marcha") 10. Desenvolver um foguete dessa magnitude não é trivial. Vale lembrar que foi exatamente por não conseguirem desenvolver seu lançador a tempo que os soviéticos perderam a corrida para os americanos no fim dos anos 60 — compara o professor do ITA.
Teste da nave chinesa que vai pousar na Lua
CCTV
O peso do setor privado
Enquanto a China conta com o peso do Estado para investir pesadamente sem escrutínio civil, o modelo norte-americano tornou-se umbilicalmente dependente do setor privado. Essa relação trouxe inovações de baixo custo e cadência ágil, mas insere a imprevisibilidade corporativa no cronograma federal.
— Diferente da corrida espacial na Guerra Fria, o que vemos agora é um cenário econômico e empresarial muito diferente. É uma época em que as empresas privadas se tornaram essenciais, exigindo a busca de um novo marco político e regulatório para coordenar a ação dessas companhias com agências governamentais como a Nasa — explica Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha.
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Apesar das analogias tentadoras, classificar a atual conjuntura como uma mera repetição da Guerra Fria parece simplificar uma realidade bastante multifacetada. Tratados internacionais, como o do Espaço Sideral da década de 1960, proíbem expressamente reivindicações de soberania sobre a Lua ou qualquer corpo celeste.
HLS da SpaceX na Lua com a Terra ao fundo (à esquerda) e um HLS Blue Moon da Blue Origin (à direita) com um astronauta trabalhando ao lado
Nasa
No entanto, o Artigo IX do mesmo tratado exige que os países evitem "interferência prejudicial" nas missões de outros Estados. Na prática, quem chegar primeiro ao polo sul lunar — rico em gelo — controlará zonas operacionais estratégicas imensas.
— O desenvolvimento crescente das capacidades que envolvem o espaço tem um impacto muito grande na geopolítica. O espaço é visto do mesmo jeito que olhamos anteriormente para pedaços de terra, para o mar ou para o ciberespaço. São locais absolutamente estratégicos, ocupados por vários países ao mesmo tempo, e fomentam a competitividade contínua — argumenta Daniel Rio Tinto, professor de relações internacionais da FGV.
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A história ensina que liderar uma corrida não se resume a cruzar a primeira linha de chegada: a União Soviética foi pioneira em feitos espaciais, mas o triunfo cultural e diplomático foi dos EUA com a Apollo 11.
O lançamento da Artemis II marca, portanto, a largada de uma maratona de resistência em que o verdadeiro teste não será apenas chegar antes da China em 2030, mas sim evitar o legado limitado do programa Apollo. O sucesso definitivo da nova corrida envolve a construção de uma base permanente e de uma economia cislunar autossustentável que abra portas para Marte e o espaço profundo.
