'Você simplesmente não consegue puxar o ar': veja o depoimento de uma pessoa infectada pelo hantavírus
Jordan Herbst tinha 14 anos quando contraiu o que pensava ser uma gripe. Após alguns dias de dores e calafrios, porém, começou a ter dificuldades para respirar. Os médicos que o atenderam inicialmente em Bishop, na Califórnia, suspeitaram de pneumonia. Mas sua respiração piorou rapidamente e seus pulmões começaram a falhar.
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'Você simplesmente não consegue puxar o ar': veja o depoimento de uma pessoa infectada pelo hantavírus
Ele foi levado às pressas de helicóptero para um hospital maior, onde foi conectado a uma máquina que assumiu as funções do seu coração e pulmões.
— Imagino que seja a sensação de se afogar. Você tenta respirar e simplesmente não consegue puxar o ar — afirma Herbst, que agora tem 26 anos.
Herbst foi diagnosticado com hantavírus, uma infecção rara que pode ser fatal. A Organização Mundial da Saúde informou no domingo que houve um caso confirmado e cinco casos suspeitos de hantavírus entre os passageiros de um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico. Três desses passageiros morreram.
Não está claro como os doentes podem ter sido infectados; as pessoas geralmente contraem o vírus pela exposição a fezes, urina ou saliva de roedores, embora uma cepa também possa se espalhar entre pessoas em contato próximo prolongado, de acordo com Gaby Frank, diretora do Centro de Patógenos Especiais Johns Hopkins em Baltimore. (A cepa de hantavírus encontrada nos Estados Unidos não se transmite de pessoa para pessoa.)
Foram documentados um total de 890 casos nos Estados Unidos desde o início da vigilância em 1993. A maioria ocorreu a oeste do rio Mississippi.
Cerca de 35% dos casos nos EUA foram fatais. Betsy Arakawa, esposa de Gene Hackman, morreu em decorrência do hantavírus no ano passado. A infecção também pode levar a complicações graves. Os sintomas podem variar dependendo da cepa do vírus que infecta a pessoa, assim como a taxa de mortalidade, afirmou Steven Bradfute, professor associado de medicina interna do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Novo México. Tanto a cepa Sin Nombre, encontrada nos Estados Unidos, quanto a cepa Andes, endêmica em partes da América do Sul, podem causar uma condição chamada síndrome pulmonar por hantavírus.
Com essas cepas, a infecção começa com sintomas semelhantes aos que Herbst experimentou: febre, calafrios, dores musculares, dores de cabeça e problemas gastrointestinais.
— Esses sintomas geralmente aparecem entre uma e seis semanas após a exposição — aponta Frank.
Nessa fase, como indica Charles Van Hook, pneumologista e médico de terapia intensiva do Hospital Longs Peak da Universidade do Colorado, é muito fácil confundir com qualquer uma das várias infecções virais.
Algumas pessoas se recuperam sozinhas. Mas, para muitos pacientes, a infecção se agrava poucos dias após o aparecimento dos sintomas. O vírus infecta os vasos sanguíneos, que, por sua vez, vazam fluido para os pulmões.
— Os pulmões se tornam essencialmente uma esponja completamente saturada — diz Martha Blum, médica infectologista do Montage Health em Monterey, Califórnia.
Os pacientes podem desenvolver aperto no peito e dificuldade para respirar. Frank também alerta que o rápido aparecimento de problemas respiratórios em um paciente saudável que pode ter viajado recentemente para uma área onde o vírus é comum ou que foi exposto a fezes de roedores pode ser um sinal revelador.
À medida que o líquido vaza dos vasos sanguíneos, a pressão arterial cai. O coração bate mais rápido para compensar, mas não consegue contrair adequadamente, como esclarece Van Hook. Pacientes que chegam a esse ponto precisam de oxigênio e podem necessitar de uma máquina coração-pulmão artificial. Outras cepas comuns na Europa e na Ásia podem causar febre hemorrágica com síndrome renal, uma doença que afeta os rins.
Não existem medicamentos específicos para o hantavírus, disse Blum, então os médicos usam medidas como oxigênio e suporte cardiopulmonar para ajudar os pacientes a "superar a fase crítica" da infecção e permitir que seus órgãos se recuperem. Sem um diagnóstico rápido e esse tipo de cuidado de suporte, um paciente que entra nessa fase grave da infecção pode morrer em 24 a 48 horas, de acordo com o Centro Nacional de Treinamento e Educação sobre Patógenos Emergentes Especiais.
Kristine Musson, uma gerente de loja de 37 anos de Pacific Grove, na Califórnia, ficou tão doente com uma infecção por hantavírus em 2023 que precisou ser colocada em suporte de vida.
— Eu só conseguia pensar no pior — relata Musson, que tinha uma filha de 5 meses em casa na época.
Um médico disse ao marido dela que, se tivessem chegado ao pronto-socorro apenas uma hora depois, ela provavelmente não teria sobrevivido. Segundo Frank, aqueles que sobreviverem podem continuar a sentir fadiga e ter dificuldades para respirar enquanto seus pulmões continuam a se recuperar.
— Às vezes, a recuperação nunca acontece completamente. As pessoas ficam tão debilitadas que não conseguem recuperar seus níveis anteriores de força ou cognição — salienta Van Hook.
Herbst passou seis dias em coma induzido para que seu corpo pudesse combater o vírus. Mesmo depois de receber alta, ele se cansava e precisava se sentar após caminhar apenas 15 metros. Herbst deveria estar começando o primeiro ano do ensino médio. Em vez disso, passou grande parte do ano e meio seguinte em casa, trabalhando para recuperar as forças e se sentir normal novamente.
