Meu nome é Edilson Takahara, tenho 49 anos e trabalho como pedreiro desde 2010. Na última quinta-feira, tive meu primeiro dia de aula em uma faculdade de Direito, em Manaus, no Amazonas, após fazer minha própria sustentação oral durante o julgamento de um processo trabalhista e ganhar uma bolsa integral para o curso. Entenda: Reserva de vagas e escolas cívico-militares dividem candidatos à Presidência na educação Veja como foi: Leonardo DiCaprio cumpre maratona ambiental no Brasil e se reúne com Raoni e Lula Nasci no norte do estado do Paraná, em uma cidadezinha chamada Uraí. Aos 5 anos me mudei com a minha família para a cidade de Bandeirantes, e foi lá que coloquei meus pés pela primeira vez em uma escola. Sempre fui um aluno dedicado. Não posso dizer que era o melhor da turma, mas sempre me esforcei para tirar boas notas. Nunca matei aula e, muitas vezes, meus colegas até brigavam para me ter nos grupos de trabalho. Edilson Takahara no primeiro dia de aula após ganhar bolsa para cursar Direito Arquivo pessoal Minha família é de agricultores e, por um período, também trabalhei na roça. Ainda na infância, em busca de melhores condições de emprego, nos mudamos para Limeira, em São Paulo, e foi lá que concluí meus estudos. Terminei o ensino médio aos 17 anos e depois fiz três cursos técnicos: um de Nutrição, um de Mestre de Obras e outro de Agropecuária. Tenho todos os certificados até hoje. Eu sempre enxerguei os estudos não apenas como uma forma de ficar rico, mas como uma maneira de adquirir conhecimento prático para o dia a dia e, principalmente, de garantir meu sustento. Não me recordo muito bem por que escolhi o curso de Nutrição, mas o de Agropecuária foi por conta do passado da minha família. Já o curso de Mestre de Obras escolhi porque, em todo lugar, se precisa de um pedreiro. Sabia que emprego não ia faltar. Eu sabia que esse conhecimento poderia me ajudar a garantir o sustento no futuro.
Mas o meu grande sonho mesmo era ser piloto de avião, cheguei a ir à Academia da Força Aérea depois de me formar no ensino médio, mas me falaram que já era tarde pra mim. Até procurei curso de piloto, mas todos eram muito caros e eu não tinha condições nenhuma na época. Acabei deixando pra lá. Ao longo da vida, eu fiz um pouco de tudo. Já fui auxiliar de escritório, trabalhei com manutenção de ar-condicionado, fui repositor de mercado, trabalhei por quatro anos nos Correios e também vendi salgados na rua durante cerca de um ano e meio. Mas foi depois que me separei da minha primeira esposa que comecei a trabalhar como auxiliar de obras. A partir daí, fui ganhando experiência, conquistando meu espaço e comecei a fazer meu nome em Limeira. Em 2022 eu conheci minha atual esposa, que é de Manaus e estava na cidade visitando a filha, e em três meses já estávamos morando juntos. Um dia cheguei em casa e vi ela chorando com saudades da família e meu coração apertou. Falei: Vamos embora. Vendi meus poucos móveis, peguei meus livros, que em maioria são manuais técnicos e autoajuda, e fui pra Manaus com ela.
No final de 2023, chegando à cidade, sem emprego e desesperado, acabei aceitando o trabalho em uma empresa de construção. Trabalhei na fachada de um prédio de 15 andares, pendurado em balancim e descendo de rapel para trocar pastilhas e revestimentos. Certo dia, fomos comunicados de que a empresa iria parar de prestar serviços para o condomínio, mas que teríamos direito à nossa rescisão. Fiquei até o último dia, ajudei a retirar os equipamentos e, pouco depois, a empresa começou a se esquivar e parou de nos responder. Tentei negociar por cerca de dois meses antes de entrar na Justiça. Foram umas quatro tentativas de acordo, e a resposta foi que a questão seria resolvida no tribunal, e toda essa história começou. De início, em 2024 contratei um advogado para ajuizar a ação, mas ele logo parou de me retornar. Depois, descobri que o processo havia sido extinto sem resolução do mérito. Como eu sabia que tinha o direito de exercer o jus postulandi, que permite à própria parte reclamar e acompanhar o processo na Justiça do Trabalho sem advogado , decidi ajuizar a ação sozinho. A partir disso, a empresa não apareceu em nenhuma audiência. Então veio uma primeira sentença, dada à revelia. Ela foi condenada a pagar todos os direitos e a reconhecer o vínculo empregatício, entre outras coisas. Quando essa primeira sentença foi publicada, a empresa apareceu, já com advogado, alegando nulidade da citação, porque ela havia sido feita por WhatsApp. Eles disseram que não conheciam nem a pessoa nem o telefone utilizado na citação. E que não reconheciam meu vínculo empregatício. Foi a partir daí que começaram as dificuldades, porque eu não sabia absolutamente nada sobre os procedimentos que são normais em um processo. Quando eles entraram com o recurso, comecei a pesquisar sobre o assunto. Usando inteligência artificial e fazendo pesquisas no Google, fui descobrindo o que eu precisava fazer. Tive muita dificuldade para entender o funcionamento de toda parte tecnologia que um processo pede, por exemplo, para emitir certificados. Também demorei para entender que, para protocolar e acompanhar o processo, eu precisava de um computador, porque não seria possível fazer tudo pelo celular. Acabei tendo que comprar um computador. Foi um aprendizado aos trancos e barrancos, e tudo em cima da hora. Não cheguei a ler a CLT toda, vi apenas os artigos que interessam para o meu caso. Fiz essas pesquisas, acho que desde o final de 2024 até março de 2025, dedicando ao todo umas cem horas de estudo no total, conciliando com os bicos de pedreiro que eu tinha. Até que, no dia 17 de agosto, fui chamado para fazer a sustentação oral no Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, sem advogado, e defendi sozinho a minha causa por cerca de dez minutos. Fui elogiado pelos magistrados, que falaram que poderia até mudar de profissão. Dez dias depois, minha esposa me mostrou meu vídeo durante a sessão em uma página local. No dia 31, meu celular “pipocou” de tanta gente querendo falar comigo.
Depois que o vídeo viralizou, fui convidado para participar de uma conversa com alunos do curso de Direito de uma universidade e, após o encontro, recebi a oferta de uma bolsa integral. Acabei de ter minha primeira aula, confesso que estava um pouco perdido porque peguei o bonde andando e não lembrava mais o que era denotação e conotação, mas vou me esforçar para conseguir retomar tudo que já foi passado e acompanhar os colegas.
Antes, não queria seguir com o curso de Direito porque não queria ser advogado, mas me falaram que existem outras opções na área e eu decidi continuar. Vou tentar conciliar com os meus bicos de pedreiro de dia e as aulas à noite. Hoje, olhando pra minha história, a maioria das pessoas diria assim: Ah, mas isso deu muito trabalho. Eu não tenho essa paciência. Mas isso prova que todo conhecimento se transforma em resultado. O aprendizado é útil o tempo todo. *Em depoimento a Lívia Mendes (estagiária sob supervisão de Luã Marinatto)
O Globo