Vivi pra contar: 'A verdade começa, enfim, a prevalecer', diz pai que luta há dez anos por justiça para aluna morta
Levei Victoria ao local da partida da excursão, onde o ônibus da Escola Waldorf Rudolf Steiner aguardava os alunos. Ela, como sempre, estava preocupada em dar o melhor de si e desempenhar um bom trabalho, para obter boas notas. Eu a tranquilizei, dizendo que ela deveria fazer o melhor possível, que a sua nota seria reflexo de quem ela era. Beijei sua testa carinhosamente na porta do ônibus, e ela subiu. Isso foi em 11 de setembro de 2015. Nunca mais vi minha filha com vida.
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A proposta da viagem escolar era passar uma semana em uma fazenda para fazer um trabalho de Matemática ligado à agrimensura. Os alunos deveriam fazer medições topográficas e, com base nisso, calcular a área da fazenda. Era uma atividade obrigatória e que valia nota, não era optativa. Victoria já frequentava a Rudolf Steiner havia dez anos. De perfil compromissado e responsável, tinha boa relação com os colegas e professores e participava de todos os trabalhos e estudos com entusiasmo.
A escola proibiu o uso de celulares e informou que tomaria as providências para dar suporte aos pais. Eles dariam informações sobre o bem-estar e o transcorrer dos trabalhos, assumindo a responsabilidade por tudo, incluindo alimentação, guarda e alojamentos.
O que a escola não divulgou era que os 34 alunos que iriam participar do trabalho não teriam nenhum responsável da escola para monitorar sua presença no campo aberto. Os grupos ficavam totalmente sem supervisão.
Viajaram apenas dois professores (que não saíram da casa da fazenda para ir ao campo em momento algum) e três topógrafos, que tinham apenas a responsabilidade de orientar sobre o uso dos equipamentos de agrimensura, mas que não acompanhavam o transcorrer das atividades continuamente.
Idas ao banheiro exigiam andar por cerca de um quilômetro até a sede da fazenda. Foi em uma ocasião dessas que minha filha desapareceu.
O desaparecimento
A escola mandava relatos de que a viagem transcorria bem, até que no dia 16 de setembro, às 20h em ponto, meu celular tocou. Era um dos gestores da escola, que me dizia que minha filha tinha desaparecido. O primeiro momento foi aterrorizante. A gente fica perdido, quer ir atrás imediatamente. Fiquei profundamente atordoado, com medo.
Quis saber mais informações, como chegar ao local, mas eles não me informaram. Simplesmente disseram que iriam disponibilizar um transporte e me fizeram esperar por mais de uma hora e meia. Chegamos à Fazenda Pereiras, em Itatiba, por volta de 23h. Naquela altura, a polícia e a Guarda Civil Metropolitana já tinham encerrado os trabalhos de busca durante a noite e não permitiam que ninguém permanecesse à procura de Victoria.
A professora responsável não sabia dar nenhuma informação. O que eu soube foi que Victoria se dirigiu à sede da fazenda para ir ao banheiro às 14h, aproximadamente, e os professores só se deram conta do seu desaparecimento às 16h30, quando os colegas encerraram os trabalhos daquele dia, chegaram à sede e perguntaram por ela.
Procuraram nos alojamentos e não a encontraram. A professora orientou os alunos a procurar nas matas ao redor da sede. Um absurdo. Depois de uma hora, um dos topógrafos encontrou o boné dela, que tinha valor sentimental e nunca seria abandonado. Era de se esperar que, em face de tudo isso, e da falta de um plano de contingência para emergências dessa natureza, os professores e proprietários da fazenda entrassem em contato com as autoridades, já tardiamente. Porém, isso não foi feito.
Quem tomou a iniciativa de fazer contato com os bombeiros foi a cozinheira da fazenda, que percebeu que estava anoitecendo e ficou desesperada com a inércia.
Pelo que consta no inquérito, depois disso, os professores fizeram o boletim de ocorrência às 19h15 e me informaram apenas às 20h. As autoridades disseram na época que, se o desaparecimento tivesse sido relatado de imediato, as buscas teriam chance muito maior de sucesso.
Ao chegar à fazenda, por volta das 23h, fui impedido pelas autoridades de procurar minha filha. Não havia margem para nenhuma providência. A noite foi de terror extremo, imaginando o pior, sem a certeza de que o pior estava por vir.
No dia seguinte, começamos a procurar nas matas até que o helicóptero Águia, da Polícia Militar, chegou à fazenda a pedido de amigos que nós acionamos implorando por ajuda. No primeiro sobrevoo, a equipe encontrou o corpo da minha filha. O comandante da polícia não escolheu palavras quando informou que tinham encontrado minha filha já sem vida.
Um frio na boca do estômago surgiu e tomou todo o meu corpo. Precisei me equilibrar para não cair. Fui à sede na viatura do comandante informar a família. Fugindo do ambiente de choro e gritos de desespero, me levaram ao local para reconhecer o corpo. Voltamos por uma estrada de terra, entramos por uma abertura na cerca de arame farpado. A certa altura, me lembro de descermos um barranco, atravessarmos um riacho, subirmos um morro e chegarmos a uma clareira, já reservada pela polícia. O corpo dela estava lá, de bruços, com a cabeça sobre os braços, como se estivesse dormindo. Fiz a aproximação meio que tropeçando. Quando cheguei perto, vi que ela estava sem cor e não tive coragem de tocar minha filha e sentir seu corpo frio. Entrei em desespero, me desequilibrei e chorei por horas seguidas, tentando entender como minha filha tinha sido tirada da minha vida.
A investigação
Não houve condução das investigações. Fui abatido por grande depressão e mesmo assim passei a fazer diariamente viagens a Itatiba, à delegacia, mas o delegado responsável se recusou a investigar. Argumentava, misteriosamente, que a minha filha tinha falecido de causas naturais. Depois saiu um laudo descabido de “morte indeterminada, sugestivo de causas naturais”, mesmo com a nossa insistência de que isso era fantasioso e contrastante com a jovem saudável que era Victoria. Como não tivemos a atenção das autoridades policiais de lá, tivemos que contratar peritos de renome para analisar tudo o que conseguimos levantar, incluindo documentos e fotos da necropsia, que tivemos de conseguir por ordem judicial.
Conseguimos trazer o inquérito para o Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP-SP) por ordem do governador, após apresentarmos os resultados da nossa investigação.
Fomos nós que municiamos a polícia dos fatos apurados pela nossa investigação. Do dia 1º de março de 2016 em diante, acompanhamos de perto solicitando providências, diligências. Quando há troca de governo, há a “dança das cadeiras” nos cargos da polícia. Tínhamos que recomeçar tudo de novo quando nova equipe assumia a investigação. Estamos falando com a sexta equipe até o presente momento, em um inquérito com cerca de 2.500 páginas. Sabemos mais do conteúdo desses volumes do que todas as equipes.
Após apresentarmos nossas provas, levantamentos e tudo mais, questionamos fortemente o primeiro laudo emitido pelo Instituto Médico-Legal de Campinas. Diante disso, uma junta de médicos do IML de São Paulo foi convocada e de forma unânime corroborou o laudo do nosso legista, Badan Palhares, confirmando que a causa mortis foi “asfixia mecânica por sufocação direta”. Isso significa que um terceiro tapa a boca e o nariz da vítima ou lhe dá um "mata-leão", por exemplo. Ou seja, foi homicídio.
Posteriormente, o próprio IML em laudo complementar concluiu, também, que o corpo da minha filha foi transportado do local em que ela foi morta ao local onde foi encontrada, através de evidências de medicina legal.
A investigação inicial foi com o perito criminal Oswaldo Negrini e o Badan Palhares. Depois disso, assumimos o papel do Estado por mais diversas vezes. Coletamos informações com as equipes de buscas, realizamos testes laboratoriais procurando evidências, tivemos ajuda de investigador internacional e da criminóloga de renome Ilana Casoy. Investimos em diversas outras providências, muitas com custos e nem sempre bem sucedidas em razão da inércia investigativa.
A indenização
O Superior Tribunal de Justiça reconheceu, com fundamentos técnicos sólidos e elementos fáticos comprovados, as falhas graves e a indesculpável omissão dos deveres da escola. O STJ confirmou o que sustento há mais de dez anos.
A decisão do STJ representa um marco jurídico de altíssima relevância pois, embora nenhum valor pague a vida de minha filha, essa vitória suplanta o aspecto financeiro.
A coerência do sistema de Justiça exige que essa fundamentação seja considerada na revisão da sentença criminal. Confiamos que o Tribunal de Justiça reverterá a posição insustentável da primeira instância quanto à condenação dos professores e gestores.
Como pai, recebo essa decisão com a convicção de que a verdade começa, enfim, a prevalecer. É importante dizer que, apesar de tudo o que vivi lutando por justiça para minha filha, em nenhum momento deixei de acreditar que ela seria feita. Espero a responsabilização de quem falhou, na esfera criminal, e confio que o DHPP conduza o caso até sua completa elucidação, com a responsabilização de quem a matou.
Espero que todas as instâncias tenham a mesma coerência, para que a Justiça se complete e eu possa, enfim, honrar a memória da minha filha.
Victoria era assídua, muito organizada e interessada na escola. Sempre me pedia para estudar com ela, o que me traz saudade imensa. Éramos muito unidos, e tínhamos os mesmos gostos, desde bem pequena. Quando bebê, eu colocava músicas clássicas na hora de dormir e dançava com ela no colo, ao ritmo de Mozart, até que ela dormisse. Esse momento evoluiu para uma conversa diária, que antecedia a oração, em que trocávamos ideias sobre tudo o que ela vivia durante o dia.
Victória sempre foi uma menina amorosa, tímida, muito ligada à família, inocente e reservada, amante das artes, principalmente música e cinema, o que partilhávamos com muita satisfação. Uma mocinha comportada e responsável. Tinha o sonho de se tornar uma chef de cozinha, que já deveria estar realizado hoje em dia. Era uma mocinha feliz!
Seu gosto musical iniciou com música clássica e depois ela descobriu o rock. Sua banda favorita era o Queen. Eles vinham ao Brasil para uma série de shows exatamente durante a semana do trabalho de campo do qual ela não voltou. Como surpresa, eu e minha [hoje] esposa, de quem ela gostava muito, preparamos uma surpresa: compramos ingressos para o show em Porto Alegre e reservamos um hotel. A ideia era ficarmos noivos durante o show. Era para ter sido uma ocasião muito feliz. Nunca tivemos oportunidade de viver aquele momento com ela.
*Em depoimento a Rafaela Gama
