Vivi para contar: ‘Você ensina, alimenta e depois vê seu filho fuzilado’, diz mãe de jovem morto pela polícia em 2006

 

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A cabeleireira Maria Sônia Lins já sabia do toque de recolher que corria pela cidade de São Vicente, na Baixada Santista, no dia 15 de maio de 2006. Pediu para o filho caçula, Wagner Lins dos Santos, de 22 anos, não sair de casa. Mas na noite daquela segunda-feira, pouco antes de dormir, Sônia recebeu a notícia que a persegue até hoje, aos 67 anos: o filho havia sido assassinado com tiros de fuzil. Ele foi um dos 505 civis mortos por armas de fogo, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, durante o revide policial aos atentados do PCC de maio de 2006 em São Paulo. Segue o relato de Maria Sônia:

"Tenho quatro filhos, o Wagner era o caçula. Depois de terminar o ensino médio, ele conseguiu um emprego em uma pizzaria. Primeiro, como assistente na cozinha, mas logo depois virou pizzaiolo. Ele estava com 20 anos.

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Antes de falecer, o Wagner ia começar a fazer um curso de confeitaria. Até hoje fico me perguntando por que não comprei o material para ele fazer uma torta holandesa para mim. Mas acabou não dando tempo.

No Dia das Mães de 2006, um dia antes de morrer, Wagner passou o domingo todo trabalhando. A pizzaria estava cheia. Ele não conseguiu almoçar comigo para comemorar. Só na segunda-feira, que ele estava de folga.

Almoçamos, ficamos conversando por muito tempo. Depois, fiz as unhas dele, que ele sempre me pedia, para não ter problema na hora de sovar a massa das pizzas. A televisão estava ligada e começamos a ouvir sobre um toque de recolher. Eu achei estranho. ‘Toque de recolher na Baixada? Isso é coisa do Rio de Janeiro, de São Paulo, não aqui’, comentei com o Wagner. Mas, mesmo assim, insisti para ele ir para casa e não sair mais.

Meu filho saiu daqui de bicicleta e fiquei olhando ele ir embora. Eu vejo a imagem do Wagner até hoje. Ele na bicicleta, indo embora pela rua.

Depois de um tempo, era por volta de 15h, ele já tinha chegado e me ligou. Parecia meio assustado. Contou que estava tudo fechado na rua e garantiu que não ia mais sair de casa também.

Mas à noite, ele acabou saindo. Saiu com o primo, Diego, porque queriam jogar videogame, e só tinha na casa do primo. Passaram antes na minha filha, a irmã do Wagner, para jantar. Ela me contou que pediu muito pra eles não irem até lá, mas os dois foram mesmo assim. Minha filha contou que eles saíram depois do Jornal Nacional. Eram umas 21h30.

Mais ou menos às 22h, comecei a ter uma sensação estranha. Estava deitada, começou a me dar um negócio, parecia uma força me puxando, uma força que saía de mim. Achei que estava morrendo até. De repente, o telefone tocou, era a minha cunhada, mãe do Diego, e ela me contou: ‘Sônia, os meninos levaram um tiro. O Diego tomou um na perna, mas o Wagner levou um tiro no abdômen’. Os dois estavam no hospital.

Eu ainda tinha aquele risquinho de esperança, mas o coração de mãe sabe. Tinha certeza que tinha acontecido alguma coisa a mais. Cheguei correndo no hospital, fiquei perguntando pelo Wagner, mas a médica não me atendia. Aí minha barriga ficou estranha. E a médica me chamou: ‘Olha, a gente fez tudo que podia, mas não teve jeito’. Ela ficou suavizando, mas eu já entendi o que tinha acontecido. Foi a hora mais difícil da minha vida. Dei um grito que eu acho que nunca mais vou dar igual.

Só fui descobrir o que aconteceu quando falei com o Diego. Naquela noite, os dois estavam de bicicleta, indo pra casa dele. No caminho, tinha uma ponte que precisavam atravessar. Do outro lado, o Diego e o Wagner ouviram uns tiros. Eles começaram então a acelerar, mas quando chegaram na metade da ponte uma moto fechou o caminho. Eram dois homens encapuzados e com roupas pretas. O da garupa estava com um fuzil e disparou nos dois bem de perto.

O Diego só tomou um tiro na perna, mas caiu e se fingiu de morto. Só que o Wagner tomou dois no coração. E as últimas palavras dele foram para o primo: ‘Está muito frio’. Ele já estava com hemorragia, e morreu quando foi levado pro hospital.

Faz 20 anos, mas você nunca esquece, detalhe por detalhe. Tentei ver o Wagner na emergência, mas não deixavam. Só fui ver meu filho no velório. É uma coisa terrível, ver o caixão do seu filho vindo na sua direção. Aí você vê ele lá, inerte. Arrebenta seu coração, sua vida, sua alma. Você põe o filho na escola, ensina, alimenta, faz festinha de aniversário e depois vê que ele foi fuzilado. Naquela hora, eu estava totalmente destruída. Porque depois que a gente perde o filho, perde tudo. Perde a saúde, perde o chão, perde tudo.

Nem sei dizer se teve investigação. Teve um processo, mas não deu em nada. Advogada particular também não deu nada. Até hoje eu não recebi nenhum tostão do Estado, nem do trabalho dele na pizzaria. Nada. E até hoje eu não sei nada sobre quem matou meu filho. Nunca fiquei sabendo de nada.

(*Em depoimento a Aline Ribeiro e Helen Menezes, da CBN)