Eu provavelmente era mais feliz antes do 11 de Setembro. Perdi uma parte de mim quando aquele prédio desabou. Fiquei mais séria e mais medrosa. Mas também fiquei mais forte. Preciso ser forte por mim e pela minha família. Sabe o ditado "O que não te mata, te deixa mais forte"? Não mataram meu espírito nem colocaram ódio no meu coração.
Consequência do terror: Ataques do 11 de Setembro agilizaram mudança cultural ao expor risco de uso de saltos à segurança das mulheres 25 anos depois: Resposta dos EUA aos ataques de 11 de Setembro acelerou erosão da hegemonia americana Eu trabalhava na Torre Sul, no 97º andar, a segunda que foi atingida. Tinha chegado cedo naquele dia, que estava lindo, o que chamamos em Nova York de "céu de setembro": tudo limpo, sem uma nuvem. Conversei com alguns colegas e me sentei para trabalhar. Ouvimos um estrondo, e eu olhei para as janelas. Estávamos de frente para a Torre Norte. Havia chamas, fumaça e jornais voando. E houve uma onda de calor forte. Sabe quando você abre a porta do forno? Não hesitei. Peguei minha bolsa e me preparei para sair. Falei com colegas, e fui até um amigo cuja esposa estava grávida. Queria garantir que ele saísse.
Nas escadas, estava quente e havia fumaça. Eu lembro de levantar a minha saia para as minhas pernas se moverem mais rápido e para aliviar o calor. Acho que desci um lance de escada e pensei que eu não conseguiria sair a tempo se descesse com aqueles saltos. Então tirei os sapatos, os coloquei na bolsa e desci descalça. Havia muita adrenalina pela necessidade de ser rápida. Naquela hora, eu acho que nem notaria se estivesse correndo sobre vidro.
Durante a descida, houve uma explosão e o prédio começou a balançar para frente e para trás. Balançou tantas vezes que achei que ia cair. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas o outro avião havia atingido o nosso prédio. Cimento caía sobre nós, e eu lembro de fechar os olhos e gritar como nunca tinha gritado na vida. Um dos meus colegas colocou o braço em volta de mim. Então eu abri os olhos, e ele me acalmou. Continuamos nossa descida para fora do prédio. Não era mais uma evacuação lenta. Nós estávamos correndo, tentando sair o mais rápido possível. O GLOBO no Mundo: receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países Nas escadas, todos se ajudavam. Sabe quando as pessoas se juntam em grande tragédias? Todos gritando palavras de incentivo para manter vivo o impulso de sair do prédio. Lembro de uma mulher com dificuldade para descer as escadas, e pessoas ajudando-a.
Quando saímos da escada, eu olhei para cima e ao redor e, não consigo descrever, mas havia detritos por toda parte. Havia incêndios nas duas torres. Até a luz solar, depois que saímos do escuro, foi um choque. Uma colega chamou o meu nome e fomos andando para longe do prédio. A essa altura já tínhamos ouvido que metrôs e trens não estavam funcionando. A única forma de se locomover era andando. Decidimos que caminharíamos até o serviço de barca que atravessa o rio Hudson, que ficava a alguns quilômetros do World Trade Center.
Após caminhar descalça por alguns quarteirões, calcei de volta os sapatos. Caminhei com aqueles saltos, e lembro de querer parar para comprar um tênis porque meus pés estavam cortados. Mas minha prioridade era voltar para casa. Meu filho e minha filha tinham 9 e 6 anos na época, e eles foram o meu pensamento o tempo todo. Quando estávamos no caminho, as pessoas começaram a gritar e nos viramos para ver o que estava acontecendo. Foi aí que vimos um prédio desabando. Quando a fumaça se dissipou, vi que era a torre onde eu trabalhava. Minha colega e eu não dissemos mais nada. Sapatos de Linda Lopez, manchados de sangue. Ela estava trabalhando no 97º andar da torre sul quando o primeiro avião colidiu com o WTC em 11 de Setembro de 2001 Divulgação/Memorial e Museu do 11 de Setembro Antes de chegarmos a Canal Street, paramos numa loja para ligar para as nossas famílias. Os celulares não funcionavam. Consegui falar com o escritório do meu marido, mas ele já tinha saído. Na loja, descobrimos que o Pentágono também tinha sido atacado.
Já na estação das barcas, a fila era muito longa porque não havia outra maneira de voltar para Nova Jersey. As pessoas me olhavam na fila e gritavam: “Os seus pés!”, “Os seus pés!”. Olhei e vi meus pés ensanguentados. Houve quem me oferecesse garrafas d'água para limpar meus ferimentos. Consegui falar com meus pais no telefone, e pedi para irem me buscar do outro lado do rio. Foi como se eles estivessem ouvindo um fantasma. Quando viram na TV que as torres tinham desmoronado, pensaram que eu estava morta. Até o dia da morte dos meus pais, eu pedi desculpas por eles terem passado por isso. Meu marido também achou que eu tinha morrido. Só descobriu que eu estava viva quando chegou em Nova Jersey, foi buscar nossos filhos com a minha cunhada, e ela disse que meus pais tinham saído para me buscar.
Meus pais me levaram para casa e, quando chegamos, toda a minha família estava lá. Naquela noite, meus filhos dormiram ao meu lado. Eles tinham medo de que os terroristas viessem até a nossa casa. Como a empresa sabia que eu tinha saído, dava meu celular para os familiares que estavam tentando localizar seus entes queridos desaparecidos. Eles queriam saber se eu tinha visto seu pai, seu filho... Mas eu não tinha essas informações. Foi triste. Me sinto um pouco culpada por ter sobrevivido. No fundo, sei que não tenho culpa, mas não posso evitar esse sentimento.
25 anos: os atentados de 11 de setembro Os dias seguintes também foram difíceis. Eu caía no chão se ouvisse barulhos altos. Mais tarde, os nossos escritórios foram transferidos para Midtown, justamente em um dos prédios onde aconteceram os ataques com antraz. Foi um trauma atrás do outro. Eu joguei no lixo a roupa que usei naquele dia. Era muito bonita, mas não quis usar de novo. Mantive os sapatos em uma caixa, nunca os limpei. Quando soube que queriam itens para o museu, pensei em doar os sapatos. Achei que seriam colocados em uma prateleira, mas fiquei surpresa quando foram colocados em exposição. Eu tinha muitos sapatos. Moro em Nova Jersey, onde havia muitos outlets, que hoje foram substituídos por data centers.
Eu trabalho de casa três dias na semana. Nos outros, vou a Nova York. Já fui ao local dos atentados. No início, era um lugar silencioso. Agora, é quase como uma atração turística. Tem muita gente indo para conhecer a piscina refletora e o museu. Mas, para mim, vai ser sempre um lugar meio sagrado, onde perdemos tantas vidas.
Ainda hoje, a ansiedade aparece. Sei que não acontece só comigo porque foi um episódio traumático mesmo para quem viu tudo pela TV. Fiz terapia, o que ajuda, e conversas também são boas. Eu foco em trabalhar para não precisar pensar nas coisas. Minha família diz que eu deveria me exercitar mais, comer melhor. Tenho um pouco dessa autonegligência.
Temperatura de 982°C e toneladas de escombros: 25 anos após 11 de Setembro, 40% das vítimas não foram identificadas Depois do Onze de Setembro, minha família e eu queríamos retribuir porque eu sobrevivi. Entramos para uma organização chamada People to People, fundada pelo presidente Eisenhower nos anos 1950. O lema é a paz através da compreensão. Nós ajudamos pessoas e aprendemos sobre outras culturas. E, quando você aprende sobre o outro, não sente medo. Precisamos disso agora nos Estados Unidos: entender que podemos pensar diferente, mas ainda assim nos dar bem. Tem gente ruim por toda parte, mas tem muita gente boa também. É nisso que eu foco.
Levei dez anos para pesquisar por que alguém faria aquilo. Sei que eram muçulmanos, mas existem fundamentalistas em provavelmente toda organização, gente que leva as coisas ao extremo e não representa a população a que pertence. Sei da interferência dos Estados Unidos e de outros países que remete à Primeira Guerra e até mesmo ao colonialismo.
Não sou defensora de guerras. Será que eles realmente sabiam quem estavam mirando? Não queria que soldados fossem para o exterior e perdessem a vida, lutando por não sei bem o quê. Me sinto mal que as pessoas tenham perdido suas vidas nesses lugares, que tenha demorado tanto para sairmos do Afeganistão.
Ataques do 11 de Setembro agilizaram mudança cultural ao expor risco de uso de saltos à segurança das mulheres ALEXANDRE FUCHS / AFP Eu continuo falando do 11 de Setembro, mesmo 25 anos depois, porque acho importante não esquecermos dos socorristas que correram para dentro dos prédios enquanto todos estavam saindo nem de todas as pessoas que morreram desde então em consequência de doenças ligadas aos ataques. Se não estou enganada, já morreram mais pessoas pelas doenças do que no dia dos ataques. Também acho importante lembrar que estávamos apenas indo trabalhar como todo mundo. Só que alguns de nós voltamos para casa. Outros nunca chegaram. Eu perdi muitos colegas naquele dia. Cerca de um quarto da empresa em que eu trabalhava, mais ou menos 90 pessoas.
Tenho sobrinhas e sobrinhos com quem converso sobre o 11 de Setembro, e quero que eles aprendam a amar seu próximo e a outras culturas, que aceitem as pessoas como elas são. Espero também que as mulheres sejam fortes para serem quem são. Quero que as coisas avancem para as mulheres, que elas saibam que não é para ter um homem mandando nelas.
O Globo