Vivi para contar: ‘Me mandaram ir embora sem olhar pra trás’, conta estudante que teve celular roubado em Perdizes
Luis Henrique Oliveira, estudante universitário de 21 anos, é uma das vítimas da onda de roubos de celulares em São Paulo mapeada pelo GLOBO no Mapa do Crime. Abordado ao lado da faculdade que estuda, em Perdizes, o jovem teve o aparelho levado por criminosos em uma ação rápida. O bairro de Perdizes ocupa o 6º lugar entre as regiões com maior número de ocorrências dessa classificação na capital paulista.
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“Eu moro fora de São Paulo, em Itapevi, e pego a linha 8 Diamante para ir da minha casa até a faculdade todos os dias. Levo em média uma hora nesse trajeto. Quando chego na Barra funda, que é a estação mas próxima da faculdade, eu sempre ia a pé pra PUC-SP, porque são 15 minutos cronometrados, e consigo chegar no horário certo da aula. Muito mais prático do que pegar ônibus e correr o risco de chegar atrasado. O caminho era sempre pela rua de baixo da PUC, a Ministro de Godói, e, naquele dia, 10 de março, eu precisava ir para a rua de cima para o laboratório de rádio e o caminho era pela rua João Ramalho.
Eu estava subindo rápido, eram 7h30 e eu estava meio atrasado,.Logo vi três meninos de mochila, mas como tem escolas e a própria faculdade lá perto, nem desconfiei. Achei que eram estudantes. Esses três meninos me abordaram e me empurraram falando que ou eu passava o celular em silêncio ou eles me matavam ali mesmo. Não cheguei a ver se eles estavam realmente armados, mas o medo foi tanto que eu não reagi e fiquei em choque, porque era a primeira vez que eu era assaltado.
Lembro mais ou menos dos três, eles tinham 1,60m de altura, mais ou menos, e eram adolescentes, 16 anos no máximo. Aquele que realmente me ameaçou estava de casaco e estava com a mão no bolso, não sei se simulando uma arma ou se tinha alguma coisa lá mesmo.
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Minha única reação foi realmente dar o celular e a senha, que eu acabei errando de primeira, e eles ficaram bem nervosos. E eu morro de medo de reagir em assalto e acontecer alguma coisa comigo, porque a gente vive vendo histórias em noticiários de pessoas que reagiram a assalto e aconteceu algo pior. Depois de passar o celular desbloqueado, um iphone 11 que eu tinha comprado recentemente, eles me mandaram ir embora sem olhar pra trás, ameaçando me matar caso eu olhasse.
Os funcionários das bancas de jornal ao redor da faculdade já haviam falado de casos de alunos sendo assaltados nos pontos de ônibus que tem lá perto. No dia que fui assaltado, a enfermeira da PUC me disse que não havia sido a primeira vez que esses meninos rondavam a faculdade. Eles andam em bando e sempre roubam os alunos dos arredores de Perdizes. Ela me contou que, não muito tempo atrás, o mesmo trio havia roubado celular, blusa de frio e tênis de dois meninos da noite.
Depois de tudo isso, parei de fazer esse caminho e comecei a pegar um ônibus da Barra Funda até a faculdade. Tenho que admitir que fiquei com um certo trauma e comecei a pensar “Ok, talvez seja melhor me atrasar para a aula do que perder mais um celular”.
Depois do assalto, fui correndo para a faculdade e encontrei uma colega, que me ajudou a bloquear meu telefone pelo celular seguro do governo e, por ser um iPhone, também tive que entrar no iCloud para bloquear os acessos. Mas, como estava muito nervoso, não consegui fazer na hora. Também tentamos fazer um boletim de ocorrência, mas não conseguimos, porque eu não tinha o EMEI (número de registro do aparelho) do celular roubado e acabou ficando por isso. O que dá um sentimento ruim, mas tudo bem, tenho que seguir em frente.
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Isso aconteceu às 7h30 e eu fui conseguir chegar na minha casa às 11h, porque nesse meio tempo fiquei me acalmando na faculdade e tentando fazer os bloqueios. Só consegui entrar na minha conta do iCloud quando cheguei em casa e reconectei no meu celular antigo, que era um iPhone 8 plus. A minha sorte foi que eu tinha esse celular antigo em casa pra usar e comprei um chip novo com o mesmo número. A partir do momento que eu ativei o Iphone 8 plus, o celular roubado desconectou do iCloud, então não dava mais para acessar e nem para ativar o rastreamento pelo app do “buscar”.
Fui ver se tinham mexido em alguma coisa pelas minhas contas e realmente tinham mexido. Eles mandaram mensagem no grupo da minha sala da faculdade, escutaram música no meu Spotify e pesquisaram no YouTube como que apagava todas as fotos do iPhone, mas não apagaram o histórico. Então, acho que não foi um roubo para revender o celular ou as peças, como vejo pessoas falando. Foi um roubo para uso próprio, sabe?
Depois disso, fisicamente eu estava bem, porque não fizeram nada comigo, mas mentalmente foi bem cansativo. Fiquei nervoso, mas saber que eu tinha um celular antigo em casa me deixou um pouco menos receoso na hora. O que me deixou bem pra baixo foi saber que perdi alguns trabalhos da faculdade e fotos que eram da minha família, porque eles não resetaram o celular. Simplesmente só apagaram todas as fotos.
O que mudou na minha rotina depois disso foi que comecei a ficar um pouco mais esperto na rua, desconfiando bastante das pessoas e se, por um acaso, tô com o celular na mão, escondo rapidinho na bolsa. No geral, eu tentava não pegar muito o celular em público, mas agora piorou. Não pego pra nada mesmo.”
Em entrevista à repórter Beatriz Paulino*
O que é o Mapa do Crime de São Paulo?
O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.
Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.
Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.
