Vivi para contar: ‘Me atraso mas não passo mais por aquela rua’, conta o professor vítima de assalto ‘quebra-vidro’ em São Paulo

 

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Clodoaldo Oliveira, professor de educação física de 45 anos, teve o celular roubado durante um assalto do tipo “quebra-vidro” enquanto trafegava pela Avenida do Estado, uma das vias mais movimentadas da cidade.

A atuação das chamadas gangues “quebra-vidros” — temida por diversos paulistanos — mudou a dinâmica de roubos de celular pela cidade de São Paulo em 2025. Locais como a Avenida Paulista, antiga conhecida dos paulistanos como epicentros desse tipo de crime, deram espaço para vias como a Avenida do Estado — com poucos pedestres e congestionamentos quilométricos — que chegou ao pódio dos roubos pela primeira vez no ano passado, com 279 ocorrências reportadas.

Os dados são da ferramenta interativa Mapa do Crime, exclusiva do GLOBO, que mostra as marcas dos celulares, carros, motos e demais objetos levados pelos criminosos nos roubos da capital paulista. Uma investigação realizada pela polícia paulista revelou que quadrilhas especializadas em fraudes bancárias fomentam a expansão da chamada gangue do “quebra-vidros”.

CLIQUE AQUI E VEJA NO MAPA DO CRIME A SITUAÇÃO DOS ROUBOS NA SUA RUA

Leia a seguir o relato de Clodoaldo:

“Eu estava voltando de um jantar em Pirituba, por volta da 1h30 da manhã, na Avenida do Estado, sentido Largo do Cambuci e, em algum momento, eu errei a entrada e tive que fazer um retorno. Nisso, estacionei no mesmo lugar que eu estava antes, no mesmo farol. Quando parei no sinal fechado, só escutei o barulho do vidro quebrando e vi um monte de estilhaços cobrindo minha namorada e cortando o braço dela. Daí o cara entrou dentro do carro, enfiou a mão, pegou o celular e saiu correndo.

A minha reação imediata foi sair do carro e ir correndo atrás dele. Corri uns 150 metros atrás dele até ele entrar em um beco, mas aí pensei assim: ‘melhor não, deixa quieto’. Nisso, lembrei que a minha namorada tava lá no carro sozinha... Voltei correndo e chamei a polícia. O cara usou uma barra de ferro para quebrar o vidro e só depois eu vi que amassou a porta do carro também.

Não cheguei a fazer um Boletim de Ocorrência. Só expliquei ali na hora para a policia que tinha sido roubado e como aconteceu. Fui aconselhado pela própria polícia que fazer o B.O não ia resolver nada, ia dar só mais trabalho pra eles. Assim, notei que a polícia só veio pra dizer que veio, mas eles sabem quem são e para onde os caras vão com o celular... Eles só não têm interesse de ir atrás.

Lembrando hoje, eu estava cansado e errei a entrada sem dar muita atenção. O cara deve ter pensado que eu não era da região, mas eu costumava passar sempre por ali e me surpreendeu ter acontecido, pois moro em São Paulo há 16 anos e isso nunca tinha acontecido. Eu presumo que ele só foi pra cima porque eu errei o caminho.

Depois disso, passei a evitar ao máximo passar por essa região. Até cheguei a aumentar o meu trajeto em um quilômetro e meio, dois quilômetros, pra não passar mais por lá. E isso em qualquer horário a partir das 19h, porque o roubo ali é igual feijão com arroz, acontece toda hora.

Fiquei uns cinco meses muito atento a tudo que tava acontecendo ao meu redor no trânsito, principalmente quando parava no farol. Foram meses com paranoia. Qualquer um que vinha pro lado do carro, eu já colocava a mão pra destravar o cinto, abrir a porta e, sei lá, fazer alguma coisa. Durante meses não consegui ter paz e confiança enquanto dirigia.”

Em entrevista à repórter Beatriz Paulino*

O que é o Mapa do Crime de São Paulo?

O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.

Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.

Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.