Vivi para contar: 'Coletamos material na rua para estudar robótica', diz professora eleita a mais influente do mundo
Todo ano a Varkey Foundation reúne embaixadores com a premiação Global Teacher Prize, que aponta os melhores professores do mundo. Fui até lá no ano passado e, agora, estava muito triste porque não iria. Mas recebi uma ligação às 2h da manhã do sábado dos organizadores falando que eu precisava estar lá. Fiquei em choque. “Como assim?". E eles falaram: “Olha, professora, a gente precisa muito que você venha. Já providenciamos a sua passagem, você embarca à meia-noite de sábado. Você vai ser reconhecida!”. E aí eu imaginei: “Reconhecida? Vai ver que eles vão conversar comigo, vão fazer um vídeo”. Jamais imaginei que fosse uma premiação desse porte. Fui eleita a professora mais influente do mundo.
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Me interessei pela educação ainda criança, sempre andava com uma lousa para cima e para baixo. A minha mãe não tinha muito estudo, só cumpriu o ensino médio, mas era uma pessoa que lia muito e criou três filhas sozinhas. Ela sempre falava que o que ela podia deixar para a gente era educação. E lutou muito para que a gente pudesse estudar.
Sou fruto da escola pública. Tive que trabalhar em indústria para poder pagar a minha faculdade e não tinha dinheiro para fazer um cursinho. Depois, concomitantemente com o trabalho de professora, atuei na área de recursos humanos de uma empresa. Lá, eu era responsável por selecionar jovens para o chão de fábrica e muitos não sabiam o básico de tecnologia. E isso me dava uma angústia muito grande.
Em 2013, eu passei no concurso da Prefeitura de São Paulo e escolhi para trabalhar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Felipe Ary Parreiras, que fica entre quatro grandes favelas da cidade, com alto índice de violência e de tráfico de drogas. Lá, surgiu a oportunidade de qualquer professor se candidatar a uma vaga de professor de tecnologia. E aí eu me recordei muito dessa minha frustração lembrando daqueles jovens que eu selecionava.
Ao me candidatar, a diretora olhou para mim e falou assim: “mas, Débora, você é uma excelente professora de Língua Portuguesa, por que você quer trabalhar com tecnologia?". E eu falei: “porque acredito que a tecnologia pode transformar a vida desses meninos e meninas”. Fiz uma proposta ousada, que era trabalhar com uma coisa que eu nunca tinha trabalhado na minha vida. E fui referendada pelo conselho de escola.
Débora Garofalo e seus alunos, durante o projeto Robótica com Sucata
Acervo pessoal
Fui muito autodidata. Em 2015, não existia um estudo aprofundado sobre robótica, só sobre cursos específicos mesmo e de automação. Eu tinha um pouco de noção pelo tempo que trabalhei na indústria, mas comecei no dia a dia ali. O objetivo não era que os nossos estudantes trabalhassem com códigos, mas que eles pudessem compreender o que existe por trás de um dado, o que é um algoritmo, o que é uma decomposição, tudo que envolve a parte de robótica. E aí eu fui estudar essa parte para poder transmitir para os meus estudantes.
Quando eu fui conhecer os meus estudantes, do 1º ao 9º ano, 70% deles relatavam que existia um problema na vida deles, que era a questão do lixo. Diante disso, tinha duas opções. Ou eu abraçava esse lixo como objeto de conhecimento ou ia me lamentar que não tinha material. E aí nasce, em 2015, o trabalho Robótica com Sucata.
Débora Garofalo e estudantes do projeto Robótica com Sucata recolhiam lixo das ruas de São Paulo para usar como material
Acervo pessoal
Naquele momento, não existia nada na internet sobre robótica com sucata. Tudo que a gente via de robótica eram kits especializados, kits caros, para fazer esse trabalho. Mas eu propus para eles que nós fôssemos juntos para as ruas, coletássemos esse material, levássemos para dentro da sala de aula, e fizéssemos parcerias com ONGs para revender o material que a gente não ia utilizar, tornando o trabalho algo sustentável e podendo criar.
Num primeiro momento eles criavam coisas que eles gostariam de ter, carrinho, avião, barco, para depois pensar em soluções mais sofisticadas para a comunidade. Eles criaram sensores para as enchentes, temporizadores para economia de energia, sensores para movimentar a cadeira de rodas de uma estudante com deficiência. E esse trabalho tomou uma proporção muito grande.
Um dos robôs desenvolvidos pelos alunos de Débora Garofalo, durante o Robótica com Sucata
Acervo pessoal
Primeiras premiações
Em 2017, eu recebi o primeiro prêmio com esse trabalho, que foi o prêmio da cidade de São Paulo, primeiro lugar em Direitos Humanos. Esse prêmio era organizado por pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos aqui da cidade de São Paulo.
Não fui eu que me inscrevi, foi o meu coordenador, e ele só me avisou quando eu fui finalista. Eu falei para ele: “já que você me inscreveu e eu não tinha conhecimento, eu só vou se a gente puder levar as crianças junto”. E ele conseguiu um ônibus, a gente levou as crianças. Chegou no dia, eu subi no palco com 40 crianças. Aquele dia foi muito impactante para mim, porque chegou o terceiro lugar, não era a gente, chamou o segundo, não era a gente, e aí, eu já comecei a chorar, porque a gente tinha ganhado o primeiro lugar.
Ver as crianças olhando para mim com aquela alegria, com aquele brilho no olhar de ver a professora deles ali sendo reconhecida, mudou alguma coisa dentro de mim. Eu vi a importância de você ser reconhecida para ser exemplo para essas crianças. E a partir de 2017, acabei ganhando uma série de outros prêmios, entre eles, aqui nacionalmente, o Prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação, e, internacionalmente, a medalha de Pacificadores da ONU.
Em 2019, pelo Global Teacher Prize, inicialmente, eu fui eleita uma das 50 melhores professoras do mundo, e, no decorrer da premiação, eu fui eleita uma das 10 melhores professoras do mundo. E a partir disso, eu me afastei da sala de aula e fui trabalhar em secretarias de educação.
Em 2019, Débora esteve entre os 10 melhores professores do mundo ranqueados pela Global Teacher Prize
Acervo pessoal
Inicialmente no estado de São Paulo, levei o projeto para 5.400 escolas, alcançando 3,7 milhões de estudantes. Além disso, nós criamos o Centro de Inovação da Educação Básica Brasileira. E, como gestora pública, eu consegui construir 18 centros de inovação que estão espalhados aqui na cidade de São Paulo. Eles funcionam tanto para professores como para estudantes. Seriam escolas ociosas, que seriam fechadas, e a gente fez um grande hub de inovação. São salas temáticas, de prototipagem, robótica, cultura maker, audiovisual, para que os professores e os estudantes possam fazer trilhas.
No final da gestão de 2022, eu recebi um convite lindo para ir para o Rio de Janeiro, para poder estruturar os Ginásios Internacionais Tecnológicos (GETs). São escolas vocacionadas ao uso de tecnologia e inovação, que têm um professor articulador, que movimenta a escola para o uso da tecnologia e inovação pautada nos pilares da computação, mundo digital, cultura digital e pensamento computacional.
Hoje eu atuo muito como consultora e formadora docente, mas sempre militando em prol de uma educação, que eu acredito que precisa ser mão na massa, Eu tive toda uma trajetória voltada para a educação, nos últimos anos atuando em cargos dentro de secretaria, auxiliando a política pública. Agora, tenho um pouquinho mais de liberdade, venho desenvolvendo alguns trabalhos para outras secretarias, mas não mais dentro delas, apoiando do lado de fora.
Eu tenho muitas expectativas para o futuro da educação porque eu acho que o prêmio Global Teacher Influencer reconhece um pouco do papel do professor como agente de transformação social e como liderança que extrapola os limites da sala de aula. Para a nossa educação, esse reconhecimento internacional também fortalece a valorização da profissão docente. Em um país onde os professores ainda enfrentam desafios estruturais, o prêmio envia uma mensagem poderosa, de que investir em professores, é investir no futuro.
Ele mostra que os educadores da rede pública brasileira têm competência, criatividade, impacto comparável aos melhores do mundo. O meu maior desejo de hoje é poder ver o meu trabalho (com robótica e inovação) sendo uma política pública do Brasil.
*Em depoimento a Amanda Rosa
