Vivi Para Contar: 'Aprendi da pior forma que, em zonas de conflito, o cenário muda a cada hora'

 

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Uma viagem a trabalho levou o jornalista Filipe Vidon a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, poucos dias antes de Estados Unidos e Israel deflagrarem a "Operação Fúria Épica", bombardeando o Irã e matando o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. O ataque desencadeou uma reação imediata do Irã, que também passou a bombardear países vizinhos no Oriente Médio, e Dubai foi um dos alvos.

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No vídeo abaixo, o repórter relata os dias tensos vividos em sua viagem da maior cidade dos Emirados, onde estava a convite da Uber, que apresentava à imprensa seu "carro voador", até Istambul, na Turquia, para conseguir voltar em segurança para o Brasil.

Vivi para contar

Leia o relato de Filipe Vidon na íntegra:

Cheguei em Dubai para acompanhar um evento a convite da Uber, com outros 100 jornalistas e influenciadores de dezenas do mundo todo. A apresentação da empresa incluiu novos veículos evtol, conhecido como carros voadores, e os robotaxis que já circulam pra cidade sem motoristas humanos.

No final, sair da cidade deixou de representar o fim de uma viagem a trabalho e virou uma operação de extração. Com a intensificação dos ataques nos Emirados Árabes, a orientação inicial foi fechar todas as malas o mais rápido possível e descer para o primeiro andar do hotel, onde o grupo se reuniu para avaliar a situação.

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Fizemos uma reunião virtual que contou com a participação do CEO da empresa e outros executivos que estavam avaliando a crise dos Estados Unidos. Eles explicaram que por se tratar de uma viagem a convite, não havia nenhuma possibilidade de permanecer em Dubai. Logo em seguida, uma equipe avançada de segurança, habituada a operações de extração de pessoas em zonas de emergência e proteção de autoridades, chegou para nos orientar.

O time de segurança, presente na sala de reunião do hotel em que estávamos hospedados, deixou claro que a prioridade total era garantir a segurança de todos durante o processo de extração do Oriente Médio. A previsão era que o conflito escalasse, e o grupo sob responsabilidade da empresa deveria sair do país o quanto antes. Mas, fomos informados de que não era seguro se movimentar naquela noite, com mísseis, drones e destroços caindo por toda parte.

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A estradas do país registravam vários vários pontos de bloqueio causados justamente por esses destroços, e a fronteira com os países jvizinhos á estava fechada. Ficar preso no meio do caminho seria infinitamente pior do que continuar abrigado no hotel em Dubai. Um detalhe que trazia um leve alento era que o nosso prédio ficava relativamente próximo à Embaixada do Irã, o que nos levava a supor que aquele local não seria alvo direto dos ataques.

A expectativa da equipe de segurança era de que a fronteira fosse reaberta na manhã seguinte e as estradas fossem limpas durante a madrugada. A aposta principal era o Omã, país considerado a “Suíça” do Oriente Médio por sua tradicional neutralidade, e que muito provavelmente seria o primeiro país a reabrir seu espaço aéreo.

Como estávamos sob a responsabilidade da empresa americana, a embaixada dos EUA reforçou as diretrizes para que permanecêssemos dentro do hotel, longe do telhado e das janelas. Parte do grupo optou por dormir junto em uma sala de reuniões no andar mais baixo do edifício, onde camas improvisadas foram montadas, já que não havia bunkers apropriados para esse tipo de situação.

Aeroporto Internacional de Dubai

Filipe Vidon / O Globo

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O novo plano era passar a noite ali e partir às 6h da manhã, por terra, rumo a um hotel próximo à fronteira para reavaliarmos as condições de seguir viagem. Passei a noite praticamente em claro. Enquanto reorganizava a mala, via da janela mísseis rasgando o céu de Dubai, seguidos pelos estrondos das interceptações e bolas de fogo alaranjadas na escuridão. O momento de maior pânico, no entanto, veio perto da 1h da manhã: todos os aparelhos eletrônicos da sala começaram a apitar simultaneamente, com um som estridente.

O alerta era uma mensagem do governo dos Emirados Árabes Unidos ordenando que todos buscassem abrigo imediatamente, pois os radares haviam rastreado um novo ataque que teria como alvo a região da Palm Jumeirah, a apenas alguns quilômetros de onde estávamos. Foi ali, na icônica ilha artificial em formato de palmeira, que um hotel de luxo havia sido atingido horas antes, provocando um incêndio e deixando quatro feridos.

Domingo, 1º de março

Após uma madrugada sem descanso, sob a tensão dos barulhos lá fora, um comboio com sete veículos chegou ao nosso hotel pontualmente às 6h. Meia hora antes de iniciarmos a jornada, o primeiro carro saiu em missão de batedor para garantir que a via estava livre e segura. Às 7h, nosso grupo de cerca de 25 pessoas embarcou. Em cada veículo, um segurança a bordo.

As ruas de Dubai, uma metrópole que praticamente não dorme, estavam completamente vazias. O silêncio absoluto reforçava o clima assustador, compondo um cenário digno de filme distópico. O destino era Al Ain, uma das últimas cidades nos Emirados Árabes antes da fronteira com o Omã. O trajeto durou cerca de uma hora e meia, com todos em estado máximo de alerta.

Ao chegarmos, fomos acomodados em um hotel de trânsito. O objetivo era nos alimentarmos e nos prepararmos para o trecho seguinte, bem mais longo e incerto, já que dependíamos das fronteiras abertas para sair do país e seguir até Mascate, capital do Omã. Deu tempo de tomar um banho, trocar de roupa e me alimentar.

Incêndio toma comta do Hotel Fairmont, atingido no ataque iraniano a Dubai nos Emirados Árabes.

Reprodução

Neste intervalo, a equipe de segurança fez uma varredura da rota que faríamos logo depois para checar se conseguiríamos cruzar a divisa — que operava com instabilidade desde os ataques, abrindo e fechando sem aviso prévio.

Para cada passo, havia um plano A e B. Se não passássemos, havia outro hotel reservado a poucos metros da barreira. Se cruzássemos e a situação piorasse em Omã, havia outro recuo planejado. O alvo, claro, era Mascate, nossa última parada antes de deixar o Oriente Médio.

Após três horas de espera em Al Ain, recebemos o sinal verde: a fronteira havia reaberto. Foi o momento mais tenso de toda a jornada. Chegamos ao posto de controle e a atmosfera era hostil, repleta de soldados fortemente armados.

Embarcamos em um ônibus autorizado a circular em Omã. Ao estacionar no posto de imigração para recebermos o carimbo de saída dos Emirados, ficamos retidos no veículo por cerca de 30 minutos. Todos sabíamos que havia algo de errado, mas ninguém comentava sobre.

O chefe da segurança retornou com a pior notícia possível: a fronteira havia sido fechada novamente cinco minutos antes da nossa chegada. As autoridades haviam travado nossa passagem, e ele precisaria de mais tempo para negociar a nossa saída.

Mais 20 angustiantes minutos se passaram até ele voltar com a notícia que nos fez respirar de novo: haviam conseguido uma exceção. Suas instruções, no entanto, deixavam claro que o clima era de risco. Fomos divididos em pequenos grupos e caminhamos em silêncio absoluto, ladeados pelos seguranças e por dois homens locais que atuaram também na negociação.

Com passaporte e cartão de crédito nas mãos para pagar a taxa de saída, entramos no precário posto de controle. Lá dentro, a confusão imperava. O processo para todo o grupo durou uma hora, mas deu certo. Tínhamos o carimbo de saída.

Agora, precisávamos enfrentar a imigração do Omã. Por lá, ficou evidente que não éramos os únicos usando aquela rota de fuga. O ambiente era de pressa, incerteza e pouco protocolo. Quando o último membro do grupo finalmente conseguiu o visto, embarcamos no ônibus esgotados, mas imensamente aliviados.

O último susto nos aguardava a poucos quilômetros dali. Dez minutos após entrarmos em território omani, fomos parados pela polícia, obrigados a descer do ônibus e tivemos nossos pertences revistados. O medo de morrer na praia bateu forte, mas o procedimento foi rápido e, logo em seguida, fomos liberados.

Misturando tensão e exaustão física e mental, percorremos os 350 quilômetros até Mascate. Já era fim de noite quando chegamos ao hotel, vizinho ao aeroporto internacional, nosso portal para o fim do pesadelo.

Segunda-feira, 2 de março

O plano original era fretar um jatinho particular para evitar o caos dos voos comerciais. A rota inicial seria Atenas, depois Cairo. Mas aprendi da pior forma que, em extrações de zonas de conflito, o cenário muda a cada hora — um tormento para os ansiosos. Passamos a segunda inteira aguardando esse jato, que estava retido no Egito esperando autorizações de voo. No fim do dia, veio o banho de água fria: o avião conseguiu os documentos, mas seguia imobilizado no chão devido a operações militares.

A incerteza voltou a reinar. Já estávamos há mais de 24 horas no hotel, em uma dinâmica que lembrava os piores dias da pandemia. Presos nos quartos, longe de janelas, refeições isoladas e, ocasionalmente, rápidos "banhos de sol" na área externa do hotel apenas para respirar um ar puro.

Foi só no fim do dia que começamos a costurar o nosso plano C. O espaço aéreo reabriu e alguns poucos voos comerciais começaram a decolar de Mascate. A primeira opção viável foi uma passagem para Istambul, na Turquia, para a tarde do dia seguinte. Compramos sem pensar duas vezes e começamos a organizar nossa volta para casa.

Com as passagens em mãos, seguimos para o Aeroporto Internacional de Mascate. O cenário por lá era de uma tranquilidade quase irreal, explicada pelo fato de que pouquíssimos voos ainda tinham autorização para decolar. No entanto, nas filas do check-in, a gravidade do que estava acontecendo do lado de fora ficava evidente. Era nítido que, conforme a guerra apertasse, aquele aeroporto se consolidaria como um dos principais hubs de evacuação do Oriente Médio.

Havia ali pessoas de todas as nacionalidades e idades. Vi mães abraçadas a bebês de colo, idosos em cadeiras de rodas, famílias inteiras aguardando o voo que deixaria o caos para trás. Todos ali, assim como o nosso grupo, haviam optado pela rota de fuga mais rápida e segura.

O momento da decolagem foi catártico. Quando o avião finalmente tirou as rodas do chão, o alívio deixou de ser uma sensação individual. Era um sentimento palpável, comum e compartilhado entre os 162 passageiros a bordo que partiam em direção a Istambul, deixando a zona de conflito para trás.

Já longe do espaço aéreo conflagrado, mais calmos e com o passaporte carimbado na Turquia, traçamos nosso caminho de volta para casa. Precisamos passar uma noite de conexão em Istambul, até que, na noite do dia 4 de março, finalmente embarcamos no voo direto para São Paulo.