'Viúvas negras': conheça o fenômeno das mulheres que se casam com militares para receber indenizações na Rússia

 

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O prolongamento da guerra na Ucrânia, já em seu quinto ano, tem impulsionado um fenômeno controverso na Rússia: o das chamadas “viúvas negras”, mulheres que se casam com militares com o objetivo de receber compensações financeiras em caso de morte no combate.

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A prática se sustenta em um sistema estatal que prevê indenizações elevadas às famílias de soldados mortos. Conhecido como grobovye, ou “dinheiro do caixão”, o benefício pode chegar a 13 milhões de rublos (cerca de 840 mil de reais), valor que, em regiões de baixa renda, representa uma transformação econômica significativa.

Mortalidade elevada amplia incentivos financeiros

Segundo o Euro News, estimativas indicam que o conflito já provocou mais de meio milhão de mortes, com mais de 200 mil baixas confirmadas entre militares russos, segundo levantamentos baseados em registros públicos e relatos familiares.

Nesse cenário, a alta probabilidade de morte no front, descrito por alguns como um “triturador de carne”, tem incentivado o uso do casamento como estratégia financeira. Há relatos de mulheres que firmaram múltiplos matrimônios com combatentes, acumulando compensações após sucessivas mortes.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Sergey Khandozhko, de 40 anos, que se casou e se alistou no dia seguinte. Ele morreu meses depois, e a esposa solicitou pensão mesmo sem convivência conjugal. A Justiça posteriormente classificou o casamento como fictício, destacando indícios de manipulação e interesse econômico.

Redes informais e alvos vulneráveis

Homens solitários, sem herdeiros diretos, são os principais alvos do esquema. Em diversas regiões russas, surgem relatos de redes que conectam mulheres a militares mobilizados, inclusive com apoio informal de agentes públicos.

Plataformas digitais e grupos em redes sociais funcionam como intermediários, enquanto denúncias apontam para a participação de funcionários de cartórios e até policiais na facilitação de casamentos suspeitos.

Desafios legais e impacto social

Apesar de o Estado russo manter tradição de assistência a famílias de militares, o fenômeno expõe fragilidades no sistema. Uma vez formalizado, o casamento garante direitos legais, mesmo quando há suspeita de fraude, especialmente se o soldado já tiver morrido e a indenização paga.

Diante da crescente incidência, propostas legislativas tentam endurecer punições para uniões simuladas, com penas que podem chegar a dez anos de prisão. Ainda assim, comprovar a intenção fraudulenta permanece um obstáculo jurídico relevante.

O avanço das “viúvas negras” reflete um contexto mais amplo de empobrecimento e economia de guerra, no qual o risco extremo no campo de batalha passa a ser visto, por alguns, como oportunidade de ascensão financeira, ainda que à custa da própria vida.