Vítima de suspeito da morte de influencer na Barra da Tijuca relata sessão de tortura: 'Estou aqui hoje pela graça de Deus'

 

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Juliana (nome fictício) não sabe com certeza como se sente. Parte dela sofre com a morte da modelo e influencer baiana Ana Luiza Mateus Souza, após a jovem de 29 anos cair do 13º andar de um prédio na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio. Outra parte é só alívio pelo acusado do crime, Endreo Lincoln Ferreira da Cunha, ter sido encontrado morto na cela em que estava, na Delegacia de Homicídios da Capital. Juliana conta uma história de medo, violência e humilhação nas mãos de Endreo, meses antes de ele começar o relacionamento com Ana Luiza que terminou em tragédia nesta quarta-feira. E afirma que outras quatro mulheres, além dela e Ana Luiza, sofreram algum tipo de violência causada pelo homem.

— Sei que é pesado dizer isso, mas dadas as circunstâncias de todo o mal que ele me causou, sim, sinto alívio pela morte dele — afirma ela. — É uma mistura de sentimentos, de tristeza e de que agora, de fato, eu vou poder voltar a ter minha vida de volta. Tive que mudar totalmente a minha rotina para conseguir existir, por conta do medo dele.

Juliana, de 31 anos, conta que conheceu Endreo no fim de 2024, na empresa de locação de veículos da família do rapaz de 35 anos, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Os dois se aproximaram e começaram um namoro. E, logo no início do relacionamento, veio a sensação de que algo estava errado:

— Ele começou a dar sinais de ser extremamente agressivo, possessivo e ciumento. Começou a controlar as minhas redes sociais, os meus amigos e a quantidade de vezes que eu falava com a minha família. E isso foi se intensificando até o ponto em que ele me agrediu pela primeira vez, em dezembro de 2024.

A agressão, explica a jovem, ocorreu porque Endreo viu trocas de mensagens entre ela e a mãe do rapaz, em que Juliana pedia ajuda para lidar com o namorado. Depois do espancamento, a jovem relata que foi levada para São Paulo, onde ficou em cárcere privado por 15 dias, sem acesso ao celular, até que os hematomas sumissem.

Houve uma tentativa de uma segunda agressão, ainda em São Paulo. Ela diz que, dessa vez, Endreo tentou se matar, ameaçando pular do apartamento, no 14º andar. Depois disso, o namoro acabou. Juliana, que trabalha como consultora de licitações, voltou para Campo Grande, mas o rapaz não aceitou a separação.

— Ele passou o ano inteiro de 2025 me perseguindo — recorda-se ela. — Ele me perseguia no trabalho, nas redes sociais, mandava mensagens para os meus clientes, para as mulheres dos meus clientes, dizendo que eu tinha um caso com eles. Ele sabia o horário em que eu chegava e que eu saía de casa. Em 26 de outubro, ele me sequestrou.

Endreo, segundo Juliana, havia planejado trancá-la na casa dele e preparou a residência para isso: fechou janelas e portas, ligou a TV e botou música alta para que ninguém a ouvisse pedindo socorro.

— Ele me levou para a casa dele aqui em Campo Grande e me manteve em cárcere privado por quase 24 horas — relata Juliana. — Ele me bateu muito. Ele não só me bateu: abusou de mim sexualmente, me enforcou com o cinto. Tive traumatismo craniano em dois lugares no meu rosto, várias escoriações pelo corpo. Ainda estou fazendo tratamento para recuperação parcial da visão periférica do meu olho direito.

O rapaz, conta ela, queria levá-la para a fazenda da família, matá-la e, depois, jogá-la do alto de uma cachoeira. Juliana diz que só escapou porque já tinha uma ideia de como lidar com Endreo:

— Conversei muito com ele, falei que tudo que estava acontecendo era culpa minha, que ele ia cuidar de mim como cuidou da primeira vez. Ele me acusava de ter outros homens. Ele gravou um vídeo fazendo com que eu, toda ensanguentada, assumisse todos os relacionamentos que, na cabeça dele, existiam. Gravou por mais de meia hora me fazendo perguntas e, toda vez que eu dizia não, ele me batia mais e eu tinha que assumir tudo que ele falava. Fiquei horas negociando com ele, até que consegui fazer com que ele me deixasse na UPA. Estou aqui hoje pela graça de Deus.

Juliana registrou o caso na polícia e Endreo chegou a ser preso, como mostram as informações de um habeas corpus que a defesa do rapaz impetrou no Superior Tribunal de Justiça (STF) — o pedido acabou sendo negado. Não há informação, porém, de como Endreo conseguiu deixar a prisão e vir para o Rio de Janeiro.

A jovem diz que as vítimas de Endreo tinham um ponto em comum: a aparência.

— Ana Luiza é muito parecida com a ex-namorada dele antes de mim. Até o cabelo, a cor do olho, o corpo. Ele buscava todas muito parecidas assim, sabe? Com os mesmos traços. É como se ele estivesse replicando o ódio de alguém na mesma pessoa. É doentio — analisa Juliana, lamentando a morte da modelo baiana. — Quando vi a matéria (sobre o crime), a primeira reação foi que poderia ter sido eu. Tive muita sorte de conseguir sair.