Violino no Salgueiro: músico que nunca tinha pisado na Sapucaí dará tom erudito ao desfile; conheça Mateus Soares
O Salgueiro se declara à carnavalesca Rosa Magalhães neste carnaval, homenageada pela escola dois anos após a sua morte. No momento em que os versos do samba-enredo dizem que foi ela, a Mestra, quem nos ensinou a amar a festa, a bateria e o intérprete Igor Sorriso se silenciam na Avenida: é quando a cantoria da torcida e dos componentes é guiada pelas cordas de um violino. O público poderá conferir isso nesta terça-feira no Sambódromo. O músico Mateus Soares, de 27 anos, será o responsável por dar esse tom erudito, como a temática de muitos desfiles da Professora, que destacavam cortes de realeza.
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Natural de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, Mateus se mudou para a capital em 2018, ano em que iniciou os estudos na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pela qual se formou bacharel em violino.
Antes, estudou bateria e tocou violão na igreja. Mas foi na ONG Orquestrando a Vida, em Campos, que chegou ao violino na adolescência.
— Na verdade, eu queria tocar clarineta. Mas não tinha vaga para essa turma. A vaga que tinha era para violino, foi quando a menina da produção de lá falou: “nossa, seus dedos são bons para violino”. É porque eles precisavam de violino — ri Mateus, que tinha vergonha do instrumento no início. — Gostava mais de pop rock.
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Depois de cerca de um ano, o jovem músico tomou gosto pelas cordas e pelo arco, quando passou a frequentar festivais de música, onde conheceu o maestro Daniel Guedes, que o orientou a prestar vestibular: o mentor acabou se tornando seu professor na UFRJ.
Turnê para Nova York
Com a pandemia no meio do caminho, Mateus se mudou para a Terra da Garoa ao passar na prova da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp), grupo do qual fez parte por dois anos. Foi preciso trancar a matrícula na faculdade, momento em que participou de turnês pelo Rio, São Paulo e até pelos Estados Unidos, onde tocou no Carnegie Hall, em Nova York.
Mateus Soares no Carnegie Hall, em 2022, onde tocou durante uma turnê
Arquivo pessoal
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O músico voltou ao Rio em 2023 e se formou. Atualmente, ele faz parte do Quarteto Guanabara, um dos grupos mais tradicionais de música de concerto, e colabora com a Orquestra Sinfônica Brasileira, com a qual toca com frequência. Até os ensaios do Salgueiro na Avenida, sequer tinha pisado no Sambódromo.
Do convite 'inusitado' à ansiedade
Mateus, que vive sob o lema de que “música é música”, foi convidado para gravar ainda o samba-enredo do Salgueiro na segunda metade do ano passado, o que define como “inusitado” e que acreditava ser uma ocasião isolada.
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Em novembro, entretanto, voltou a ser procurado pelo diretor musical da escola, Alemão do Cavaco, que perguntou se estava “tudo certo” para participar dos ensaios e do desfile.
— À primeira vista, soou meio esquisito (violino na Sapucaí), mas aceitei. Gosto de samba, já toco choro, e a gravação foi super legal, fui muito bem recebido — resume Mateus.
Mateus Soares: violino fará referência a trilha de piratas e ao Sítio do Pica-Pau-Amarelo no desfile do Salgueiro
Marcelo Theobald / Agência O Globo
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Alemão do Cavaco, por sua vez, explica que a “cobrança para a nota 10” está cada vez maior. Por isso, além de mixagens e arranjos, é preciso “trazer uma novidade”. A sugestão por um “instrumento de fora” veio do mestre de bateria Gustavo, que comanda os ritmistas ao lado do irmão, Guilherme.
Diferentemente de outros desfiles que usaram o violino, como o da Beija-Flor, que os trouxe na bateria em 1995, o Salgueiro irá plugar o instrumento no sistema de som da Avenida, o que o fará ser julgado junto ao “carro de som”, como ainda se chama o grupo, apesar de o veículo propriamente ter sido aposentado neste ano.
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Além do momento em que guia o desfile durante o silêncio do puxador e da bateria, o violino servirá para dar ainda um clima de tensão durante o verso “Assim descobri meu país” — alusão aos piratas — e fazer referência ao Sítio do Pica-Pau-Amarelo quando o samba cita personagens de livros, protagonistas dos carnavais de 2003 e 2005 de Rosa pela Imperatriz, respectivamente.
— Quero dar uma sensação de novidade, para dar um colorido no ouvido das pessoas. E trazê-las para dentro do enredo, que é audiovisual: enquanto estiverem vendo a Rosa, vão ouvir as trilhas do que ela fez — observa Alemão.
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Natural de Campos, Mateus Soares só acompanhava aos desfiles pela TV. Agora se diz torcedor do Salgueiro
Marcelo Theobald / Agência O Globo
Mateus, que nasceu em 1998, um ano antes de Rosa emplacar um tricampeonato pela Imperatriz (a carnavalesca tem 7 títulos da folia), de certa forma, também está aprendendo a amar a festa — como diz o samba-enredo — a partir da Mestra. Agora o músico já se identifica até como torcedor do Salgueiro.
— Estou muito ansioso, estou querendo desfilar logo. Estou muito apreensivo, o samba fica na cabeça o tempo inteiro. Sempre que me vejo tocando em algum vídeo, tento melhorar algo. Quero chegar no desfile perfeito — conclui.
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