Violência nem sempre deixa marcas: como identificar sinais de abuso em uma relação

Violência nem sempre deixa marcas: como identificar sinais de abuso em uma relação

Fonte: Bandeira



Relatos compartilhados nas redes sociais, denúncias de figuras públicas e debates que ganham repercussão nacional têm transformado a forma como a violência em relacionamentos é percebida. Nos últimos anos, histórias antes restritas ao ambiente privado passaram a ocupar espaço no debate público, ampliando o acesso à informação e ajudando muitas pessoas a reconhecer situações que, durante muito tempo, foram naturalizadas.

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Para Graziela Jurça Fanti, a exposição dessas experiências tem desempenhado um papel importante na identificação de padrões abusivos. Segundo a advogada, o contato com vivências semelhantes permite que muitas pessoas consigam nomear situações que antes enfrentavam em silêncio e deem os primeiros passos em busca de apoio.

"As redes sociais criaram algo que não existia antes: um espelho coletivo. Quando uma mulher vê o relato de outra e pensa 'isso também acontece comigo', algo se rompe internamente. Aquela sensação de que o que vive é normal, particular, culpa sua. Essa exposição ajuda a identificar padrões de comportamento abusivo que muitas vezes ela não conseguiria nomear sozinha, e esse reconhecimento pode ser o primeiro passo real em direção à busca de ajuda", diz ao GLOBO.

Além de ampliar a circulação de informações, o ambiente digital também passou a funcionar como uma rede informal de acolhimento. Mulheres encontram comunidades de apoio, trocam experiências e chegam a serviços especializados já com uma compreensão maior sobre aquilo que estão vivendo. Ao mesmo tempo, a especialista alerta para os riscos da desinformação e da circulação de conteúdos imprecisos sobre direitos e garantias legais.

Outro aspecto frequentemente presente nos atendimentos de Graziela é a dificuldade de identificar os primeiros sinais de uma relação abusiva. Na maioria dos casos, o controle não surge de forma explícita, mas se constrói de maneira gradual, por meio de comportamentos que, à primeira vista, podem ser interpretados como demonstrações de afeto ou preocupação.

"Nenhuma violência doméstica começa no primeiro encontro. Ela se instala de forma gradual, quase imperceptível, e é exatamente essa gradualidade que torna o reconhecimento tão difícil", afirma.

Comentários sobre roupas, críticas constantes disfarçadas de brincadeira, tentativas de afastamento de amigos e familiares ou ciúmes excessivos costumam aparecer entre os primeiros sinais de alerta. Isoladamente, podem parecer situações corriqueiras. Em conjunto, porém, podem configurar uma dinâmica de controle que se intensifica ao longo do tempo.

A advogada também chama atenção para o chamado ciclo da violência, marcado pela alternância entre episódios de agressão e momentos de afeto intenso. Essa dinâmica contribui para gerar dúvidas sobre a própria percepção da realidade e dificulta o rompimento da relação.

"Após episódios de humilhação ou raiva, vem a fase que chamamos de lua de mel: afeto intenso, promessas de mudança, arrependimento demonstrativo. Esse ciclo cria um vínculo confuso e poderoso, que faz com que a pessoa questione a própria percepção do que vive", detalha.

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Nas relações LGBTQIAP+, ela destaca que alguns mecanismos podem assumir características específicas, como ameaças relacionadas à orientação sexual ou identidade de gênero e o uso de vulnerabilidades sociais como instrumento de controle. Segundo Graziela, a dificuldade de reconhecimento também pode ser ampliada pela ideia ainda disseminada de que a violência doméstica estaria restrita a relações heterossexuais.

Se as redes sociais podem funcionar como espaço de acolhimento, elas também passaram a integrar o cenário da violência contemporânea. Ferramentas criadas para compartilhar momentos do cotidiano podem ser utilizadas como instrumentos de monitoramento e perseguição.

"O ambiente digital se tornou um campo fértil para o exercício do controle e da perseguição. Localização compartilhada, stories que revelam rotina, check-ins, marcações de amigos: tudo isso pode ser usado por um agressor para monitorar, intimidar e antecipar movimentos da vítima", observa.

Por outro lado, a mesma tecnologia tem contribuído para a responsabilização de agressores. Mensagens, áudios, capturas de tela e registros digitais passaram a ocupar papel cada vez mais relevante na produção de provas e nas investigações.

No atendimento às vítimas, um dos aspectos que mais chama atenção da advogada é o desconhecimento sobre formas de violência que não deixam marcas físicas. Muitas pessoas chegam sem conseguir nomear o que viveram, mesmo após anos convivendo com situações de abuso psicológico, patrimonial ou moral.

"O que mais me surpreende, e ainda me surpreende mesmo depois de anos de atendimento, é o quanto as pessoas chegam sem saber que o que viveram tem nome. Não é desinformação sobre a lei em si, é algo anterior: a ausência de vocabulário para nomear a própria experiência", explica.

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Divulgação

De acordo com Graziela, a associação da violência apenas a agressões físicas ainda impede que muitas vítimas reconheçam situações graves e busquem proteção. Casos de violência patrimonial, violência psicológica e violência vicária — quando os filhos são utilizados como instrumento para atingir a mãe — continuam sendo pouco identificados pela população.

Para além das medidas judiciais, Graziela ressalta que o acolhimento emocional é parte fundamental do processo. Em muitos casos, a violência deixa marcas profundas na autoestima, na percepção da realidade e na capacidade de tomar decisões:

"O impacto emocional mais comum que observo é a dúvida sobre a própria percepção da realidade: 'será que estou exagerando?'. É devastador, porque muitas vezes essa dúvida foi deliberadamente cultivada pelo agressor ao longo do tempo."

Ela acrescenta que o isolamento costuma ser uma das estratégias mais eficazes de quem exerce violência, tornando a reconstrução da rede de apoio um elemento central para que a vítima consiga romper o ciclo e reconstruir a própria vida. "A rede de apoio não é um detalhe. É parte da sobrevivência", conclui.